Operação Brasil

Dönitz e a Operação Brasil

Paris, 3 de junho de 1942

Há exatos 80 anos, Karl Dönitz, Comandante da Força de Submarinos, recebeu com desconfiança a proposta de ataque à navegação brasileira formulada pelo Comando da Marinha alemã. Embora estivesse de acordo com a montagem de uma ação de guerra antecipada contra o Brasil, acreditando que o ataque tivesse boas chances de sucesso, Dönitz desaconselhou a operação. Seus argumentos basearam-se na carência de submarinos-tanque (U-tankers) e nas limitações de um ataque naval antes que a guerra entre os dois países fosse declarada. Sem a possibilidade de reabastecimento e de autorização para a entrada dos submarinos nos portos e nas águas territoriais brasileiras, os submarinos teriam pouco tempo disponível para o ataque, restringindo o emprego pleno do seu poder de combate. Sua resposta ao escalão superior afirmou o seguinte:

1. O B.d.U. (Comando de Submarinos) considera que um ataque surpresa frente à costa brasileira pode ser bem-sucedido e pretende executá-lo assim que tenha início a guerra contra o Brasil.

2. Enquanto o Brasil continuar neutro, uma ação de guerra não vale a pena, pelos seguintes motivos: como nenhum U-tanker estará à disposição, o estoque de combustível disponível para os submarinos do tipo IX na área de operação é bastante pequeno, devido às longas distâncias de deslocamento. Seria preciso utilizar todo o arsenal de torpedos num intervalo de tempo reduzido, mas isso é impossível, porque:

a. há limitações com relação a um ataque irrestrito;

b. os U-boote não tem permissão de atuar em águas territoriais e junto aos portos, ou seja, em áreas de intenso tráfego. Consequentemente, a sua força combativa não poderá ser aproveitada plenamente.

3. Uma ação contra o Brasil, antes do início da guerra, não possui finalidade nenhuma, pois, caso a guerra não seja iniciada durante a ação:

a. o desvio para outra área de operações não valerá a pena,  devido à grande distância.

b. não promete sucesso a atuação na área de ataque permitida e no mar aberto, como mostraram as operações do U-126, do U-128 e do U-161.

Em seu diário de guerra, o almirante fez algumas observações adicionais sobre os planos do Skl (Comando da Marinha alemã). Sem especificar datas, Dönitz aconselhou que a ação fosse postergada, pois não havia disponibilidade de submarinos-tanque com brevidade, visto que as duas únicas unidades de reabastecimento disponíveis (o U-459 e o U-460) estavam comprometidas em outras operações.[i] Entretanto, destacou que a possibilidade de o Brasil entrar na guerra requeria uma rápida e efetiva operação de U-boote contra os portos brasileiros.

PARECER CONTRÁRIO: Polidamente, o almirante Karl Dönitz opôs-se aos planos de ataque ao Brasil.

Eu considero que uma rápida operação contra os portos brasileiros teria uma boa chance de sucesso. (…) É esperado um pesado tráfego naval e atividade antissubmarina muito leve nos portos de Santos, Rio de Janeiro, Recife, Bahia e Natal. (…) O tipo de litoral permite a operação próxima à linha costeira. (…) A primeira operação deverá ser feita com torpedos, porque se espera que a defesa antissubmarina permita a entrada dos U-boote nas baías e portos, onde a operação com torpedos irá causar uma grande surpresa combinada com as operações de minagem. (…) A minagem, certamente, promete boas chances de sucesso no futuro.[ii]

Dönitz embasou um parecer contrário ao ataque imediato ao Brasil por razões logísticas e operacionais, pois a falta de submarinos-tanque no Atlântico Sul, somadas às restrições de cunho político aos ataques, tornariam a ação pouco compensadora. Como exemplo, o almirante citou o caso dos submarinos U-161, U-126 e U-128, que estavam em operação no litoral norte brasileiro desde o final de maio sem avistar tráfego.[iii]

Dönitz era um militar pragmático, que direcionava seus meios para objetivos de relevância estratégica — e a Operação Brasil destoava dessa visão. A ação proposta pelo Alto-Comando voltava-se mais para a guerra de propaganda do que para alcançar objetivos relevantes na esfera militar. Uma vez levado a efeito, o ataque retiraria unidades submarinas de áreas vitais, acarretando “um considerável custo para o resto da guerra no Atlântico” e prejudicando as demais operações na costa americana.[iv] Se recebesse ordem para deslocar seus U-boote para o distante Atlântico Sul, Dönitz queria que, pelo menos, fosse dada total liberdade de ação aos seus subordinados.

Ele logo teria a liberdade de ação desejada.


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[i] KTB B.d.U., 6 Jun 42, p.113-114.

[ii]Kriegstagebücher (KTB) & Stehender Kriegsbefehl Des Füehrers/Befehlshaber der Unterseeboote (FdU./BdU) War Diary and War Standing Orders of Commander in Chief Submarines, p.108, 3 Jun 1942, pp. 107-108.

[iii] KTB B.d.U., 2 Jun 42.

[iv] Ibid., 6 Jun 42.

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