História do "Lapa Azul"

O Homem de Ferro Mineiro

Faleceu em em Belo Horizonte, no último dia 16 de setembro, o Capitão Ary Roberto de  Abreu, veterano da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que combateu na Itália durante a Segunda Grande Guerra.

Mesmo entre os pracinhas da FEB que estiveram na frente de batalha, poucos vivenciaram experiências tão intensas quanto o Capitão Ary, que serviu como 3º sargento na 7ª Cia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria — O Batalhão “Lapa Azul” — de São João del-Rei, Minas Gerais.

Numa entrevista concedida em janeiro, o capitão relembrou vários episódios da campanha. Num deles, por ocasião do início do combate de Montese, em 14 de abril de 1945, Ary recordou a chegada do novo adjunto do pelotão, um gaúcho, que havia chegado da retaguarda naquele dia — justamente o mais sangrento de toda guerra para a unidade. Apavorado, o novato bradou com um forte sotaque gauchesco:

— Companheiros, vocês me ajudem porque eu não tenho experiência!

Lembrando com bom-humor os apuros do companheiro, o capitão fez questão de ressaltar que ele portara-se bem durante o combate e ainda estava vivo, morando em Porto Alegre.

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De bem com a vida: entrevista com o Capitão Ary em janeiro de 2013

Sua companhia recebeu um tremendo bombardeio inimigo. De acordo com a história oficial do V Exército do EUA, os alemães lançaram sobre Montese a segunda maior concentração de artilharia na Itália em toda a guerra.

As cenas de horror narradas pelo veterano assemelham-se a um pesadelo. Não faltam corpos pulverizados pelos numerosos impactos dos obuses e os gritos de agonia dos feridos.  O hand-talk do pelotão de Ary  logo ficou sem a antena, arrancada por um tiro ou estilhaço de granada. Para piorar ainda mais o quadro, o tenente comandante desapareceu, só retornando à tropa dois meses depois.

Um pouco do drama dos brasileiros pode ser conhecido nos vídeos a seguir, narrados por integrantes do mesmo batalhão do entrevistado:

Ary foi ferido com gravidade durante o ataque a Serreto. O mais impressionante é que o mineiro não foi atingido uma única vez, mas em três oportunidades distintas. Logo após ultrapassar Montese, um tiro ricocheteou no terreno e penetrou na face interna da sua coxa esquerda. O sargento não esmoreceu. Aplicou um torniquete em si mesmo, usando um trapo de tecido. Estancou a hemorragia e prosseguiu no combate. Um segundo tiro acertou seu ombro esquerdo, na altura da clavícula.

O sargento brasileiro estava possuído por uma energia descomunal. Mesmo duplamente ferido, continuou galgando o morro até arrancar a posição das mãos dos nazistas. O jovem mineiro parecia indestrutível: um legítimo homem de ferro. Seguindo a tática comum do Exército alemão, o inimigo logo contra-atacou para retomar Serreto. Os atacantes chegaram tão próximos de onde estavam os brasileiros que Ary ordenou o lançamento das granadas de mão, trazidas em grande quantidade pelos pracinhas.

— Cada granada pesava 600 gramas, mas ninguém tinha preguiça de carregá-las, recordou.

Espelhando a coragem do sargento, seu pelotão não arredou o pé do topo da elevação.

Capítão Ary Roberto de Abreu

O Homem de Ferro mineiro durante a IIGM (agradeço ao amigo Marcos Renault pela gentileza no envio da foto)

A fim de proteger a vida dos feridos, Ary tomou o cantil de todos eles — inclusive o seu — jogando-os morro abaixo.

— Ferido não toma água!, disse aos subordinados.

A ordem vigorou até o sargento receber o impacto de outro tiro de fuzil, desta vez no abdômen, que finalmente o tirou de ação. Afligido pela sede e perdendo sangue pelos orifícios dos ferimentos múltiplos, Ary desceu o morro procurando os cantis que havia lançado fora anteriormente. Por fim, sua companhia repeliu o inimigo, mantendo a posição conquistada e assegurando a vitória brasileira.

