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Por que os ucranianos temem o domínio russo?

Os “olhos de lobo” de Ilarion Nyshchenko na fome de 1921-23. O jovem ucraniano matou seu irmão de apenas três anos e o devorou.

Por ocasião dos recentes acontecimentos na Europa Oriental, esta postagem interrompe excepcionalmente o tema FEB com uma pergunta provocadora:

Por que os ucranianos temem tanto o domínio russo?

Provavelmente, você não será informado da real causa, praticamente banida do meio acadêmico e jornalístico: as lembranças do Holomodor, termo derivado da palavra Голодомор (morte pela fome).

O Holomodor foi promovido pelo regime soviético nos anos 1932-33, resultante da coletivização forçada das propriedades rurais ucranianas. Algumas estimativas apontam até sete milhões de vítimas na Ucrânia Central e Oriental, quando a república fazia parte da URSS. O comunismo soviético alcançou um feito quase inacreditável no século XX: obrigou milhares de habitantes da região mais fértil e próspera do seu imenso território a recorrer ao canibalismo durante três grandes períodos de fome artificial (1921 a 1923, 1932 a 1933, e 1946 a 1947).

Em 1933, por ocasião da coleta dos corpos na Ucrânia, verificou-se que alguns cadáveres tinham o ventre aberto. Certos presos, chamados de “amputadores de defuntos”, confessaram ter arrancado o fígado dos cadáveres para a produção de patês, vendidos nas feiras locais. Os alvos mais indefesos na caçada humana eram as crianças. Há histórias de pessoas que trucidavam familiares, de meninas apanhadas em armadilhas e de estranhos emboscados.

Em 31 de maio de 1933, o cônsul-geral da Itália em Kharkov registrou um testemunho direto, segundo o qual “as famílias matam os menores e comem-nos”. No desespero da fome, progenitores ou vizinhos ensandecidos assassinavam e tragavam bebês e crianças. Enlouquecidas pela fome, as pessoas aproveitavam-se da prostração moribunda de estranhos para devorá-los. Houve comércio de carne humana — atividade conhecida, tolerada e documentada pelas autoridades soviéticas.


Yaroslav Lukov, jornalista da BBC, mantivera reserva em relação às histórias do Holomodor contadas por sua avó. Imaginou as narrativas de canibalismo demasiadamente chocantes para ser reais — isso até confrontá-las com a documentação oficial sobre o tema:

Eu mesmo me lembro até hoje de meu choque e horror — mesmo uma descrença total — quando minha avó me contou como crianças e bebês haviam sido comidos vivos durante a fome, quando todos estavam desesperados por encontrar comida. Às vezes, as crianças simplesmente desapareciam sem qualquer vestígio, mas muitos aldeões sabiam o que realmente estava acontecendo, disse minha avó. Ela só começou a falar comigo sobre esses terríveis momentos no final da década de 1980, dizendo-me que teve sorte de sobreviver à fome na Ucrânia Central.

Canibais na região do Volga, durante a fome de 1921-23, e sua dieta macabra: parte de corpos humanos. Esq. Akulina Chugunova, que esfaqueou sua filha de seis anos e devorou metade do corpo. Dir. Andrew Semykin, que dilacerou o cadáver do seu hóspede, morto pelo tifo, e o comeu.


Houve inúmeros registros de suicídio durante o Holomodor, quase sempre por enforcamento, de pessoas desejosas de abreviar o sofrimento — ou algo ainda pior. A inanição provocava a loucura, atingindo principalmente as mulheres, convertidas em personagens reais dos filmes modernos de “horror zumbi”. Um testemunho ocular criticou os captores das criaturas alucinadas pela fome:

Algumas ficavam insanas, […] Havia pessoas que esquartejavam e cozinhavam cadáveres, que matavam seus próprios filhos e os comiam. Eu vi uma. Ela havia sido trazida para o centro do distrito em um comboio. Sua face era humana, mas os olhos eram de um lobo. Esses canibais, disseram, precisam ser fuzilados. Porém, os mesmos que levaram a mãe à loucura de comer os próprios filhos, evidentemente não eram os culpados!! […] Apenas vá e pergunte, e todos dirão que o fizeram por causa da virtude, para o bem de todos. É por isso que levam mães ao canibalismo.

Nem todos os canibais terminaram executados — pois não havia leis criminalizando o canibalismo —, e sua contabilização nos permite estimar a dimensão real da tragédia. Ao final dos anos 1930, havia 325 canibais ucranianos (75 homens e 250 mulheres) cumprindo pena de prisão perpétua em um campo de prisioneiros do Báltico. Por falta de dados e estudos específicos, não se pode calcular com precisão a soma dos canibais fuzilados, dos que morreram enquanto estavam presos e dos que permaneceram incógnitos nas localidades ermas. Estima-se que esse número tenha alcançado a casa dos milhares.

Família ucraniana à espera da morte por inanição no quintal de casa, durante o Holomodor (1932-33).

O silêncio marcou os anos pós-Holomodor, com a proibição dos ucranianos de falar ou escrever sobre a calamidade, ao passo que as autoridades soviéticas tentavam eliminar seus vestígios nos registros oficiais. Moscou destruiu quase todas as instituições da zona rural da Ucrânia, deixando as pessoas sem as lápides para lamentar ou as igrejas para orar pelos entes queridos.

Na história oficial, o Politburo atribuiu a mortandade dos kulaks (camponeses que utilizavam o trabalho assalariado) a questões fictícias relativas ao clima e à colheita. Em contrapartida, na tradição oral, os pais transmitiram aos filhos o que efetivamente aconteceu, e os horrores jamais foram esquecidos. Os compêndios escolares ocidentais corroboraram parte da versão infame soviética, relativizando-a. Mesmo na conceituada Enciclopédia Britânica, a perseguição aos kulaks é vergonhosamente apresentada como fruto de “medidas especiais” e do “custo da industrialização acelerada”.

O livro Pelo Bem da Humanidade aborda em detalhes esse impressionante e macabro genocídio, que surpreendentemente é omitido ou relativizado por grande parte da mídia e do meio acadêmico ocidental.

Não se deixe iludir pelas narrativas da velha imprensa, pois os ucranianos têm motivos de sobra para temer o retorno da ditadura russa.

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