3–4 minutos

A Real Origem da FEB

O próximo 2 de julho assinala uma data marcante na história nacional. Há 80 anos, partia em segredo do porto do Rio de Janeiro o destacamento precursor da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Pela primeira vez na história, uma tropa latino-americana embarcou para lutar no Velho Mundo.

Após oito décadas de estudos e pesquisas, esperava-se que o tema estivesse elucidado em seus mínimos detalhes, mas tal esperança não se concretizou. Por incrível que pareça, em vários casos, o relato da expedição nacional mostra-se mais nebuloso hoje do que no século passado.

O estudo de qualquer fenômeno histórico exige o conhecimento de aspectos básicos como os antecedentes, os protagonistas e seus motivadores. A ausência — ou interpretação equivocada — de um desses elementos conduz a um entendimento deficiente do passado, maculado por vícios de origem que turvam a perfeita compreensão. A reconstituição da origem da FEB é um exemplo clássico dessa questão.

Desembarque do 1º Escalão da FEB em Nápoles
Desembarque do 1º Escalão da FEB em Nápoles, 16 jul. 1944. (National Archives)

Nossos compêndios didáticos, costumeiramente certeiros e implacáveis ao apontar os responsáveis por cada evento histórico, derrapam na impessoalidade quando se trata de identificar a responsabilidade pela criação da tropa expedicionária. Abundam os sujeitos ocultos, inexistentes e indeterminados. Por exemplo, o “Brasil Escola”, que se intitula “o maior portal de educação do Brasil”, relaciona a origem da FEB à publicação de um ato burocrático: uma portaria ministerial. [1] O Wikipedia atribui tal iniciativa à “opinião pública”, em particular à mobilização do Partido Comunista Brasileiro e da União da Juventude Comunista.[2] Sobram teorias frágeis, desprovidas de base documental, como a que aponta um suposto acordo entre Getúlio Vargas e Roosevelt durante a “Conferência do Potengi”, em janeiro de 1943.[3]

O Brasil Escola aponta a origem da FEB: uma portaria ministerial
Em regra, a literatura voltada ao ambiente escolar não aponta o responsável pela criação da FEB.

Mesmo na literatura especializada, salvo exceções pontuais, menciona-se a criação da FEB de forma superficial, como se fosse uma consequência natural da declaração de guerra — e o envio de milhares de brasileiros para combater em outro continente um evento banal e corriqueiro. Quase todas as repúblicas americanas declararam guerra à Alemanha nazista. O Brasil foi a única que enviou uma expedição militar terrestre.

Não nos contentamos com explicações vagas e capciosas. Afinal, de quem partiu a iniciativa para a criação da FEB?

Empreendemos uma busca em três dos principais arquivos da política externa entre as duas nações: o Arquivo Histórico do Itamaraty, o Arquivo da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC) e a Roosevelt Presidential Library and Museum. Encontramos grossos volumes com farta documentação típica da burocracia diplomática (pedidos de vistos, autorizações para sobrevoos, questões de imigração etc.). Todavia, no que diz respeito às mensagens trocadas entre Getúlio Vargas e Roosevelt, por meio da embaixada brasileira em Washington, há lacunas inexplicáveis. Onde está, por exemplo, o relato da audiência concedida pelo presidente americano ao embaixador Carlos Martins, acompanhado de João Alberto Lins de Barros, em 10 de dezembro de 1942?

Agenda de Roosevelt
Agenda de Roosevelt, 10 dez. 1942 (FDR Library)

Em 4 de janeiro de 1943, Martins telegrafou a Vargas:

Qual teria sido o tão importante “assunto do momento”? Por que as mensagens imediatamente anteriores a esta não constam dos arquivos oficiais?

Telegrama de Martins a Getúlio Vargas
Telegrama enviado por Martins a Vargas em 4 jan. 1943. A “mensagem de Vossa excelência” ao líder dos EUA, referenciada no texto, “evaporou” dos arquivos oficiais.

Ao final de um dia de extenuante pesquisa, após vasculhar sem sucesso quase uma centena de velhas pastas no Arquivo do Itamaraty, um arquivista da casa apiedou-se da nossa busca infrutífera. Ele nos contou em segredo algo que já desconfiávamos, com base nos poucos fragmentos documentais sobreviventes e no que o grande historiador britânico Alan John Percival Taylor (1906–1990) costumava afirmar: “a única forma segura de manter uma argumentação sobre tópicos históricos é jamais disponibilizar provas contrárias”.

A real origem da FEB consta do nosso livro Guerreiros da Província


[1] Disponível em Brasil Escola: História da Força Expedicionária Brasileira

[2] Disponível no Wikipedia: História da Força Expedicionária Brasileira

[3] Disponível no Educação UOL: História da Força Expedicionária Brasileira

Avaliação: 4.5 de 5.

Inscreva-se no blog para receber as atualizações.

Deixe um comentário