História do "Lapa Azul"

O fantasma do racialismo

Expedicionários de Lafaiete

Exemplo de integração racial na tropa – militares da cidade de Conselheiro Lafaiete (MG) no 11º RI, em São João del-Rey (Foto cedida gentilmente por Maurício Marzano)

O Presidente está obcecado com a ideia de eliminar as diferenças étnicas existentes na população brasileira, e criar uma raça brasileira homogênea, com língua e cultura uniformes. Aí, então, os Volksdeutsche (alemães étnicos nascidos fora do Reich) , aproximadamente um milhão entre os estados do Sul, perturbam-no fortemente porque mantêm sua língua, sua cultura e sua consciência racial alemã mais do que os italianos, os holandeses, os polacos, e outros.

Este é um trecho do relatório enviado a Berlim pelo embaixador alemão Karl Ritter, em março de 1938. Pouco tempo antes, o presidente Getúlio Vargas dera início a uma campanha nacionalista, visando eliminar os inúmeros quistos étnicos existentes no sul do Brasil. A série de medidas revoltou o embaixador alemão, filiado ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores alemães (Partido Nazista), cuja doutrina pregava a “superioridade racial ariana”.

Ao enviar este comunicado aos superiores na Alemanha nazista, Ritter esperava provocar a revolta dos líderes do Reich, obtendo a esperada permissão para pressionar as autoridades brasileiras com a ameaça do rompimento das relações diplomáticas. O embaixador não obteve sucesso no pleito, e mais tarde seria considerado persona non grata quando viajou ao Exterior, não mais retornando ao Brasil.

Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, as políticas de segregação racial adotadas em vários países estrangeiros — tanto Aliados quanto do Eixo — direcionaram a formação dos seus exércitos. Mesmo a democracia norte-americana não foi capaz de evitar a segregação de negros e amarelos, que lutavam em unidades distintas.

Com o Brasil foi diferente. Os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) representaram um espetáculo jamais visto nos campos de batalha da Europa. ” (…) a segregação praticada pelos americanos causou a mais profunda repugnância na tropa da FEB”, afirmou o historiador César Campiani Maximano, em seu livro Barbudos, Sujos e Fatigados.

O diplomata nazista ficaria surpreso se lhe dissessem que, no início do século seguinte, o governo brasileiro traria de volta o fantasma do racialismo, separando os cidadãos pela cor da pele em diversas políticas públicas.


PEREIRA, DURVAL LOURENÇO, Operação Brasil, São Paulo, Contexto, 2015, p. 39 – Relatório político nº B7/7, de 30 Mar 1938.

MAXIMIANO, CÉSAR CAMPIANIBarbudos, Sujos e Fatigados, São Paulo, Grua, 2010, p.338.

3 respostas »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s