Notícias

Anacronismo Febiano

“Nariz de porco não é tomada” – Dados estatísticos do Brasil na guerra são utilizados de forma anacrônica, errônea e enviesada.

A memória da FEB tradicionalmente encontra pouco espaço na chamada “grande imprensa”. Infelizmente, nas raras vezes em que isso acontece, as notícias costumam ser deformadas pela imprecisão de dados, desinformação ou anacronismo: o emprego de conceitos e dados de uma época para analisar fatos de outro tempo. Para ser mais exato, o anacronismo é uma forma equivocada de se avaliar determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo período.

Há um exemplo típico da junção desses vícios numa matéria da Revista Época, republicada por outros portais: Covid-19 já matou mais militares brasileiros do que a 2ª Guerra Mundial. O texto consegue a proeza de sucumbir desde o título, pois a Segunda Guerra Mundial ceifou as vidas de 1.899 militares da Marinha, Exército e Aeronáutica — mais de 1.000 pessoas em relação aos 809 militares falecidos, por conta do Covid-19, até a data de publicação da reportagem.

Pior, a reportagem abusa do anacronismo e do contrassenso. Equipara as baixas de uma pandemia com as de uma campanha militar ocorrida há 75 anos. Cruza os dados de jovens tombados na Itália (a maior parte com 20 e poucos anos) com o de militares vitimados pelo vírus chinês — na quase totalidade, inativos ou reformados; ou seja: idosos. Um comparativo honesto utilizaria dados de indivíduos na mesma faixa etária — imperativo básico de qualquer estatística sanitária elementar. No mínimo, faria a correlação das mortes ocorridas por doenças na Itália (nove) com as do tempo atual.

Nessa mesma toada anacrônica, seria lícito indagar quantos militares da reserva morreram em 2020, atingidos por granadas da Artilharia alemã. A presumida relação mútua entre fatos históricos tão distintos seria a mesma caso utilizassem dados relativos à Guerra de Canudos ou dos Emboabas: nenhuma. Inexiste, portanto, correlação plausível no comparativo esdrúxulo que embasa a reportagem.

Em um universo de 1,34 milhões de militares na reserva, uma abordagem relevante do tema levantaria o número de falecidos anualmente por doenças cardiovasculares, degenerativas, pneumonia, malária ou dengue, comparando tais dados com os das vítimas da peste chinesa. Mas isso iria na contramão da narrativa desejada pela revista, pois colocaria em seu devido lugar a doença da moda, inviabilizando o sensacionalismo.

A publicação da matéria numa revista de circulação nacional da Editora Globo — supostamente idônea e criteriosa com seu conteúdo — levanta outra questão. Como foi possível erros tão flagrantes ultrapassarem variados filtros de revisão editorial?

A resposta está presente no último parágrafo do texto, que destaca o depoimento do coronel reformado Luiz Augusto Sydrião Ferreira, de 84 anos, tecendo fortes críticas ao Presidente da República. Seu filho, o general Carlos Augusto Fecury Sydrião Ferreira, de 53 anos, chefe do Centro de Inteligência do Exército, faleceu devido às complicações oriundas do Covid-19. O general dedicou-se corajosamente às suas atribuições, na linha de frente da missão humanitária enviada ao Líbano, mesmo sendo sendo portador de complicações cardíacas que colocaram sua vida em risco. Mas tal exemplo de destemor e dedicação ao dever também não se enquadra na narrativa desejada pelo magazine. Importa explorar o viés político.

No final das contas, a memória da FEB foi utilizada como meio de desinformação, álibi para a publicação de críticas ao Presidente da República, além de um macabro e deplorável emprego de cadáveres como instrumento de proselitismo político.

Esse nefasto exemplo de anacronismo e desinformação não colabora para o soerguimento da credibilidade da grande imprensa, fundamental para o exercício da plena democracia. Muito pelo contrário.


Fonte: Manoel Thomaz Castello Branco, O Brasil na II Grande Guerra, pp. 504, 564.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s