
Alega-se que o estudo da História evita a repetição dos erros do passado. No que diz respeito à História Militar, o alerta se faz com maior seriedade: o desconhecimento dos eventos pregressos pune os néscios.
A grande imprensa alimenta a opinião pública por meio de especialistas simpáticos à sua linha editorial. Sociólogos abordam a efetividade de bombardeios. Filósofos dissecam a geopolítica. Formados em Relações Internacionais avaliam mísseis e artefatos nucleares. Jornalistas estimam o resultado de operações militares. Todos têm e dão opinião para tudo, exceto duas categorias de profissionais diretamente envolvidas com o tema, porém menosprezadas: historiadores e militares.
Na encruzilhada do presente, nações são novamente obrigadas a fazer escolhas. Muitas as evitam, lançando mão de um isolacionismo não apenas covarde e tolo, mas potencialmente destrutivo.
Este artigo trata de outro momento crucial da História do Brasil. Remete a um tempo em que os brasileiros — felizmente — fizeram a escolha correta.
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Em 12 de dezembro de 1943, Henry Stimson, secretário da Guerra, anunciou à imprensa que os Estados Unidos e o Brasil preparavam uma Força Expedicionária para emprego extracontinental — a respeito da qual ninguém sabia mensurar o efetivo; informar o destino e a data aproximada de embarque. Sequer houve consulta oficial aos aliados ingleses.
Findava o ano, e as unidades expedicionárias continuavam aquarteladas em seus respectivos estados e municípios. Sequer o Comandante da FEB fora oficialmente nomeado. No curso normal dos acontecimentos, a expedição nacional jamais sairia do papel
A questão vagava no plano das conjecturas no instante em que eclodiu uma convulsão política.
Em 20 de dezembro, assumiu o poder na Bolívia uma junta governativa sob a presidência do major Gualberto Villarroel, com o apoio de militares argentinos. Cordel Hull escreveu a Roosevelt em 8 de janeiro de 1944, com o alerta de que os portenhos tinham planos de “encorajar revoluções similares em outros locais”.
Seria um desastre para o esforço de guerra Aliado a disseminação de revoltas análogas na América do Sul, em países como Chile, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Venezuela ou até mesmo no Brasil.
Apesar de os discursos oficiais indicarem o contrário, a problemática relação entre o Rio de Janeiro e Washington com Buenos Aires se deteriorara desde a Conferência do Rio. Em novembro de 1942, ao tratar das atividades nazistas na Argentina, o subsecretário Welles teve “violenta altercação” com o embaixador argentino Espil, “depois de 22 anos de amizade”, relatou Carlos Martins ao MRE. Em maio, o Ministério da Guerra enviou um aviso secreto ao Itamaraty, que informou Aranha da “intromissão argentina na política uruguaia”.
Buenos Aires desafiou a investida diplomática americana. Recusou-se a declarar guerra contra as potências do Eixo e decidiu projetar sua influência política e militar em países vizinhos. A reação de Washington não tardou. Pouco antes do final de 1943, o cruzador americano Memphis recebeu ordem de abandonar a perseguição aos navios rompedores de bloqueio do Eixo no Atlântico Sul. Havia tarefa mais relevante a cumprir. A embarcação deveria receber o vice-almirante Jonas Ingram (foto que ilustra o post) em Salvador, para levá-lo de imediato ao Uruguai em “missão especial”. Detentor da confiança e simpatia dos brasileiros, as más-línguas descreveram Ingram como um oficial “grande, gordo, vermelho, bebedor, que vivia com uma mulata, desmentindo o racismo de sua gente”.
No trajeto, a força-tarefa, capitaneada pelo Memphis, recebeu a escolta dos contratorpedeiros Somers e Christopher, até aportar em Montevidéu, em 15 de janeiro. Os jornais e revistas americanos noticiaram a missão da esquadra como parte da intimidação militar explícita à vizinha Buenos Aires, na outra margem do Estuário do Prata. As boas intenções da Doutrina Monroe deram lugar ao “Grande Porrete”, mais afeto à “Diplomacia das Canhoneiras”. Ingram enviou mensagem aos EUA em 3 de fevereiro, comemorando o sucesso da empreitada: “Missão Sul concluída”.

