História do "Lapa Azul"

A guerra que não acabou

Em 22 de julho de 1936, o embaixador brasileiro Oswaldo Aranha escreveu uma carta profética a Vargas, alertando-o acerca da proximidade da guerra e suas causas:

“O mundo caminha para os extremos, seja o de esquerda, seja o de direita” (…) “Não há lugar para o meio-termo, a alavanca universal apoia-se, hoje, na Rússia e deslocará o mundo para a esquerda ou o atirará num abismo de guerras e lutas sociais.[1]

aranha

Profecia – Oswaldo Aranha alertou Getúlio Vargas quanto a proximidade de um conflito mundial.

Contudo, passadas sete décadas do término do maior conflito da história da humanidade, parte da historiografia brasileira continua erguendo uma cortina de fumaça para esconder suas origens. Quando aborda as causas da II Guerra Mundial, o conteúdo de várias publicações nacionais dedicadas à História vai do superficialismo à manipulação ideológica escancarada.

A Alemanha costuma ser acusada como a vilã solitária, por ter invadido a Polônia em setembro de 1939. Porém, raramente a União Soviética é apontada como cúmplice neste episódio, ao invadir o mesmo país semanas depois. Alguns artigos descrevem a política expansionista alemã, no Sarre e nos Sudetos; italiana, na Abissínia; e japonesa, na Manchúria, mas não citam o expansionismo russo na Finlândia e nos Estados Bálticos, como parte do Pacto Molotov-Ribbentrop de partilha do leste europeu, firmado entre Hitler e Stalin antes do início da guerra.[2]

Quando se busca a origem do nazismo e do fascismo, joga-se a culpa exclusivamente no “capitalismo industrial”, que “ampliou a miséria, terreno prenhe no qual brotaram ideologias de extrema-direita: o fascismo italiano e o nazismo alemão”.[3] Já os fundamentos da filosofia nazista, elaborados por Hitler em Mein Kampf, com intenso viés anticomunista, são colocados em segundo plano. De forma idêntica, pouco se fala dos conflitos de rua na Alemanha, entre nazistas e comunistas, no início dos anos 30, que ajudaram a alçar Hitler à chancelaria em 1933. Na imaginação desses autores, o comunismo teria sido um mero espectador — ou mesmo vítima.

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Pacto Molotov-Ribbentrop – A Europa Oriental fora dividida entre a Alemanha e a União Soviética antes do início da II Guerra Mundial. (Arte de Peter Hanula)

O conflito ideológico que arrastaria o mundo à guerra foi exposto por Aranha em sua mensagem histórica a Vargas, escrita dias após o início da sangrenta guerra civil espanhola. No conturbado cenário político interno brasileiro — que sofrera uma Intentona Comunista no ano anterior e agora via a ascensão dos integralistas — o alerta parece ter inclinado Getúlio a planejar o golpe do Estado Novo no ano seguinte.

Por sua vez, o Estado Novo não foi uma particularidade brasileira, mas um fenômeno visto em inúmeros países. E havia um bom motivo para isso. Em 1919, logo após a vitória bolchevique na Revolução Russa, o regime soviético criou e financiou a Internacional Comunista, com o objetivo de difundir o comunismo pelo mundo.

O avanço vermelho foi respondido pelo nascimento de governos autoritários, ditatoriais ou não. Em alguns deles, houve apenas um endurecimento no trato junto aos grupos ativistas socialistas. Já em outros, instalaram-se ditaduras, cujas ideologias ou se opunham frontalmente às propostas comunistas, ou tentavam neutralizá-las com medidas de segurança nacional no bojo de um projeto político com forte apelo às massas: como o franquismo na Espanha, o salazarismo em Portugal, o fascismo na Itália e o sindicalismo na Argentina e no Brasil. No campo ideológico, o nazismo foi uma proposta de oposição frontal ao comunismo.

mussolini

Cortina de fumaça – Segundo parte substancial da historiografia nacional, a ascenção do nazismo e do fascismo pouco ou nada teve a ver com a ação da Internacional Comunista.

Passados quase 80 anos, o alerta de Oswaldo Aranha a Vargas continua sendo negligenciado por uma historiografia de tendência manipuladora, que procura ocultar algumas das sementes do nazismo e do fascismo.

A Segunda Grande Guerra na Europa terminou há 70 anos, mas a chama do conflito ideológico que incendiou o planeta ainda está longe de ser extinta.

_________________________________________

[1] LEITE, M.R.; NOVELLI, Jr. Marechal Eurico Gaspar Dutra: O Dever da Verdade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p.107.

[2] http://www.brasilescola.com/historiag/segunda-guerra-mundial.htm, Acesso em 06 Mai 2015.

[3] Revista de História da Biblioteca Nacional, edição de maio de 2015

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