História do "Lapa Azul"

Memória da FEB x Anacronismo

Confrontando os relatos dos oficiais do Comando da Força Expedicionária Brasileira, é perceptível a divergência de opiniões acerca da estratégia adotada nas diversas batalhas travadas pelos brasileiros durante a II Guerra Mundial.

Um exemplo clássico pode ser visto nos diversos livros de Memórias do Marechal Floriano de Lima Brayner, cuja narrativa sobre a Campanha colide frontalmente com a do Marechal Mascarenhas de Moraes em vários trechos; em especial, nos referentes aos combates.[i]

Desde a Campanha no Vale do Sercchio, passando pelos ataques ao Monte Castello, até o sangrento combate de Montese, as opiniões de Brayner diferem acentuadamente das de Mascarenhas. Embora as narrativas de dois dos mais graduados chefes da FEB sejam conflitantes, a historiografia nacional não deu muita atenção a essa discrepância.

Foram raros os trabalhos publicados com o foco na estratégia e na eficácia em combate dos pracinhas, com destaque para a análise da manobra no Vale do Sercchio, do Prof. Dr. Dennison de Oliveira (link) e o capítulo escrito pelo Prof. Dr. César Campiani Maximiano no livro Allied Fighting Effectiveness in North Africa and Italy, 1942-1945. Todavia, o conflito entre as versões dos oficiais do Estado-Maior brasileiro permaneceu praticamente intocado nos últimos 30 anos.

Não é preciso muito esforço para avaliar o grau de importância desse estudo para uma avaliação global da FEB. Da mesma forma, fica evidente a necessidade de uma gigantesca empresa para a reconstituição desse episódio em suas nuances.

Quando indagados sobre a rarefeita bibliografia recente que aborda o estudo do tema, alguns historiadores justificam-se com base na sua complexidade, além da dificuldade de acesso às fontes de consulta. Embora até certo ponto as desculpas sejam válidas, elas não respondem satisfatoriamente o questionamento. Por sinal, as narrativas de algumas batalhas históricas vêm sendo reconstituídas regularmente — e com excelência — por historiadores e pesquisadores estrangeiros (A Batalha de Moscou, de Andrew Nagorski, é um dos exemplos mais recentes).

conflitos

Marechais Mascarenhas de Morais e Brayner: o Comandante da FEB e o seu Chefe de Estado-Maior tiveram opiniões conflitantes sobre os principais combates dos pracinhas na Itália.

A resposta a essa questão precisa ser buscada nos alicerces do nosso sistema educacional. No Brasil, a desafiadora tarefa de reconstituir o passado esbarra não apenas nos óbices naturais que envolvem a pesquisa histórica, mas, principalmente, em uma mentalidade.

Ao participar de alguns seminários de estudos sobre a FEB, tive a oportunidade de dialogar com vários historiadores acerca do tema. Certa vez, quando mencionei acerca da necessidade da reconstituição das batalhas na Itália, um deles interveio taxativamente:

 – É impossível reconstruir o passado como ele realmente foi, pois hoje há apenas fragmentos do que aconteceu. O passado está perdido para todo o sempre.

Embora tenha sido desapontadora, a conversa foi útil para confirmar uma suspeita antiga. No meio acadêmico existe a concepção arraigada de que o passado deva ser trazido para o presente e analisado sob o prisma dos valores e conceitos atuais. Segundo tal raciocínio, é impossível “voltar no tempo”. Este sofisma erigiu uma das barreiras que impede o correto entendimento da história brasileira, promovendo a avaliação do passado segundo valores que não pertencem ao seu tempo: o anacronismo.

Nada acontece por mero acaso. O anacronismo é o resultado da ideologização dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que decretaram a caducidade do ensino tradicional da História em prol das “capacidades intelectuais autônomas do estudante” e da constituição da sua “identidade social”. De acordo com o modelo adotado pelo Ministério da Educação, até mesmo as crianças das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental são chamadas a interpretar a História segundo o seu ponto de vista.[ii] Pergunta-se: o grau de conhecimento da história e de vivência das crianças entre seis e catorze anos lhes permite a  interpretação do processo civilizatório? A educação brasileira prescreve uma inversão de valores surreal: é o fato histórico que precisa moldar-se ao entendimento do aluno/historiador.

crianças

Segundos os Parâmetros Curriculares Nacionais, as crianças das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental devem interpretar a História conforme as suas “capacidades intelectuais autônomas”.

Como não poderia deixar de ser, o confortável modelo interpretativo caiu nas graças de alunos e professores. Em especial, naqueles que buscam explicações simplistas em problemas complicados, e nos que têm alergia à demorada e cansativa pesquisa histórica. Tempos atrás, o universitário pego na armadilha anacronista, ao elaborar um trabalho acadêmico, era prontamente chamado à razão pelo mestre. Hoje ele é aplaudido. O anacronismo acabou sendo incorporado à doutrina educacional — ainda que sob camadas de verniz semântico.

Ingenuamente, muitos julgam que o novo modelo que reconstitui o passado segundo os valores da atualidade seja um avanço da historiografia. Muito pelo contrário. O anacronismo é um dos tentáculos do velho marxismo cultural no meio escolar (link). Trata-se de uma forma eficiente de contestar os valores tradicionais da sociedade, trocando-os pelos que a ideologia dominante julga apropriados.

O resultado prático desse processo pode ser visto não apenas na memória da FEB, mas também em inúmeros episódios da história nacional. Parece inacreditável, mas ainda não houve tempo suficiente para que a historiografia brasileira pudesse elaborar uma versão consensual sobre a Guerra do Paraguai, ocorrida no século retrasado (link).

A julgar pelo anacronismo prevalente na educação brasileira, salvo algum feliz acidente de percurso, as versões contraditórias de Mascarenhas, Brayner e de outros oficiais sobre o desempenho da FEB em combate permanecerão sem uma avaliação qualificada indefinidamente.


[i] Em particular, no livro A Verdade Sobre a FEB. Depoimentos de Oficiais da Reserva também oferece uma narrativa diferenciada sobre o tema.

[ii] BRASIL Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais / Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1997, p.31. Cf. < http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro051.pdf >.

3 respostas »

  1. Eu acho que a polêmica do Brayner e do Mascarenhas foi muito bem explicada pelo Cordeiro de Farias no “Meio Século de Combate”. Concordo com o comandante da AD. Brayner foi eclipsado, e ficou décadas – desculpe o termo, mas foi isso mesmo – “choramingando”.

    E de fato há uma discrepância enorme entre o que aconteceu de fato em Monte Castello e entre o que dizem que aconteceu. Aquela história da barragem americana que quebra o sigilo, por exemplo, não é verdadeira.

    Mas Brayner ainda fornece explicações importantes e coerentes para os problemas de Monte Castello. Por exemplo, ele tem muita razão quando escreve sobre a falta de prática na cooperação entre os blindados americanos e a infantaria brasileira. A história da combinação das armas evidencia a importância da confiança mútua e de unidades que estejam habituadas a operar juntas. Em Monte Castello isso não aconteceu. As tropas americanas e brasileiras simplesmente não se conheciam.

    Quanto aos PCN, só servem para ser atirados ao lixo, junto com a LDB, currículo Lattes, MEC, CAPES, CNPq e todo entulho burocrático de controle ideológico disfarçado de projeto educacional.

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