Debaixo de forte pressão diplomática e naval americana, o presidente Pedro Pablo Ramirez rompeu as relações da Argentina com o Eixo em 26 de janeiro, mas a crise portenha recrudesceu no mês seguinte. Generais nacionalistas obrigaram Ramirez a renunciar em 25 de fevereiro e ceder lugar a outro ocupante fardado na Casa Rosada.
À medida que subia a temperatura política, o governo brasileiro buscava reforçar sua fronteira com o vizinho conturbado. Góes Monteiro divulgou um suposto plano de invasão da Argentina no Brasil, enquanto Vargas solicitava aos Estados Unidos a construção imediata de dois aeródromos na região Sul. Por conta da efervescente tensão no Cone Sul, as demandas brasileiras, enfim, tiveram boa acolhida no Departamento de Estado.
Em 8 de janeiro, Cordell Hull sugeriu a Roosevelt a provisão adicional de armas e equipamentos, “que permitiria ao Brasil seguir em frente com sua preparação de envio ultramar de uma força expedicionária”. Também asseverou que “A presente gangue militar em controle da Argentina precisa entender de uma vez a importância dessa ação. É, portanto, recomendável que você inste com veemência o CMAB, para que ele estipule ao Brasil armas e equipamentos adicionais que o Departamento de Guerra sinta poder oferecer sem desprover os requisitos do combate operacional”.
Roosevelt respondeu a Hull na semana seguinte, informando que o CMAB estipulara o material bélico para construir de imediato o poder militar do Brasil,
“com armas e munições americanas e possivelmente mais instrutores do Exército, de modo a dotar o Brasil de uma força de combate eficaz próxima à fronteira argentina, algo como duas ou três Divisões de regimentos motorizados. […] Devemos agir com a Argentina de maneira enérgica”.
Washington esgotou sua paciência com Buenos Aires após o golpe de Estado de fevereiro, e o Brasil se viu beneficiado pela guinada diplomática, sendo aquinhoado com grandes remessas de armas. Jamais se viu tamanha remessa de armas nos portos nacionais em tão curto lapso temporal.
Em valores relativos ao material adquirido, via contratos de Lend-Lease, o mês de abril conquistou o título de “campeão de 1944”. Mais de 15 mil volumes de carga chegaram ao País, no valor total de US$ 8.371.539,21. O mês seguinte ganhou o “vice-campeonato”, com US$ 3.104.552,01. Remessas anteriores, relativas a fevereiro e março, haviam somado pouco mais de 657 mil dólares.

O desafio portenho à pressão americana — com seus inócuos argumentos de defesa da “soberania nacional” — fez Washington abandonar a tradicional política de paridade militar no Cone Sul, elegendo o Brasil como aliado preferencial.
Com todos os seus vícios — e não eram poucos — a ditadura estadonovista aproveitou a oportunidade histórica: “montou no cavalo encilhado” que passou à sua frente. Como contrapartida americana à aliança com Washington, Getúlio Vargas exigiu que a FEB fosse enviada à Europa. Foi bem-sucedido. Mais do construir uma aliança política e militar com um país poderoso, o gaúcho escolheu o lado certo.
Poucas décadas depois, e fruto dessa aliança, a nação que importava até a marmita dos seus soldados tornou-se a 8ª Economia do planeta, alcançando a hegemonia militar no Cone Sul, exportando armas e equipamentos militares para o mundo.
Talvez a opinião dos historiadores seja ignorada por mostrar uma realidade brasileira incômoda nos tempos recentes: além de provocar insistentemente uma potência mundial, desta vez Brasil escolheu o lado errado.
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Texto adaptado do livro Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira

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