A FEB nas Escolas

Por que a FEB foi à Guerra?

Desfile da FEB no RJ (1944). 75 anos após o término do conflito, o envio da tropa expedicionária continua nublado pela desinformação.

Compreender a motivação do envio da Força Expedicionária Brasileira aos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial é uma questão básica para o estudioso da campanha dos pracinhas.

O marco inicial da abordagem especializada desse assunto, com o imprescindível lastro no estudo das relações Brasil-EUA, foi o livro The Brazilian-American Alliance 1937-1945 (1973), de Frank D. McCann, editado em português pela Bibliex com o título A Aliança Brasil-Estados Unidos 1937/1945 (1995). Desde então, inúmeros trabalhos de graduação acadêmica e publicações exploraram o tema com maior ou menor profundidade, oferecendo contribuições relevantes; destaque para o livro Relações Militares Brasil-EUA 1939/1943 (2019), de Giovanni Latfalla, que encontrou no NARA (Arquivos Nacionais dos EUA) documentos inéditos que oferecem uma visão original das motivações políticas em torno do envio da Força Expedicionária.

Todavia, o conhecimento oferecido pelas obras relevantes raramente chega de forma correta à grande massa de estudantes do Ensino Médio e Superior, costumeiramente envoltos por teorias da conspiração disseminadas nas salas de aula. Até hoje persiste a noção de que o envio da FEB foi a contrapartida dada aos EUA pela construção da Usina Siderúrgica Nacional — uma constante entre os educadores de formação marxista, que buscam explicar o processo histórico por meio do conflito teórico “capital x trabalho”.

Os créditos para a construção da CSN foram liberados por Washington no longínquo maio de 1940, por ocasião da rendição francesa aos nazistas, após o famoso discurso de Getúlio Vargas a bordo do encouraçado Minas Gerais, quando o líder gaúcho mencionou a necessidade de “compreender a nossa época e remover o entulho das ideias mortas e dos ideais estéreis”. O discurso foi efusivamente saudado por Berlim e Roma, e o temor de uma aliança entre o Brasil e o III Reich — que se oferecera para construir a usina — foi suficiente para abrir o bolso dos norte-americanos.

Parcela substancial da avalanche de mitos que envolvem a formação da FEB provém do meio virtual. A internet constitui uma ferramenta notável para a pesquisa, oferecendo acesso rápido e gratuito à informação, mas, em contrapartida, possui sérias contraindicações pela confiabilidade dos dados disponíveis. Os dois sítios mais populares de pesquisa escolar (o Wikipedia e o Infoescola) são pródigos na desinformação de viés ideológico.

Como exemplo, de acordo com o InfoEscola, “Os saldos da participação da FEB na Segunda Guerra mundial revelam que foi negativa”. Já o Wikipedia destaca a mobilização  do Partido Comunista Brasileiro e da União da Juventude Comunista para a formação da tropa expedicionária, fazendo apologia despudorada a dois dos seus militantes:

É notória a mobilização do Partido Comunista Brasileiro e da União da Juventude Comunista para a inserção do Brasil na guerra, tendo orientado seus militantes a priorizarem a luta antifascista e apresentar-se como voluntários após a realização do VII Congresso da Internacional Comunista e da Conferência da Mantiqueira. Posteriormente organizaram-se células comunistas na FEB, que contava com a participação de dois dirigentes nacionais do PCB (Salomão Malina e Jacob Gorender) e lutaram tanto na Guerra Civil Espanhola quanto na Resistência Francesa.[1]

Ao contrário do contido no texto, jamais foram registradas “células comunistas” na FEB, cujos comandantes estavam atentos a qualquer tentativa de infiltração totalitária nas suas fileiras. Houve, de fato, expressiva participação estudantil nos protestos de rua que culminaram na declaração de guerra brasileira ao Eixo, mas a incorporação de jovens universitários voluntários no contingente (excluindo os oficiais R/2) foi desapontadora. Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra, escreveu um relatório a Vargas informando acerca da mobilização do Exército:

Apelou-se, desde o inicio, em primeiro lugar, para o voluntariado, aberto desde o mês de agosto de 1943, em todas as Regiões Militares, para os jovens entre 21 e 26 anos de idade. Em torno desse recrutamento foi feita intensa propaganda, através do rádio, dos jornais e cartazes; mas não obstante toda essa campanha e apesar da oportunidade de se proporcionar cerca de 2.400.000 jovens daquela idade para apresentação espontânea, verificou-se que apenas 2.750 compareceram, e destes somente 1.357 foram julgados aptos ao serviço militar.

Mauro Renault Leite e Novelli Júnior. Marechal Eurico Gaspar Dutra: O Dever da Verdade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983 p.558.

