História do "Lapa Azul"

Para que serve a memória da FEB?

regresso

Regresso de Heróis – Capa da Revista A Noite Ilustrada, de 28 Ago 1945. O flagrante mostra um aspecto da chegada de regresso à pátria, dos heróicos expedicionários que constituem o segundo escalão da FEB, depois de uma campanha brilhante em que provaram, ombro a ombro com veteranos de guerra, a fibra combativa dos brasileiros em defesa da honra nacional e da liberdade.

Quando eu era menino, meu pai contava emocionado acerca do seu voluntariado para a FEB. Com apenas 22 anos, alto e robusto para os padrões físicos da época, sua incorporação no contingente expedicionário era quase certa. Todavia, durante o rigoroso exame de saúde promovido pelo Exército, o médico perguntou-lhe a razão de uma cicatriz de uma operação em seu corpo.

Hérnia, tenente.

Foi a resposta que decretou sua inaptidão física. Ao vê-lo desconsolado, o doutor confortou meu pai dizendo:

— Não fique triste rapaz! Muitos daqueles que foram às ruas pedir a guerra estão hoje escondidos debaixo das saias das mães.

Essa lembrança familiar é cada vez mais recorrente conforme se aproxima o aniversário de 70 anos do término da campanha da FEB, acompanhado do quase absoluto desprezo da mídia, do meio acadêmico e do Poder público com a memória dos pracinhas. No Rio de Janeiro, o governo do Estado anunciou a venda do imóvel onde se encontra o Museu da FEB (link). Em Brasília, no terreno destinado oficialmente à construção do Memorial Heróis da Pátria, o governo do Distrito Federal começa a erguer uma memorial dedicado a João Goulart (link).

memorial heróis da pátria

Sonho desfeito – Em Brasília, o terreno originalmente reservado à construção do Memorial Heróis da Pátria foi destinado à construção de um memorial a João Goulart.

Tais ações causaram o justo repúdio de um bom número de pessoas, dispostas a preservar o legado febiano. Porém, as queixas costumam ser mais emotivas do que baseadas na razão. Sobretudo, deixam de lado algumas questões centrais: para que serve a memória da FEB? Porque ela é tão desvalorizada? O que fazer para reverter este processo? Antes de seguir adiante, é preciso retirar a “cortina de fumaça” lançada sobre o tema, rejeitando as falsas respostas baseadas na baixa qualidade do ensino ou na rejeição ao Regime Militar — findado há 30 anos. Mais do que isso, é preciso compreender a desvalorização da trajetória dos pracinhas como parte de processo maior em curso.

É praticamente impossível encontrar uma nação desenvolvida que não valorize o seu passado cívico-militar. Sejam os norte-americanos, com os pais-fundadores do país: Founding Fathers of the United States, heróis e veteranos de guerra; os italianos e alemães, com os protagonistas da unificação dos seus países; os franceses, com Napoleão Bonaparte; ou os britânicos, com o Almirante Nelson, tais nações guardam um lugar de destaque para esses personagens em seus manuais escolares — e há uma boa razão para isso. Eles são figuras históricas nobres da nação, que representam a honra, o orgulho ancestral, e os mais elevados valores morais e cívicos, compondo sua expressão psicossocial.

fundadores

Fundadores dos EUA – Como ocorre nos EUA, os vultos e episódios históricos são destacados nos manuais escolares das sociedades ocidentais. No Brasil, isso depende do seu conteúdo ideológico.

No Brasil, infelizmente, os protagonistas dos nossos episódios históricos costumam ser apresentados aos estudantes de forma caricatural. Segundo algumas versões populares no meio escolar, Dom Pedro I teria proclamado a Independência montado num jumento; Deodoro da Fonseca, proclamado a República de pijamas; e o Duque de Caxias teria sido um genocida, entre muitas outras. A jornada da FEB também não escapa ao estupro da História. De acordo com uma legião de educadores, a ida dos pracinhas à guerra foi uma “troca” pela Usina Siderúrgica de Volta Redonda. Duvida? Pergunte acerca desses temas a um jovem em idade escolar.

Por sua vez, a deturpação da história pátria é o alimento de apenas uma das cabeças da hidra totalitária, disposta a liquidar o legado intelectual, cultural e religioso recebido dos nossos antepassados. Não vamos falar aqui de marxismo cultural, da Escola de Frankfurt, ou da Pedagogia do Oprimido (link), nem vamos procurar convencer o leitor dos seus efeitos sobre gerações de estudantes. Basta lembrar que o ideário de alguns dos seus mentores (Antônio Gramsci, Theodor Adorno, Paulo Freire, etc) compõe o filtro ideológico que a universidade brasileira costuma usar para selecionar seus professores.

O desprezo à memória da FEB é um dos fronts da guerra que busca dominar as “trincheiras da sociedade” (a imprensa, a igreja, as Forças Armadas, o universo acadêmico, etc,), conforme Antonio Gramsci preconizou há quase um século (link). Assim, não é de se estranhar que a história da Força Expedicionária Brasileira tenha sido expurgada dos currículos, hoje cada vez mais abertos ao estudo de culturas e religiões estranhas ao nosso passado — isso para não falar do proselitismo de cunho marxista na Escola, empenhado em destruir a instituição familiar, a fé, e o direito à vida.

No Brasil, este processo encontra-se num estágio intermediário, aguardando a passagem para um novo patamar em que os recalcitrantes sejam assassinados (Argentina), ou presos e torturados (Venezuela), até que o ciclo seja finalizado (Cuba). Ele não terminará enquanto não forem destruídos por completo os laços históricos, culturais e religiosos que unem os brasileiros. Nesse dia, já não restará de pé uma única estátua, museu ou monumento em homenagem à FEB.

Aquele que defende o legado dos pracinhas deve estar ciente das razões pelas quais ele merece ser conservado. Bem mais do que o respeito à lembrança de um pai ou avô, cuidar da memória dos veteranos é louvar o exemplo de um grupo de homens que lutou pela nossa liberdade contra a opressão do totalitarismo. É respeitar a memória dos nossos antepassados, que num momento desfavorável aos Aliados na guerra escolheram ombrear-se às nações democráticas contra a tirania. É exaltar o patriotismo, que uniu homens de diferentes raças, crenças e níveis sociais para a luta contra o inimigo comum. É glorificar a alma brasileira, pacífica porém valorosa, que nos une como nação em torno de valores perenes. É justamente isso o que o monstro totalitário — que se alimenta do ódio e da desunião — não suporta.

guerreiros

Lembrança incômoda para a hidra totalitária – O Diário da Noite homenageia os pracinhas brasileiros em 31 de março de 1944.

O que fazer quanto ao futuro da memória da FEB? A resposta remete a uma escolha que nossos pais e avós tiveram de fazer nos anos 1940. Ou enfrentamos a hidra totalitária ou nos escondemos debaixo das saias das nossas mães. Não há espaço para o meio-termo.

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