As sequelas físicas do combate de Montese ficaram indeléveis no pós-guerra. Um dos projetis permaneceu  alojado em seu ombro, causando-lhe problemas com os detectores de metal nos aeroportos e bancos. Após ter sido diagnosticado um tumor em seu estômago, o médico procurou tranquilizá-lo, dizendo que bastava retirar a parte afetada numa cirurgia. Todavia, o procedimento foi inviabilizado quando verificou-se o tamanho diminuto do órgão numa radiografia.  O tiro que ferira Ary no ventre provocara a retirada da metade do seu estômago na Itália.

Ary palestra

História viva: durante anos o Capitão Ary divulgou a memória dos pracinhas no Museu da FEB, em São João del-Rei (agradeço a Derek Destito Vertino e a Pedro Nicodemos pela cessão da imagem).

O capitão prestou seu depoimento de forma descontraída, durante uma bela tarde de sábado. Em nenhum momento esboçou ter rancores do passado. A única mágoa revelada foi a de não ter cumprido uma promessa que fizera a um soldado moribundo do seu pelotão em Montese. Às portas da morte, o soldado lhe implorou que cuidasse da sua mãe em Santa Catarina. Dito isso, o militar expirou. Retornando ao Brasil, Ary  foi à procura da senhora, mas não conseguiu encontrá-la, pois a mãe do soldado havia se mudado para outra cidade sem deixar o endereço correto.

Havia outras razões para mágoas, mas o oficial julgou por bem não citá-las na entrevista. Uma delas era a cobrança judicial que a União lhe fazia com relação aos valores recebidos à título de pensão de ex-combatente. Por ter permanecido nas fileiras do Exército após a guerra, a legislação em vigor não lhe concedia o direito de acumular a pensão de veterano com seus proventos da aposentadoria militar. Ary buscou seus direitos na justiça, passando a receber a pensão por algum tempo. Entretanto, a União recorreu, cortando o benefício e cobrando-lhe os valores pagos. Num quadro surreal, a justiça brasileira cobrava do pracinha nonagenário a devolução da pensão de guerra.

Curiosamente, outros companheiros seus de campanha — que aposentaram-se na iniciativa privada, ou mesmo em órgãos públicos como os Correios — acumularam seus proventos com a pensão da FEB. Fruto da confusa — e por vezes injusta — legislação de amparo aos ex-combatentes, na prática, Ary acabou sendo penalizado por ter continuado nas fileiras do Exército após o conflito, onde transmitiu aos pares e subordinados a sua valiosa experiência bélica. Assim como os demais pracinhas que prosseguiram na Força, o veterano foi equiparado aos militares que permaneceram no Brasil  — sem terem arriscado a vida ou sofrido um único arranhão.

C apitão Ary Roberto de Abreu, em entrevista em São João del Rei em janeiro de 2013.

Capitão Ary: têmpera diferenciada dos homens comuns

O que mais chamou a atenção durante o depoimento foi o bom-humor do capitão —  já desenganado pelos médicos. Não houve lamúrias ou rancores. Muito pelo contrário. Diante da lente da câmera estava um homem com a alma leve e ciente do dever cumprido. Talvez ele tivesse chegado à mesma conclusão do padre português Antônio Vieira, no século XVII: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

O casario histórico de São João del-Rei emoldurava a bela paisagem de fundo na entrevista. Impossível não vir à mente a certeza de estar diante de um dos moradores mais ilustres daquela cidade. Isso não apenas pela trajetória do capitão durante a guerra, capaz de inspirar um roteiro cinematográfico, mas por ele ter demonstrado uma virtude rara numa sociedade cada vez mais individualista: a capacidade de arriscar a vida por um nobre ideal.

