Operação Brasil

O “Pearl Harbor” Brasileiro

Conferência entre Hitler e seus generais no Castelo de Berghof © Photo credit: © IWM (HU 75543)

Em 15 de junho de 1942, há quase 80 anos, o almirante Erich Raeder, comandante-em-chefe da Kriegsmarine, saiu esperançoso de uma conferência com Adolf Hitler no Castelo de Berghof. Seu plano de ataque ao Brasil finalmente ganhara o sinal verde do líder nazista. Uma dezena de U-boats logo deixaria os portos franceses do Atlântico com destino à costa brasileira, onde desfechariam um poderoso ataque contra os portos e a navegação do oficialmente neutro país sul-americano.

No dia seguinte à conferência com o Hitler, o Comando Operacional da Marinha alemã (Skl) enviou um ofício ao Comando de Submarinos (B.d.U.) informando que “O Führer decidiu fazer um contra-ataque surpresa com 10 submarinos em frente aos portos principais do Brasil, no período previsto entre os dias 3-8 de agosto” (foto).

Ofício do Skl ordenando a execução da “Operação Brasil” ao Comando de Submarinos (B.d.U.), em 16 de junho de 1942.

Conforme registrou uma entrada no diário de Alfred Jodl, Chefe do Comando Operacional da OKW (Alto Comando das Forças Armadas), de 16 de junho de 1942:

O Comando operacional da Marinha [Skl], solicitou no dia 29 de maio, permissão para atacar as forças marítimas e aéreas brasileiras. O Skl considera que um golpe súbito contra os navios da marinha e mercantes brasileiros é conveniente neste momento (a) porque as medidas de defesa ainda estão incompletas (b) porque há a possibilidade de surpreender e (c) porque o Brasil está para todos os efeitos e propósitos combatendo a Alemanha no mar. (1)

Segundo o depoimento de Raeder durante seu julgamento em Nuremberg:

“As relações entre Brasil e Alemanha nessa época não poderiam ter sido piores. Os alemães foram muito perseguidos e muito maltratados. Os interesses econômicos da Alemanha foram fortemente prejudicados. Os brasileiros já estavam completamente do lado dos Estados Unidos. Eles permitiram o estabelecimento de bases aéreas dos Estados Unidos ao longo da costa brasileira, e também estações de inteligência. Eles próprios confirmaram que destruíram um submarino alemão; e, por outro lado, os submarinos alemães também haviam atacado navios brasileiros, pois os navios brasileiros não eram iluminados de acordo com os regulamentos e, consequentemente, não podiam ser reconhecidos como navios brasileiros.

A Alemanha já havia pedido a todos os países sul-americanos que iluminassem seus navios de tal forma que sua nacionalidade pudesse ser distinguida à noite. Em seguida, houve ataques aéreos a U-boats das Potências do Eixo, e eles poderiam ter sido realizados apenas a partir de bases brasileiras. A este pedido do Estado-Maior de Operações Navais ao Führer, o Führer decretou que mais uma vez deveríamos perguntar aos italianos quais relatórios de inteligência eles haviam recebido; e a Itália, por sua vez, confirmou que algumas semanas antes os submarinos italianos, que operavam junto com o nosso, haviam sido atacados perto da costa brasileira. Da mesma forma, o Ministério da Aeronáutica do Brasil deu a conhecer o fato de que aeronaves brasileiras ou americanas provenientes de bases aéreas brasileiras atacaram U-boats do Eixo.” (2)

Erich Raeder, o idealizador da Operação Brasil. (Bundesarchiv, Bild 146-1980-128-63 / CC-BY-SA 3.0).

Ainda segundo Raeder, Hitler só fez uma exigência em particular: disse que se o ataque fosse desfechado, não deveria constituir em “meras alfinetadas”, mas em uma “séria empreitada” — e todos sabiam o que tal condicionante significava. (3)

Num tempo em que não haviam sequer estradas de terra ligando o Sudeste ao Norte e ao Nordeste, ou mesmo ligação rodoviária asfaltada entre o Rio de Janeiro e São Paulo, o transporte de passageiros entre os Estados brasileiros era quase totalmente feito pela navegação de cabotagem em paquetes (navios mistos de carga e de passageiros) abarrotados. Por isso, estima-se que o número de vítimas fatais oriundo da ofensiva nazista chegasse aos milhares, entre homens, mulheres e crianças, na maior tragédia naval que o Brasil já testemunhara.

O ataque preparado idealizado pelo Comando da Marinha alemã apanharia o Brasil de surpresa, aproveitando-se do espaço privilegiado de escuridão oferecido pela Lua Nova no início de agosto: um “Pearl Harbor brasileiro” — conforme a promotoria do Tribunal de Nuremberg iria se referir aos planos em 1946.

Em 21 de junho, os submarinos alemães começaram a zarpar dos portos franceses com destino ao Atlântico Sul.

A sorte do Brasil estava lançada.

Acompanhe em https://memorialdafeb.com/operacao-brasil/ a cronologia dos eventos que levaram o Brasil à Segunda Guerra Mundial — um fato histórico há décadas povoado por mitos que insistem em ignorar as evidências documentais em favor de narrativas e modelos interpretativos ideologizados.


(1) https://avalon.law.yale.edu/imt/1807-ps.asp

(2) https://avalon.law.yale.edu/imt/05-18-46.asp

(3) Idem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s