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Artilharia Expedicionária

Precisamente às 14h22, a poderosa Artilharia fez troar seus obuseiros no sopé do Monte Bastione, na bateria do capitão Lobato, do Grupo Da Camino (II/1º Regimento de Obuses Autorebocado). Quase duas semanas depois, um fotógrafo do U. S. Signal Corps registrou uma imagem icônica da campanha, que mostra o soldado Francisco de Paula, carregador de uma das peças, prestes a inserir um tiro de 105mm na culatra do seu obuseiro. Alguém escreveu no corpo do estojo e do projétil: “A cobra está fumando”.

Soldado Francisco de Paula
Soldado Francisco de Paula (U.S. Army Signal Corps).

A foto do simpático artilheiro estampou a capa de O Cruzeiro do Sul, com a legenda: “A nossa resposta: O tedesco, de vez em quando, despacha para as nossas linhas certos folhetos que procuram desvirtuar a nossa luta, dizendo que estamos errados, que não temos motivo de combater a Alemanha, que tudo é obra dos Estados Unidos. Mas nós, via de regra, também despachamos as nossas respostas. Aí vai uma: A COBRA ESTÁ FUMANDO”. Francisco de Paula ganhou a fama de autor do primeiro tiro de Artilharia na campanha, graças à fotografia posada e de múltiplas perspectivas: um sorridente negro a bombardear os arianos nazistas — vingança sutil direcionada aos pessimistas tupiniquins que desdenhavam e ironizavam a FEB.

Os brasileiros lidavam com alguns dos mais avançados obuseiros da Artilharia de Campanha na época: peças de 105mm e de 155mm produzidas pelos EUA, a partir do estudo de obuseiros alemães capturados durante a Grande Guerra — testemunhos do empenho e da capacidade do Exército dos Estados Unidos em desenvolver e prover armas de última geração para as suas Forças Armadas.

Obuseiro da FEB em posição durante a Campanha da Itália.
Obuseiro da FEB em posição na Campanha da Itália (Foto colorizada de original do AHEx).

A chegada desse material representou um notável salto qualitativo para o Exército Brasileiro, até então mobiliado, majoritariamente, por antigos canhões Krupp de 75mm, com rodados de madeira, rebocados por parelhas de cavalos ou muares. O emprego de obuseiros — que, ao contrário dos canhões, podem efetuar o tiro vertical — mostrou-se fundamental para o combate em ambiente de montanha.

Canhão Krupp de 75mm durante a Revolução de 1924.
Canhão Krupp de 75mm durante a Revolução de 1924. Cada peça era tracionada por três parelhas de cavalos (Brasiliana Fotográfica).
Entrada em posição de canhão Krupp de 75mm durante combate na Revolução Constitucionalista de 1932
Entrada em posição de canhão Krupp de 75mm, durante combate na Revolução Constitucionalista de 1932 (Brasiliana Fotográfica).
Artilharia Exército Brasileiro 1943
Dotação do material da Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro em 1943.

Organizou-se a Artilharia Divisionária da FEB em quatro grupos: a Unidade-Escola do Rio de Janeiro, do tenente-coronel Hugo Panasco Alvim (I/1º RAPC 155mm); o Grupo de São Cristóvão, do tenente-coronel Waldemar Levy Cardoso (I/1º ROAR 105mm), o Grupo de Artilharia de Montanha do Rio, do tenente-coronel Geraldo Da Camino (II/1º ROAR 105mm); e o Grupo de Artilharia de Montanha de Quitaúna (SP), do tenente-coronel Sousa Carvalho (I/2º ROAR 105mm).

Durante a Campanha da Itália, as unidades de artilharia passaram a denominar-se Grupos de Obuses (GO):

I/1º ROAR 105mm – 1º GO

II/1º ROAR 105mm – 2º GO

I/2º ROAR 105mm – 3º GO

I/1º RAPC 155mm – 4º GO

A ausência do ministro da Guerra, em visita aos EUA, abriu janela de oportunidade para variadas maquinações. Desde 1942, o general Oswaldo Cordeiro de Farias (1901-1981), interventor federal no Rio Grande do Sul, passou a enviar sucessivos telegramas ao presidente, pedindo seu retorno para o Exército: “Era a alma do soldado que o exigia. Mas Getúlio tinha outros planos”, declarou ele:

“Respondia que minha ida ainda não era oportuna e pedia-me paciência. Um ano depois da declaração de guerra, exatamente no dia 16 de agosto de 1943 — lembro-me da data porque era dia do meu aniversário — recebi um telegrama do ministro interino da Guerra indagando se eu aceitava um lugar na FEB”.

Cordeiro de Farias fora designado para o comando da Artilharia Divisionária da 2ª DIE, mas, em razão do afastamento (por motivo de saúde) do general Álcio Souto, assumiu o comando da Artilharia da 1ª DIE no final de 1943.

O treinamento da Artilharia da FEB foi o melhor sucedido de toda a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, pois, apesar da flutuação dos efetivos, teve à disposição a maior parte do material bélico americano que utilizaria na Itália. Em seu relatório secreto ao Ministério da Guerra, o general Mascarenhas de Moraes reportou que “A Artilharia, embora não dispusesse de canhões de 155mm, pôde fazer uma preparação técnica perfeita com o material 105mm que foi dotada”. Essa descrição é curiosa, pois um documento do Ministério da Guerra aponta que os seis obuseiros de 155mm, previstos no acordo com os EUA, estavam de posse do Exército desde 31 de janeiro de 1944. Não foi possível descobrir o porquê da não distribuição do material. O I/1º RAPC 155mm (atual 11º GAC) treinou no Brasil com obuseiros de 105mm.

Formatura do contingente febiano no 1º Regimento de Artilharia Pesada Curta  I/1º RAPC 155mm
Formatura do contingente febiano no 1º Regimento de Artilharia Pesada Curta (I/1º RAPC 155mm), no pátio do atual 31º Grupo de Artilharia de Campanha (Escola). Por razão desconhecida, a OM não treinou no Brasil com os obuseiros de 155mm enviados pelos EUA (Arquivo Nacional).
relatório das principais atividades do Ministério da Guerra durante o ano de 1943.
Trecho do relatório das principais atividades do Ministério da Guerra durante o ano de 1943.

Acima: Treinamento da Artilharia da Força Expedicionária Brasileira ((I/1º RAPC), com o novo material de 105mm, no Campo de Instrução de Gericinó (RJ), s.d. (Arquivo Nacional).

Acima: Demonstração de Tiro da Força Expedicionária Brasileira para o presidente da República, no Campo de Instrução de Gericinó (RJ), em 20 de maio de 1944. Trata-se do I/2º ROAR 105mm, pois o tenente-coronel Sousa Carvalho (foto acima) é visível nas imagens (Arquivo Nacional).

A adoção do moderno material bélico norte-americano representou apenas parte da transformação que a Artilharia nacional deveria promover, a fim de se modernizar, antes da entrada em ação na Itália. Outras mudanças, tão ou mais importantes, se faziam necessárias.

Mas essa já é outra história, que contamos em nosso novo livro Guerreiros da Província.

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