Durante o ataque a uma posição inimiga, segundo a descrição dos veteranos de guerra, as pernas tremem descontroladamente — não raro, o corpo inteiro; a voz firme passa a balbuciar as palavras, enquanto uma forte náusea afeta o raciocínio. Nesse instante decisivo, pouco importa o grau de instrução do soldado ou o seu nível social. Nem mesmo o treinamento mais realista é suficiente para determinar quais serão as decisões tomadas em combate. Fala mais alto o valor da alma do militar, agindo no limite tênue que separa os homens dos meninos, a glória da vergonha, os heróis dos covardes.

Em Serreto, quando a situação ficou crítica, Ary poderia ter encontrado um jeito de “sumir” — conforme fizera o comandante de pelotão. Ou, ainda, no primeiro ferimento, seria lícito abrigar-se esperando o resgate dos padioleiros. Tempos depois, ante o diagnóstico médico fatal, poderia ter entrado em desespero ou em depressão. Mas ele não era esse tipo de indivíduo.

Ary foi um verdadeiro homem de ferro, forjado com o metal abundante da boa terra mineira. Obviamente, seu corpo era de carne e osso como os demais, mas a alma lhe fora temperada com o ferro de qualidade, que brandiu o seu valor diante da morte. Essa têmpera o diferenciou dos homens comuns, tanto na guerra quanto na paz.

A terra que o gerou agora o recebe de volta. Foi uma honra tê-lo conhecido nesse intervalo.

“À têmpera da alma sucede o mesmo que à têmpera do aço; em sendo boa, quanto mais se lhe calca, mais forte ela brande. “

José de Alencar

19 respostas »

  1. Eu tive a honra de conversar pessoalmente com o Capitão Ari no museu da FEB na minha passagem em 2008 pelo Exército no 11°BI, foi um imenso prazer ter conhecido este herói nacional. Que me contou sua história em Montese, um exemplo de ser humano inimaginável por que passou e conseguiu repassar sua história sorrindo. Palavras do Capitão “chora não soldado eu estou te contando sorrindo”.
    Aí você está sentado num banco em seu horário de descanso da guarda, senta um senhor do seu lado pede licença e pergunta se pode sentar e conversar com você, você diz senhor o cabo pode achar ruim, “esquenta não soldado ele me conhece”.
    Que honra ter conhecido este Homem!

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  2. Fala desses Heróis de Guerra não existem adjetivos . Sinto pesar imenso pelo passamento do Meu Herói. Meu coração neste momento Sangra em saber este valoroso soldado não está mais entre nós. Sua memória ficará intocável no seio da sociedade por agradecimento eterno.
    Ao capitão, meu respeito e agradecimento perene.

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  3. Tive a honra de conhecer este heroi e de conviver alguns dias com ele e sua familia a quem tenho como irmãos. Tendo sido inclusive colega de turma, na FAB de seu filho Romulo Flavio de Abreu. Pessoa indelevel no carater e de profunda atenção com os amigos. Saudadedes Cap. ARY.

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  4. Meu pai Elias José do Couto, falecido em 2002 foi soldado do 11º R.I. e esteve no TO na Itália. Tenho várias fotos de outros veteranos e não tenho como saber a que família pertencem. Somente um deles – Rocha – possui uma dedicatória no verso, mas não sei como saber quem se trata pois não consegui acesso à lista dos convocados do 11. Talvez estas famílias ficariam felizes de verem seu pracinha daquela época. Como proceder? Podem me ajudar? Carmen Couto

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  5. Hoje estou vendo um documentário e ao ver o depoimento do Capitão Ary, fui procurar no google sobre o mesmo, e acabei descobrindo sobre o falecimento do mesmo. Acabei de ler esta matéria e estou aqui deixando meus sentimentos e agradecendo a família e deixando registrado o meu respeito profundo a esse grande homem. Um grande abraço para família e fico feliz de saber que por essa terra passou um homem tão honrado. Obrigado a todos!

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    • Prezado Sr. Hugo , gostaria de saber se foi o autor do texto publicado sobre o meu pai, intitulado como “O homem de ferro” no Lapa AZUL??

