A Batalha do Capistrano
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) enfrentou dificuldades severas e variadas na sua organização e preparo. Não há como avaliar o desempenho em combate dos pracinhas sem antes conhecer, minimamente, aspectos relacionados à seleção, alojamento e instrução no Brasil — termômetro da capacidade bélica nacional. O texto a seguir é um fragmento adaptado do nosso livro Guerreiros da Província, que aborda em detalhes o preparo da Expedição nacional.
Em fevereiro de 1944, Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, ordenou a reunião das tropas expedicionárias no Rio de Janeiro. O Regimento Sampaio teve sorte nessa etapa, pois continuou em suas próprias instalações. O 6º RI conseguiria, enfim, reunir seus três batalhões. Deslocou-se no início de março para o Rio, para acantonar no Batalhão Escola (atual 57º BI Motorizado), cujo pessoal ocupou o Jockey Club. O tenente Demócrito Cavalcanti de Arruda observou que, até a chegada no Distrito Federal, o regimento estava “esfacelado do ponto de vista administrativo e de instrução, contando com um batalhão e a sede de comando em Caçapava, no Vale do Paraíba, estacionando outro batalhão em Taubaté, a 25 km de distância, e o terceiro em Lins, na [Estrada de Ferro] Noroeste, a bons 686 km ferroviários”.
A Vila Militar carioca regurgitava de soldados espremidos em alojamentos precários de velhos quartéis, que antes abrigavam o efetivo reduzido dos tempos de paz — como regimentos de infantaria de apenas dois batalhões, com cerca de mil homens. No Batalhão Escola, houve condições de alojar com conforto apenas um batalhão do Sexto. Algumas companhias ocuparam barracões de madeira, apressadamente construídos e providos de instalações sanitárias insuficientes, que sofriam com a falta d’água. Preparava-se a alimentação em cozinhas de campanha, montadas em antiga cavalariça povoada por enxames de moscas.
O 9º Batalhão de Engenharia, oriundo de Aquidauana (MT), também ocupou instalações improvisadas em Três Rios (RJ), em 1º de março de 1944. O general Raul da Cruz Lima Junior as descreveu: “Uma desagradável surpresa nos aguardava: nosso novo aquartelamento era um imenso armazém regulador de café. Era uma enorme construção quadrangular, com um desvio de linha férrea passando pelo centro”.
O 11º RI e o I/2º Regimento de Obuses Auto-Rebocado (ROAuR), de São Paulo, foram as últimas tropas expedicionárias a se concentrarem na Vila Militar. O Onze embarcou para o Rio por escalões, a partir da primeira semana de março, cumprindo moroso percurso ferroviário que impunha duas baldeações e pernoite no trajeto. No dia oito, por volta das 10h30, o I Batalhão desembarcou na Estação da Vila Militar. A unidade mineira poderia ter ocupado o 2º Regimento de Infantaria, entre o Batalhão Escola e o Regimento Sampaio, pois a OM não estava designada para compor nem a 2ª, nem a 3ª DIE. Os três regimentos expedicionários ficariam justapostos, mas os interioranos tinham outro destino.
Capistrano Maru
Quando anoiteceu, a tropa fez curta marcha pelas vilas residenciais do bairro, até alcançar uma pequena elevação de 49 metros de altitude, batizada em homenagem ao historiador Capistrano de Abreu: o Morro do Capistrano (local ocupado hoje pelo Comando da Brigada Paraquedista). Na sua base, 21 galpões de madeira serviam de alojamentos, cobertos por telhas de zinco que os transformavam “num forno durante o dia e numa estufa durante a noite; era um verdadeiro campo de concentração, pois tinha até cercas de arame farpado ao redor”, registrou o tenente Ruy de Oliveira Fonseca. “Só o filho do Norte, já aclimatado à canícula da sua região, mostrava-se indiferente aos 39 graus à sombra”, observou o memorialista Gentil Palhares.




Fotos acima: militares do 11º Regimento de Infantaria no Morro do Capistrano (Arquivo Nacional).
O alojamento improvisado carecia de camas para todos. “Privadas e banheiros eram deficientes e os ranchos, com os tradicionais carros-cozinha, estavam montados debaixo de taboados que sobraram da construção, cobertos com lonas imprestáveis. Não havia refeitório”, disparou o tenente Alfredo Bertoldo Klas.
Perto dos barracos construiu-se enorme geringonça: armação de madeira larga e comprida, de seis metros de altura e um bojo em cima, sem proteção alguma. Redes de abordagem estendiam-se nas laterais, simulando o acesso a uma embarcação no oceano. Logo ganhou um apelido: “Capistrano Maru”, por analogia aos navios japoneses que sempre pintavam o sobrenome “Maru” em seu casco, para trazer boa sorte e proteção.

A “Batalha do Capistrano” estava prestes a começar.
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