2–3 minutos

A história dos trabalhos de conscrição, seleção e treinamento do contingente febiano merece uma obra à parte, tamanha a quantidade de ensinamentos colhidos e de relatos que hoje parecem vir do reino da ficção. Não é o caso deste.

Esta breve história foi transcrita do livro “Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira“, com base no testemunho do 2º tenente R/2 Cássio Abranches Viotti, presente no seu livro “Crônicas de Guerra” (1º lugar em Crônicas da Academia Mineira de Letras 98/99), e no apoio dos saudosos major Ivan Esteves Alves e capitão capitão Ary Roberto de Abreu, que gentilmente nos apoiaram com suas memórias e imagens do atual Centro Social e Cultural do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, em São João del Rei — onde nos anos 1940 funcionava o III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria: o famoso “Lapa Azul” (seu codinome durante a Campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália).


O coronel Delmiro Pereira de Andrade, comandante do 11º RI, omitiu detalhes comprometedores da mobilização em seu livro de memórias, com a ressalva de que “há alguns fatos que constituem assunto de medidas ou providências de autoridades, razão pela qual não farão parte desse relato”.

Afirmou que o “Comando do Regimento não encontrou dificuldade da parte do Exmo. Ministro da Guerra; tudo que careceu foi dado”. Na verdade, vários dos seus homens necessitavam até de botas semelhantes às usadas pelos emboabas há 234 anos. Viotti observou que os convocados

não tinham fardas, não havia equipamentos para eles, não possuíam muda de roupa, andavam sujos, andrajosos. A convocação fora bem-feita, em tempo oportuno, mas o aprovisionamento não funcionara. Nem fardamento, nem agasalhos, nem cuecas, nem meias, nem camisetas, nem botinas. Era uma tropa de mendigos. Simplesmente inacreditável.

O III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria ocupava um casarão externo ao regimento, próximo ao córrego do Lenheiro, que corta a cidade. Ao chegar a notícia da vinda de um oficial-general para inspeção, desencadearam-se as providências de praxe na caserna.

“Ordem severa: esconder os paisanos! Pôr de serviço de guarda só soldados antigos, bem uniformizados, de botinas bem engraxadas. Esconder a tropa de mendigos!”, testemunhou Viotti.

Entretanto, a preparação para a visita no III Batalhão ficou a cargo do capitão Clorindo Valadares: oficial destemido, herói da resistência do 12º RI durante a Revolução de 1930, que tomou iniciativa surpreendente.

Durante a visita de autoridades aos quartéis, é habitual organizar a guarda de recepção com os praças mais destacados e mais bem uniformizados. Mas ele fez o contrário. “Em todos os postos, desde a entrada do quartel, colocou de serviço os soldados descalços e à paisana, com o cinto de guarnição por cima das roupas sujas e rotas. Foi chocante”.

Impressionado com o que vira, o general prometeu providências enérgicas e as tomou de fato. Logo a unidade recebeu o fardamento e o equipamento. Já o ousado capitão ganhou transferência para o 10º RI (Belo Horizonte) após a promoção a major, e não seguiu com o regimento sanjoanense para a guerra.


Durval Lourenço Pereira. Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira, Juiz de Fora, Insight Books, 2024, p. 129.

O assinante do canal recebe gratuitamente as novas matérias e novidades da FEB.

Siga o nosso perfil no Instagram: @memorialdafeb

Uma resposta para “A Ousadia do Capitão”.

  1. Avatar de briefly88fa797df3
    briefly88fa797df3

    História da Força Expedicionária

    Meu Deus, quantas histórias maravilhosas, e cheias de conteúdo para a formação do caráter de uma nova Geração.

    Joga-se dinheiro fora, enquanto poderíamos fazer Filmes exaltando toda Nobreza de cada um dos Heróis da FEB.

    Pobre geração brasileira.

    Emmanuel Paulo Borges Gonçalves

    Curtir

Deixe um comentário