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      • Rachel Abreu, infelizmente não fui o autor mas sempre tive uma grande admiração por ele. Sou natural de São João del Rey e curso história na UFJF. Fiz uma bela entrevista com ele no ano passado, poucos dias antes desta tragédia.
        Abraços

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    • Em meu nome e em nome de meus irmãos agradeço o abraço de pêsames enviado bem como as belas palavras escritas sobre o meu pai, o que acrescenta ainda mais o enorme orgulho que temos dele. Abs. Rachel Abreu Scheidemantel

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      • Rachel ,conheci seu pai em 62 ou 63 , quando vocês moraram aqui em Santa Rita do Sapucaí , sul de Minas Gerais . Ele era muito querido aqui . Só agora fiquei sabendo de seu falecimento . Meus sentimentos e minhas orações a você e sua família .Você foi minha colega de sala , brincávamos muito juntas ,estudávamos no então Grupo Escolar Dr. Delfim Moreira . Tenho lhe procurado já faz uns quarenta anos . Apesar da situação em que lhe encontrei , estou muito emocionada . Gostaria de revê-la , encontrar e conversar . Seria possível esse encontro ? Como faremos para nos comunicarmos ?

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      • Izabel,
        Confesso que a minha memória não está tão boa quanto a sua, mas saiba que receber sua mensagem deixou-me imensamente feliz . Sempre nos faz muito bem saber que somos queridos e que a amizade conseguiu sobrepor aos anos passados e a distância.
        Os meus pais moravam em São João Del Rei, mas eu moro em Brasília.
        Envie para mim o seu e-mail no rsneto@terra.com.br para que possamos conversar, ok??
        Grande abraço. Rachel

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      • Oi Rachel , desculpe-me pelo modo como escrevi para você ainda há pouco . É que depois de tantos anos de busca ,eu me emocionei demais .
        Nós éramos muito amigas . Vocês moravam ao lado da Cooperativa perto da escola . Um grande abraço .

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  6. Praticamente em três anos seguidos, levava meus alunos ao museu da FEB em São João Del Rei e carinhosamente o Sr. Ary nos recebia. Contava com orgulho e vivacidade suas experiências, das quais, meus alunos e alunas ficavam encantados, não somente pela história, mas também pela memória tão viva, tão sagaz. Morreu um grande contribuinte de nossa história nacional. Abraços fraternos à família, mesmo atrasado, pois fiquei sabendo somente hoje por meio de uma aluna.

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    • Daniela, somente hoje verifiquei que a minha resposta escrita a você anteriormente não foi postada. Algo aconteceu de errado. Portanto, peço-lhe desculpas e agradeço , em nome de meus irmãos,a sua mensagem de pêsames e as suas carinhosas palavras sobre o meu pai. Grande abraço. Rachel

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  7. Meus cumprimentos aos familiares em especial a Rachel do qual sou amiga de mts e mts anos.
    Sr. Ary era uma pessoa maravilhosa que teremos sempre boas lembranças em nossos corações.
    Força para tdos os familiares e abraços de condolências, Odaléa.

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    • Querida amiga Odaléa,
      Bom ter notícias suas, ainda que numa circunstância tão sofrida para todos nós. Recordo-me dos nossos tempos de colégio em que ele de vez em quando lhe dava uma carona naquele Opala laranja e preto e você ia aprontando pelo caminho e o chamava de “tio Ary”. Mas as perdas estão aí para nos mostrar a transitoriedade da vida. Ele nos deixa um belo exemplo de vida, de força e coragem a seguir.Obrigada pela mensagem de pêsames.Grande abraço. Rachel

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  8. Muito triste esta notícia! Conheci o Capitão Ary e sua família e São João del Rei, e no Encontro em Brasília onde estreitamos nossos laços de amizade.
    Deixo meu abraço aos familiares e principalmente a sua filha Rossely, minha querida amiga

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    • Obrigada, Zenaide pelas condolências enviadas. Com certeza ele fará muita falta mas como “heróis não morrem “e pai também não, então ele permanecerá vivo para sempre em nossa memória e em nossos corações. Grande abraço!
      Rachel e Rossely

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