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O acadêmico que não se vendeu

Anteontem (4/2/2026), ele me enviou um áudio pelo WhatsApp, narrando uma história que ouvira do 3º sargento Ewaldo Meyer — apontado por muitos como o idealizador e desenhista da célebre “Cobra Fumando”. Contou, com entusiasmo, o episódio em que um tenente alemão aprisionado afrontou seus captores e recebeu, em resposta, uma bordoada na orelha. A partir da data do ocorrido, cruzamos informações até chegarmos ao nome do personagem: o tenente Klaus Dietrich Polz — até então incógnito na historiografia febiana havia oitenta anos.

Eis apenas um exemplo entre as centenas de conversas amistosas, quase diárias e intelectualmente fecundas, que mantivemos ao longo dos anos. Infelizmente, não mais as teremos. Essa foi a última mensagem recebida do historiador Cesar Campiani Maximiano, que nos deixou precocemente ontem (5/2/2026), aos 55 anos.

Cesar Campiani

Foi o primeiro historiador nacional a estudar a Força Expedicionária Brasileira a partir de investigações aprofundadas, rigor metodológico e critérios científicos consistentes. Por larga margem, consagrou-se como o maior historiador da FEB.

É o autor de Onde Estão os Nossos Heróis (1995), Irmãos de Armas (2005), Barbudos, Sujos e Fatigados (2010) e Brazilian Expeditionary Force in World War II (Osprey). Sua publicação mais recente é o capítulo “Learning on the Job”, integrante da obra coletiva Allied Fighting Effectiveness in North Africa and Italy, 1942–1945, editada na Holanda. Ainda assim, sua vasta bibliografia representa apenas uma fração do conhecimento acumulado ao longo de mais de trinta anos de pesquisa, enriquecidos pelo convívio contínuo com dezenas de veteranos da FEB, frequentadores das associações de expedicionários de São Paulo e Campinas.

Nascido em 1971, doutorou-se em História pela USP em 2004 — “apesar da USP”, como costumava gracejar. Lecionou, entre outras renomadas instituições, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Modesto, pouco apreciava ser tratado pelo título de “doutor” — embora o merecesse como poucos. Preferia a simplicidade do trato igualitário, avesso à pompa e à formalidade excessiva, traço comum aos verdadeiramente grandes.

Nos últimos anos, dedicou-se à confecção de réplicas de uniformes históricos da Segunda Guerra Mundial, trabalho no qual atingiu um nível de excelência incomparável. Estava particularmente orgulhoso da encomenda de fardas destinadas aos manequins do Monumento aos Pracinhas. Ninguém mais presta esse serviço com tamanha precisão, qualidade e fidelidade aos modelos originais.

Ao longo de duas décadas de amizade profícua, abriu-me portas, indicou caminhos, incentivou pesquisas e esclareceu questões complexas, sempre com generosidade intelectual rara, compartilhando fontes e orientações. Despertou o interesse pelo estudo da FEB em milhares de pessoas — alunos, leitores e admiradores — por meio de uma abordagem sólida, honesta e irrefutável.

Dedicou a maior parte de sua vida a um tema tão nobre quanto injustamente negligenciado pelos currículos escolares e universitários. Em um país verdadeiramente comprometido com a produção do conhecimento, suas pesquisas inéditas teriam recebido amplo apoio institucional. Cesar, contudo, jamais abriu mão de seus princípios para agradar quem quer que fosse. Não se curvou a imposições políticas ou ideológicas que permeiam a estrutura acadêmica, pagando assim o preço no afastamento da docência formal, em defesa da sua integridade moral e intelectual.

Pouco conhecido é o fato de que, enquanto grandes empresas multinacionais lucravam durante a pandemia, sua minúscula confecção passou a produzir máscaras destinadas à doação aos mais necessitados. A disposição em atender pesquisadores, admiradores da FEB e instituições diversas foram marcas constantes de sua personalidade. Por tudo isso, sua perda é devastadora e irreparável sob múltiplos aspectos.

Na derradeira mensagem enviada por WhatsApp, demonstrou tristeza diante dos dados do mais recente censo permanente da FEB, que aponta apenas um punhado de sobreviventes — estes, sim, os verdadeiros veteranos. Não suportou esperar pela partida do último.

Cesar Campiani Maximiano deixa um legado intelectual de valor inestimável. Mais do que isso, oferece o exemplo do historiador competente, diligente e rigoroso. Sobretudo, do homem íntegro, corajoso e fiel a princípios inegociáveis — o cada vez mais raro modelo de acadêmico que não se vende ao sistema.

Foi uma honra partilhar da sua amizade por tantos anos.

Que o Senhor conforte a sua família e amigos.

Uma resposta a “CESAR CAMPIANI MAXIMIANO (1971-2026)”

  1. Avatar de fidelissoares
    fidelissoares

    Uma notícia super triste nesta manhã. Que Deus o receba na eternidade e sua infinita misericórdia. Cesar é um grande pesquisasor historiador de ponta, resolveu lutar pela Memória e História da FEB. Ele e eu sempre lutamos pelo uso dos uniformes históricos de forma fiel e ele foi a frente passou a fabricar sob supervisão cada item com sua acuidade de pesquisador …certa vez fiz um comentário que virou que virou uma máxima para nós “Uniforme Histórico é uniforme, carrega a força de um legado , portanto não pode jamais ser visto como uma fantasia visual sem propósito.” Deixa um legado indelével quanto a representatividade da FEB na História Brasileira.

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