História do "Lapa Azul"

Mascarenhas de Moraes contra o inimigo invisível

O general Mascarenhas de Moraes é conhecido como o comandante da FEB na Itália, mas poucos sabem que outra expedição sob a sua responsabilidade obteve grande sucesso em nosso país contra um inimigo invisível.

Entre 1910 e 1914, Mascarenhas serviu na Comissão de Limites do Brasil com a Bolívia, resultante do Tratado de Petrópolis (1903), que incorporou o Acre ao Brasil. Foram quatro longos anos trabalhando com uma diminuta equipe embrenhada em uma região desconhecida e inóspita, farta de perigos variados: de indígenas hostis a piranhas, de doenças mortais a feras e animais peçonhentos. O abastecimento do grupo era feito pelo coronel inglês Percy Fawcett, que mais tarde seria tragado pela selva amazônica do Alto Xingu, juntamente com o filho e um amigo.

O oficial atravessou a temerária região da ferrovia Madeira-Mamoré, tristemente celebrizada “pelo elevado número de vidas ceifadas através da zona maligna, altamente insalubre, percorridas por seus trilhos. Contam-se as vítimas na razão de uma para cada dormente ferroviário”, escreveu Mascarenhas em suas memórias. [i] A maior parte dessas baixas foi causada por um inimigo invisível: a malária.

O jovem tenente Mascarenhas de Moraes em atividade na Comissão de Limites (Revista do Exército Brasileiro).

Contudo, o futuro marechal resistiu à doença durante os quatro anos que passou na selva. Segundo Benjamim Monteiro de Macedo, seu irmão de criação: “possivelmente graças aos cuidados rigorosos que mantinha na aplicação preventiva, não só para si mesmo como para os que dele dependiam”.[ii]

Jango (seu apelido familiar) costumava recordar o segredo do êxito sanitário obtido na dura jornada:

“Sempre segui à risca as recomendações do médico da Comissão, o Dr. Gouveia: pernoitar o mais longe possível dos ranchos dos seringueiros, na sua quase totalidade atacados de impaludismo, e ingerir, pela manhã, um comprimido de quinino, cuja fórmula era sua. A aplicação do medicamento me dava trabalho, pois eu ia, de rede em rede, acordava o companheiro, dava-lhe o remédio e fazia a pergunta: ‘Já engoliu?’ ‘Vinha a resposta: ‘Já, sim senhor’. ‘Então abra a boca que eu quero ver’, e a examinava com a luz da lanterna, sem o que não via no lusco fusco da madrugada. Nem eu nem meus trabalhadores tivemos malária”.

O uso do quinino data do final do século XVI, durante a conquista do Império Inca pelos espanhóis na região do Peru. Nessa época, os invasores espanhóis tomaram conhecimento da casca de uma árvore usada pelos índios para curar a febre. Em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha se apoderou de toda a reserva de quinino da Europa ao tomar Amsterdã. Dois anos depois, quando os japoneses invadiram a Indonésia, os Aliados ficaram quase totalmente privados do fornecimento do remédio. Havia uma pequena plantação de quinino nas Filipinas, tomada pelos japoneses algumas semanas após a invasão de Java, e o último avião Aliado a deixar as Filipinas levou consigo uma preciosa carga: quatro milhões de sementes da árvore milagrosa.

Depois de germinadas, as sementes foram enviadas para a Costa Rica, a fim de serem plantadas. Contudo, até a colheita, centenas de milhares de soldados Aliados na África e no Pacífico contraíram malária, com altas taxas de mortalidade. De acordo com o Centro de História Militar do Exército dos EUA, a incidência da doença atingiu surpreendentes 4.000 casos por 1.000 soldados, por ano, na área do Pacífico.

Para amenizar a falta do quinino, os norte-americanos conseguiram sintetizar um novo medicamento: a Quinacrina, mais conhecida pelo nome comercial: Atabrina.[iii]

Atabrina: substituto do quinino nas Forças Armadas dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial (www.armyhistory.org)
“Não seja um boneco…” Cartaz de instrução à tropa para a prevenção da malária. (www.armyhistory.org)

O quinino foi universalmente receitado durante a pandemia da Gripe Espanhola. Tanto a Quinacrina quanto a Cloroquina ou a Hidroxicloroquina são fármacos sintetizados a partir dos seus princípios ativos, sendo utilizados até hoje na prevenção e no tratamento da malária e de doenças de natureza autoimune.

O 1º tenente Mascarenhas de Moraes era um homem da Ciência, diplomado em Engenharia Militar, por isso foi encarregado da complexa missão de demarcação cartográfica. Utilizou o mais moderno equipamento topográfico disponível à época, trabalhando ao lado dos engenheiros civis ingleses contratados pelo governo boliviano. Em 1904, quando era alferes-aluno na Escola Militar da Praia Vermelha, não aderiu à “Revolta da Vacina Obrigatória”.

O tratamento preventivo adotado pelo futuro comandante da FEB foi a peça-chave para o sucesso das suas três incursões na selva amazônica, protegendo sua saúde e dos seus subordinados contra o inimigo invisível. O velho marechal provavelmente não acreditaria se lhe dissessem que, mais de um século depois da sua longa e bem-sucedida experiência na Amazônia, milhões de brasileiros seriam privados de um derivado do quinino para o tratamento precoce de uma doença ainda sem remédio — e que a Ciência mal conhece.


[i] Marechal Mascarenhas de Moraes – Memórias, Bibliex, 1984, Vol. 1, p.49.

[ii] Revista do Exército Brasileiro, v.120, nº 4 Out/Dez 1983, p. 16.

[iii] The Other Foe: The U.S. Army’s Fight against Malaria in the Pacific Theater, 1942-45. Disponível em: https://armyhistory.org/the-other-foe-the-u-s-armys-fight-against-malaria-in-the-pacific-theater-1942-45/

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