O Soldado Provinciano 🌿

Antonio da Padua Inhan na Itália, em foto colorizada pelo nosso perfil.
Em viagem pelo sul de Minas Gerais, o observador atento percebe um detalhe presente em muitas das modestas cidades que pontilham essa bela região: a homenagem aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Seja por meio de estátuas, placas ou outros tipos de memoriais, tais municípios preservam com orgulho a lembrança da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Milhares de jovens do interior mineiro foram convocados para integrar as fileiras do 12º Regimento de Infantaria em Juiz de Fora. Outras centenas pertenceram aos quadros do 6º Regimento de Infantaria (São Paulo) durante o conflito. O Doze selecionou cerca de 800 militares, despachados em fevereiro de 1944 para compor o efetivo de guerra do 11º Regimento de Infantaria de São João del-Rei.
A bravura foi a marca registrada dos rapazes provincianos, cuja taxa de mortalidade entre os representantes de algumas cidades, como Guarani, beirou 30%. Não foi possível apurar o número de feridos, mas acredita-se que o percentual tenha alcançado mais do que o dobro desse montante.
Tratam-se de personagens hoje praticamente esquecidos pela sociedade — inclusive por entidades, governos e instituições supostamente interessados nessa memória, mas que lhes dedicam espaço quase protocolar no aniversário de 80 anos da Campanha da FEB.
Quem foram esses soldados provincianos de nobre e relevante papel em nossa história?
Para responder a essa pergunta, empreendemos uma pesquisa minuciosa em busca da origem dos pracinhas do interior mineiro. A trajetória de alguns deles consta em nosso livro Guerreiros da Província, como no extrato adaptado da biografia de Antonio de Padua Inhan (1925-2019), transcrito a seguir. Trata-se de uma jornada que se confunde com a origem do nosso povo. Mescla-se com as raízes da identidade nacional.


A República deu continuidade ao projeto migratório do Imperador deposto, e a Itália passou a ser o alvo principal da busca por trabalhadores europeus, haja vista a similaridade de língua e religião com o Brasil. O Reino da Itália atravessava período de grandes problemas sociais após a Unificação de 1871, como o desemprego, a pobreza e a carência de terras livres, que estimularam o intenso movimento migratório entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século seguinte.
No curso de 70 anos, dos cerca de 1,5 milhão de italianos que desembarcaram no Brasil, uma segunda e grande leva chegou aos Estados de São Paulo e de Minas Gerais. Juiz de Fora foi um dos maiores polos de recepção desses imigrantes. Parte expressiva veio do norte italiano, muitos da província de Padova. Entre eles, estava o casal Antonio Gnan e Maria Angela Grigoletto, que, em 1899, embarcara grávida num vapor com destino ao Rio de Janeiro. Maria Angela deu à luz um menino, ainda a bordo do navio, registrado no desembarque como João Inham — sem o “G” mudo, conforme o aportuguesamento imposto pelos escrivães de paz.
A saga dos Gnan e dos seus patrícios no Brasil assemelhou-se à dos imigrantes alemães. As famílias italianas permaneciam, em média, dez anos no campo, depois seguiam para os centros urbanos, com bagagem expressiva de conhecimentos técnicos que lhes permitiam atuar como alfaiates, barbeiros, carpinteiros, ferreiros, pedreiros e tijoleiros. Juiz de Fora — a “Manchester brasileira” — atraiu famílias de outras regiões do Estado e do País, bem como imigrantes espanhóis, judeus de várias origens, portugueses, sírio-libaneses e até ingleses, que abriram pequenas fábricas, ferrarias de carroças e fundições de ferro-gusa.
João Inham trabalhou como barbeiro em Guarani, onde se casou e gerou cinco filhos. Em 26 de setembro de 1925, sua esposa Rumilda Azalin deu à luz um menino, Antonio de Padua Inhan, em Furtado de Campos, Distrito de Rio Novo. O bebê sobreviveu às altas taxas de mortalidade infantil da década de 1940, derivadas das más condições sanitárias comuns naquele tempo. Entre mil crianças felizardas, após a ventura de sobreviverem à gestação e ao parto, mais de duas centenas não alcançavam os cinco anos de idade.
Infelizmente, o pai do pequeno Antonio (Toninho) não o viu chegar sequer à pré-adolescência, pois faleceu com apenas 34 anos — na média da expectativa de vida dos brasileiros nascidos por volta do início do século (33,6 anos). Aos dez anos de idade, Toninho se viu na obrigação de ajudar a mãe e os quatro irmãos — uma irmã viera ao mundo apenas dois meses após a morte do pai.
A família mudou-se para Juiz de Fora, pois Rumilda conseguira emprego na Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. Dotado de energia e vitalidade impressionantes, o garoto não costumava durar muito na mesma ocupação: de entregador de roupa de lavandeira a vendedor de pastéis nas ruas, de engraxate a catador de papel. Em tom de pilhéria, os parentes diziam que sua hiperatividade “puxara” o temperamento do pai nascido em alto-mar, durante forte tempestade.
Sua mãe lhe arrumou um serviço na companhia têxtil, mas Toninho acalentava sonhos maiores no Rio de Janeiro, que dependiam do cumprimento das obrigações perante o Exército.


O governo Vargas promulgara a CLT, reunindo toda a legislação relativa aos empregados e empregadores. Já o Certificado de Reservista atestava o cumprimento dos deveres com a Pátria, o que dava certo status ao portador: a presunção de disciplina e honestidade. A quitação do Serviço Militar era pré-requisito para o ingresso no mercado de trabalho, a ocupação de cargo público e o livramento das pesadas consequências advindas da insubmissão.
Por isso, no dia em que completou 17 anos, Toninho se apresentou como voluntário no 12 º Regimento de Infantaria. Sua mãe o acompanhou, pois, segundo a legislação vigente, os pais precisavam autorizar o alistamento dos menores de idade. Durante uma entrevista realizada 65 anos depois, ele relembrou esse dia sem meias-palavras, com a sinceridade e modéstia características da sua personalidade:
“Eu nem sabia que o Brasil estava em guerra; se eu soubesse, eu nem tinha ido. Eu me apresentei como voluntário, não para ir para a guerra, mas porque precisava do Certificado de Reservista, que, naquela época, era mais importante do que a carteira do Ministério do Trabalho”.
Incorporado em outubro de 1942, foi designado para a 2ª Companhia (2ª Cia) com um número de identificação: 3626.
Mas essa é outra história que contamos em Guerreiros da Província.

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