História do "Lapa Azul"

Um Febiano Contra a Guerrilha Comunista

A quase desconhecida e impressionante história a seguir está inclusa no livro Pelo Bem da Humanidade, narrando a ação de Nicolau José Seixas: 1° tenente subcomandante da 8ª Cia, do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria (O “Lapa Azul”) durante a Segunda Grande Guerra.

Em 1962, já tenente-coronel, Seixas liderou um comando antiguerrilha do Exército Brasileiro na região de Dianópolis (hoje no Estado de Tocantins), como Chefe do Serviço de Prevenção e Repressão das Infrações contra a Fazenda Nacional no Distrito Federal. Seu achado foi impressionante.

“Em março de 1964, o presidente João Goulart emparedou o Poder Legislativo com o apoio dos sindicatos e militares próximos, forçando a aprovação de reformas de base — “na lei ou na marra” era o grito da militância. Durante o Comício das Reformas, organizado pelo governo na Central do Brasil, Goulart discursou à multidão: “Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação”.

Com sua retórica contumaz, agressiva e irresponsável, Leonel Brizola, cunhado do presidente, exortou-o a “abandonar a política de conciliação”, instalando uma Assembleia Constituinte com vistas à criação de um congresso popular, composto de camponeses, operários, sargentos, oficiais nacionalistas e homens autenticamente populares — em outras palavras, um soviete tropical.

Jango começou a governar por decretos, ignorando o Parlamento ao encampar refinarias em meio à inflação galopante. Apoiou a indisciplina crescente nos quartéis, enquanto greves organizadas em sindicatos, sob o controle dos comunistas, paralisavam a Nação. O fechamento do Congresso Nacional era cada vez mais provável, em um governo que colaborava ativamente para insuflar o caos social.

Aparentemente, seguia-se um roteiro inspirado na documentação da operação ativa I–V, criptônimo LUTA, enviada ao Rio de Janeiro pelo serviço de Inteligência tcheco, que tinha o objetivo de provocar uma guerra civil (link). Os indícios dos preparativos para a conflagração interna estavam visíveis desde 1962.

Dois anos antes do comício na Central do Brasil, enviaram-se enormes caixotes com geladeiras a uma fazenda em Dianópolis, no interior de Goiás (na atualidade, no Estado do Tocantins). O destino daquela remessa— para uma região erma e sem energia elétrica — despertou a suspeita do Chefe do Serviço de Repressão ao Contrabando, tenente-coronel Nicolau José Seixas, getulista e veterano da FEB.

Temendo que latifundiários estivessem contrabandeando armamento, Seixas reuniu seus homens e organizou uma batida na fazenda durante a madrugada. Surpreendidos, os ocupantes fugiram para o mato sem oferecer resistência. Ao inspecionar o local, a equipe encontrou revólveres, metralhadoras e mosquetões [armas fabricadas na Tchecoslováquia], inúmeras bandeiras cubanas, retratos e textos de discursos de Fidel Castro e do deputado pernambucano Francisco Julião (líder das Ligas Camponesas), manuais de instrução de combate e planos para a instalação de novos focos de sabotagem. Além disso, deparou-se com “minuciosa descrição dos fundos financeiros enviados por Cuba para montar o acampamento de todo o esquema de sublevação armada das Ligas Camponesas noutros pontos do país”.

Na verdade, Seixas desbaratou, por acaso, campos de treinamento de guerrilheiros montados pela ditadura de Fidel Castro nos municípios de Almas e Dianópolis: a Sierra Maestra do sertão brasileiro. Uma reportagem exclusiva sobre o caso foi publicada pela revista O Cruzeiro, edição 011, de 1962, que pode ser acessada neste link.

Depoimento de Nicolau José Seixas ao Conselho de Segurança Nacional.

Depois de muita insistência, o febiano conseguiu entregar confidencialmente um relatório ao presidente da República. João Goulart queixou-se ao embaixador de Cuba, dizendo-se “traído”. Alguns dias mais tarde, um enviado cubano viajou a Brasília, com o pretexto de propor um acordo energético, e Jango entregou-lhe a documentação, que envolvia diretamente o governo de Havana, encerrando o episódio. Contudo, aconteceu o inesperado.

Em 27 de novembro de 1962, no retorno do representante cubano à ilha, pouco antes de pousar no aeroporto de Lima, no Peru, o Boeing 707 da Varig, que transportava a autoridade, despedaçou-se no solo, matando todos os passageiros e tripulantes. Encontrou-se a documentação comprometedora nos destroços, dentro de uma pasta de couro, tendo parte do seu conteúdo divulgada pela imprensa peruana em 3 de dezembro.

O Jornal do Brasil republicou o texto no dia seguinte: “Armas de Cuba foram apreendidas em Goiás”. O governo peruano entregou o relatório de Seixas ao Itamaraty. Um dos trechos da papelada descrevia as Ligas Camponesas: “organizações que ferem a Constituição Federal e o Código Civil, pregando a derrubada violenta das instituições com fundamentos no marxismo […]”.

Não fosse a tragédia com o Boeing 707 da Varig, talvez jamais chegasse ao conhecimento público os campos de guerrilha instalados pela ditadura cubana em Goiás.

O mundo desabou para o veterano. Convocado para depor no Conselho de Segurança Nacional, Seixas contou tudo o que sabia, em detalhes. A sinceridade custou-lhe o emprego, sendo demitido pelo governo ao final de dezembro de 1963, juntamente com o seu antigo comandante da 8ª Cia na Itália, coronel Antônio Damião de Carvalho; e também do coronel Juremir Pires de Castro (ex-instrutor do Centro de Recompletamento de Pessoal da FEB), respectivamente, chefes do Serviço de Prevenção e Repressão das Infrações contra Fazenda Nacional em São Paulo e no Pará.

Seixas foi leal a João Goulart, mas seu silêncio acerca da ação de guerra revolucionária promovida por Fidel Castro no Brasil fora imperdoável. O febiano teve os direitos políticos cassados pelo Ato Institucional Nr 1, em 9 de abril de 1964, sendo transferido para a reserva remunerada. (link).

O pracinha teve os direitos políticos restabelecidos quando o AI-1 caducou, em abril de 1974, sendo posteriormente anistiado em 1980. Essa é última notícia a respeito dele constante nos arquivos da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. O valente oficial que tomou Montese dos nazistas parece ter morrido no esquecimento. Sequer foi encontrado o seu obituário.

O infante veterano do “Lapa Azul” foi um dos raros brasileiros a participar ativamente de operações militares contra as tropas e maquinações de regimes totalitários, durante e após o último conflito mundial. Sua descoberta dos planos revolucionários em Almas e Dianópolis pode ter evitado a eclosão de uma sangrenta guerra civil, nos moldes do previsto conforme o plano da Inteligência tcheca (subserviente a Moscou) para o Brasil.


  • Não foi possível encontrar foto alguma de Nicolau José Seixas para ilustrar este post. Agradecemos contribuições dos nossos leitores.
  • O depoimento de Seixas ao Conselho de Segurança Nacional pode ser consultado neste link
  • A demissão do grupo de militares da FEB pelo governo de João Goulart pode ser consultada neste link.

2 respostas »

  1. Obrigado por mais esse conhecimento. Obrigado por não deixar morrer a nossa real história, os nossos reais heróis. Como professor de História, posso dormir mais calmo e sereno de saber que ainda tem pessoas como você, que realmente se importam com os nossos. Parabéns pela escrita, parabéns pela fluidez. Está salvo e será disponibilizado e compartilhado. A cobra tá fumando…

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