Sobram relatos doídos de veteranos quanto à fuga à incorporação na FEB pelos manifestantes da época. Certa vez, durante a seleção do contingente expedicionário, ao notar o desapontamento de um voluntário julgado incapaz na inspeção de saúde, o médico lhe disse: “Não fique triste, rapaz, pois esses estudantes que pediram a guerra nas ruas agora estão debaixo das saias das suas mães”.[2]

O texto do Wikipedia também enfatiza a mobilização da opinião pública para o envio de uma força expedicionária rumo à Europa, “como contribuição à derrota do fascismo”: triplo engano.[3] A “opinião pública” permitida durante o Estado Novo passava pelo filtro da censura do governo ditatorial. As tratativas formais para a organização da FEB ocorreram apenas em meados de 1943, quase um ano após a declaração de guerra ao Eixo; não há, portanto, relação de causa e efeito imediato entre ambas. Em agosto de 1942, mês dos grandes protestos de ruas — devidamente autorizados e/ou estimulados por Getúlio Vargas — não havia um front africano e muito menos europeu.[4] Uma consulta aos documentos oficiais da época, em particular a propaganda oriunda do DIP, mostra que a mobilização de guerra do Estado Novo tinha um alvo mais abrangente que o fascismo: o totalitarismo (que engloba o fascismo, o nazismo e o socialismo).

Tela inicial de uma peça de propaganda cinematográfica produzida pelo DIP.

Sabe-se que as seções da Internacional Comunista no Ocidente — inclusive o PC-SBIC (Partido Comunista – Seção Brasileira da Internacional Comunista) — foram orientadas a manterem postura neutra em relação ao nazi-fascismo até junho de 1941, quando a Alemanha rompeu o Pacto Ribbentrop-Molotov e invadiu a União Soviética. Na França, segundo Max Hastings, 35 deputados comunistas foram detidos em nome da segurança nacional em outubro de 1939 (27 foram julgados e a maioria condenada). Cerca de 3.400 militantes comunistas foram presos e mais de três mil refugiados comunistas estrangeiros foram confinados. Temia-se que Stalin os usasse em apoio a Hitler, na desestabilização do país em guerra, pois até então França e Inglaterra eram acusadas por Moscou de causarem o conflito — rotulado pejorativamente pelo Kremlin de “Guerra Capitalista”. Após o início da Operação Barbarossa, subitamente a alcunha foi trocada para “Grande Guerra Patriótica”. Por tudo isso, qualquer menção à luta dos comunistas, brasileiros ou não, contra o nazi-fascismo está necessariamente ligada à hipocrisia, ao fingimento e à dissimulação.

A resposta à pergunta formulada no título deste post carece da escrituração de um compêndio exclusivo; e muitas novidades ainda podem surgir por conta de pesquisas bem conduzidas. Todavia, não resta dúvida de que a formação da FEB seja resultante de decisões tomadas exclusivamente pelas autoridades nacionais, ligadas a fatores diplomáticos, econômicos, geopolíticos e militares.

Já as razões de ordem moral para a ida à luta dos nossos pracinhas remetem ao famoso Four Freedoms Speech (Discurso das Quatro Liberdades) proclamado pelo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt em 6 de janeiro de 1941. O texto aborda a Liberdade — princípio básico da civilização ocidental —, pisoteado à época pelos nazistas. Roosevelt a dividiu em quatro esferas:  a liberdade de adorar a Deus, a liberdade de expressão, a liberdade para subsistir sem privações, e a liberdade de viver sem temor. A declaração presidencial  influenciou a redação da Carta das Nações Unidas e, de modo explícito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Preâmbulo da Carta das Nações Unidas, documento que teve por base o discurso das Quatro Liberdades de FDR.

O mundo está livre da ameaça nazista há mais de 75 anos, embora a opressão totalitária esteja mais viva do que nunca, desta vez no bojo das nações ocidentais. O espectro da gripe chinesa foi útil para ressaltá-la, particularmente no Brasil, onde testemunhamos a supressão das Quatros Liberdades por meios variados: a proibição de cultos religiosos, a censura dos meios de comunicação e das plataformas digitais ao discurso conservador, e o lockdown que impediu milhões de trabalhadores informais de proverem o sustento de suas famílias, tudo alinhado à incessante campanha midiática que aterrorizou a população.[5]

Por fim, a pergunta “Por que a FEB foi à Guerra?” nos conduz a outro questionamento ainda mais desafiador: “Estamos honrando a luta da FEB contra o totalitarismo?”.  


[1] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_Expedicion%C3%A1ria_Brasileira

[2] Testemunho do pai do autor do post.

[3] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_Expedicion%C3%A1ria_Brasileira

[4] Durval Lourenço Pereira. Operação Brasil, São Paulo, Contexto, 2015, p. 227.

[5] O retorno do totalitarismo em tempos recentes foi abordado pelo autor do post no livro Pelo Bem da Humanidade.

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