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A Última Enfermeira

Completou 103 anos na última sexta-feira, a capitão Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero, última das 67 enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira e de outras seis enfermeiras que atuaram junto ao 1º Grupo de Aviação de Caça.

Virgínia Portocarrero, nasceu na Cidade do Rio de Janeiro. Apresentou-se voluntária para a FEB, na Diretoria de Saúde do Exército, no prédio do então Ministério de Guerra, hoje Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro. Realizou Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército, de janeiro a abril de 1944, sendo convocada como Enfermeira de 3ª Classe. Em junho de 1944 seguiu, por via área, para a Itália, vindo a servir nos hospitais norte-americanos, na Seção brasileira. Em agosto, por determinação do Comandante da FEB, junto com as demais companheiras enfermeiras, foi arvorada ao posto de 2º tenente.

Enfermeira Virgínia Portocarrero assinalada com o círculo vermelho, durante formatura da tropa em Vada (25 de agosto de 1944). Ela foi uma das cinco enfermeiras precursoras da FEB.

Em 1944, como tantas jovens de sua época, Virgínia poderia ter permanecido no conforto da Capital Federal, alheia ao banho de sangue da guerra. Aos 27 anos, atraente e charmosa, poderia passar o tempo bronzeando-se nas areias da praia de Copacabana, arrancando suspiros e galanteios dos rapazes cariocas. Mas ela escolheu outra ocupação bem diferente: zelar pela vida e a saúde de outros jovens brasileiros feridos no campo de batalha:

“Inicialmente, gostaria de dizer do meu orgulho de ter pertencido a FEB, de ter tratado desses heróis, que foram os seus integrantes. Foi uma fase muito penosa, mas muito bonita na minha vida, cooperar com esses abnegados militares que tanto deram de si, alguns a própria vida, a maioria a sua própria saúde – física e mental – para melhorar a situação do povo brasileiro; foi um orgulho enorme”, testemunhou ela perante a História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial.

Virginia foi uma das cinco enfermeiras precursoras, sendo, portanto, uma das que mais tempo esteve no teatro de operações da Itália.

Jovem e atraente, Virgínia trocou o conforto e a segurança do Rio de Janeiro pelos perigos de uma guerra mundial.

“Cheia de cuidados e responsabilidades, tratei-lhes o físico e o moral, agradecendo a Deus por ter-me guiado a tais paragens e me proporcionado forças para poder aliviar-lhes as dores com minhas próprias mãos. Que orgulho poder cuidar de um herói! Em vez de lágrimas nos olhos, eu lhes sorria e a todos encorajava pelos valores que deles emanavam. Sabia que se demonstrasse apreensão, o reflexo na enfermaria seria ruim. Fingia alegria, transmitindo-lhes paz, porém me doía, profundamente, ver aqueles meninos tão machucados. Com o auxílio de mantas e travesseiros, conseguia amenizar-lhes os padecimentos.

Em geral, nos hospitais de evacuação fazíamos o possível para que as mutilações não fossem notadas pelas vítimas. Na sala de operação, a equipe médica completava com grande maestria os membros amputados, preenchendo-os com gesso para que não fossem notados pelos pacientes. No início, não pressentiam a mutilação. Queixavam-se de dores em membros que já não existiam. Através de suas papeletas e na visita médica éramos sempre informadas do ocorrido, porém, muitas vezes, um companheiro desavisado chegava para visitar um amigo e deixava transparecer o ocorrido. Quando isso acontecia, era de fato muito difícil controlar a situação, para que não se tornasse mais séria.”

Após a guerra, Virgínia foi licenciada do Serviço Ativo e retornou à Prefeitura do Distrito Federal, onde serviu até 1957. Neste ano, por dispositivo legal, foi convocada para o Serviço Ativo do Exército, retornando no posto de 2º tenente e classificada na Policlínica Central do Exército. Em 1962, foi promovida ao posto de 1ºtenente Enfermeira. Em 1963, deixou o Serviço Ativo, quando foi promovida a capitão, ingressando na Reserva de 1ª Classe. Por sua participação na Segunda Guerra Mundial recebeu a Medalha de Campanha e a Medalha de Guerra.

São muitas as histórias contadas por ela durante a entrevista inclusa no Tomo 6 da coleção da História Oral do Exército, que pode ser baixado neste link da Biblioteca Digital do Exército. Virgínia fez parte de um grupo altamente voluntarioso de mulheres que trocou o conforto e a segurança de seus lares pelos perigos de uma guerra mundial, quando uma simples viagem para outro país, em tempos de paz, era uma verdadeira aventura para as pessoas da época. Poucos meses antes da chegada dos pracinhas à Itália, uma granada de artilharia germânica matou e feriu várias enfermeiras num hospital de evacuação. Os “Anjos de Anzio“, como ficaram conhecidas as vítimas fatais norte-americanas, trabalhavam no mesmo V Exército em que as brasileiras iram servir.

Em qualquer nação que combateu na Segunda Grande Guerra, sua última enfermeira seria objeto de homenagens e distinções variadas — exceto no Brasil. Num país em que a maior parte dos universitários completa o ensino superior sem ao menos saber o significado da sigla FEB, a história das abnegadas do Serviço de Saúde foi relegada ao ostracismo.

A jornada das enfermeiras da FEB e da FAB representa o maior exemplo de denodo coletivo da mulher brasileira em todo o século XX. Ninguém lhes obrigou vestir a farda. Foram voluntárias para seguir rumo às tribulações e vicissitudes da guerra.

Os movimentos feministas, que poderiam enaltecer essa memória especial, simplesmente as ignoram, pois a narrativa desse patriotismo lhes é incômodo. Em lugar das enfermeiras febianas, preferem louvar figuras de aparência bizarra: sejam as do passado, com monocelha e buço peludo; ou as do presente, masculinizadas, de cabelo colorido como o de um palhaço de circo. A tais movimentos, é proibido saudar a coragem e o sacrifício pessoal em prol de causas nobres. Importa destacar o ativismo político ligado ao marxismo cultural.

Felizmente, esses grupos não representam o valor da verdadeira mulher brasileira, que foi excepcionalmente representada por Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero nos campos de batalha da Itália.

FELIZ ANIVERSÁRIO, CAPITÃO!

***

4 respostas »

  1. Diferentemente das vivandeiras que objetivavam o comércio, as enfermeiras nunca comerciaram, ao contrario, doaram-se em prol dos soldados brasileiros.

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    • Caro José, obrigado pela sua contribuição. Na Campanha da Tríplice Aliança havia vivandeiras de vários tipos e, de fato, tal menção pode vista como desairosa. Retirei esse trecho.

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  2. Grande matéria, muito bem escrita. Precisamos mais que nunca, de grandes modelos de abnegação, desprendimento e amor, como o da capitão Virginia.

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