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Arraigou-se no imaginário relativo à Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Segunda Guerra Mundial, a noção de que os pracinhas lutaram em uma “guerra de montanha”; e que, por isso, eles deveriam ter sido treinados no terreno montanhoso de Resende, e não no Campo de Instrução de Gericinó, no Rio de Janeiro.

Está correta tal afirmativa? Buscamos resumir numa breve postagem algumas informações relevantes para responder o questionamento.

De fato, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) combateu em terreno montanhoso na Itália. Na Toscana, por exemplo, o Destacamento FEB conquistou o Monte Prana (1.220m) em setembro de 1944, tendo de vencer um desnível de aproximadamente 1.200m em relação às bases de partida para os ataques.

Foto presente no livro “Guerreiros da Província”

A FEB teve de lançar mão de animais para o transporte de cargas, de emprego comum no combate de montanha. Todavia, os pracinhas não tiveram esse apoio da forma adequada. Segundo o tenente José Gonçalves, comandante de um pelotão de infantaria do 6º Regimento de Infantaria, durante o ataque de Barga (30 de outubro de 1944) sua companhia trouxe apenas três mulas, embora tivessem apreendido animais extras dos italianos, logo devolvidos “porque o Comando assim determinou, tendo em vista as reclamações dos civis”. Como a história nos mostra, essa deficiência teve alta relevância para o fracasso da operação nacional.

O termo “guerra de montanha” subentende a utilização de equipamentos, técnicas e táticas afetas ao montanhismo militar. Contudo, no Brasil dos anos 1940, inexistia treinamento específico para esse tipo de conflito. O Regulamento para os Exercícios e o Combate de Infantaria (RECI – 2ª parte), publicado em 1943, traz não mais do que conceitos genéricos, em poucas páginas dedicadas ao “Combate em Montanha”.

Na caserna, essa atividade teve início apenas em 1979, no 11º Regimento de Infantaria, de São João del Rey -MG, hoje 11º Batalhão de Infantaria de Montanha. Desde então, começou no Exército Brasileiro o desenvolvimento e a prática de uma doutrina específica para esse tipo peculiar de combate.

Portanto, a FEB lutou uma guerra “na montanha” e não “de montanha”.

Quanto à escolha da Vila Militar (RJ) ao invés de Resende, cabe recapitular certos acertos prévios, presentes em detalhes no livro “Guerreiros da Província”:

Em agosto de 1943, Dutra baixou instruções para a organização e instalação de Campos de Instrução Militar (CIM) em três regiões militares, que deveriam 152 guerreiros da província acomodar, cada um deles, 15 mil homens durante o período de sete meses. Nomeou comissão chefiada pelo coronel Zeno Estilac Leal para cumprir a tarefa, mas as ordens careciam da informação mais relevante: a localização. Dois campos nem tiveram indicação das cidades ou dos Estados em que seriam construídos. Decidiu-se que o CIM da 1ª RM ocuparia as cercanias da cidade de Resende, mas houve pendência quanto aos sítios da 2ª e da 7ª RM: “em locais que serão oportunamente designados”. Mais tarde, decidiu se que o CIM da 7ª Região Militar abrigaria a 3ª DIE, na região de Recife, ao passo que Sorocaba receberia a 2ª DIE.

As diretrizes vagas evidenciam a ausência de levantamentos anteriores, além do tardio interesse em modificar o costumeiro quadro de improviso.

Além da questão do não recebimento das armas para o treinamento, acertadas contratualmente com Washington, figuravam empecilhos de ordem burocrática no Brasil. O Exército sequer decidira quanto ao local de concentração do efetivo. Descartou-se a cidade de Resende no início de novembro, e um assistente do adido militar americano reportou que fontes do Ministério da Guerra lhe revelaram o motivo da rejeição: o relevo adjacente, considerado inapropriado para o treinamento. A fonte do estrangeiro mostra-se pouco confiável, visto que a topografia propícia às manobras escolares concorreu para a escolha da cidade como sede da nova escola militar (AMAN).

Ao contrário da vizinha Itatiaia, Resende não possui terreno montanhoso, muito menos na área do Campo de Instrução da AMAN. O topo de uma das mais altas elevações dessa região, popularmente conhecida como “Saboião” (junto à Fazenda Boa Esperança), mal chega a 100m de desnível em relação aos baixios do terreno circundante.

O Campo de Instrução da AMAN está assinalado em vermelho (Resende – RJ)

Na verdade, outras circunstâncias motivaram a decisão do Exército. Em 1944, a construção da AMAN ainda estava em curso. Além disso, receber o material bélico dos EUA no Rio — ninguém adiantava a data —, para depois levá-lo ao interior, demandava tempo precioso que comprometeria o apresto do contingente. O pequeno município carecia de depósitos e serviços capazes de gerenciar a distribuição e manutenção das armas, equipamentos e viaturas. Contava com pouco mais de 22 mil habitantes, sem dispor dos médicos e peritos necessários ao trabalho das juntas de inspeção de saúde, bem como de laboratórios para analisar os exames.

Tal qual os americanos utilizavam a litorânea Norfolk, a 1ª DIE deveria concentrar-se perto de uma grande cidade portuária, à espera dos navios de transporte. Por fim, questões de segurança impunham o embarque célere do contingente, operação inviável a partir do interior fluminense. Em 6 de março de 1944, os 15 cadetes precursores da futura academia militar chegariam da Escola Militar do Realengo, “após quase dois dias de movimentada e sofrida viagem”.

 No início de 1944, Dutra finalmente concordou com a sugestão dos estrangeiros, subordinando a escolha do local de treinamento, “notadamente, às facilidades de embarque ulterior”. Nem Campinas, Lorena, Resende ou Sorocaba abrigariam a 1ª DIE. Nenhum “forte” apropriado acolheria os pracinhas. Os integrantes da FEB seriam adestrados da maneira usual, em terreno comprado pelo Exército em 1908, de instalações acanhadas e reduzidas proporções (5,5 por 7 km), cuja edificação civil vicinal limitava a prática do tiro: o Campo de Gericinó.

Campo de Instrução de Gericinó (1940). Em primeiro plano, a Colina da Torre.

Em idos de 1922, a benfeitoria recebera severa crítica de Pandiá Calógeras por suas deficiências (servia de palco a manobras de pequenas brigadas, com efetivo aproximado de cinco mil homens). Suas dimensões constituíam um obstáculo intransponível. Não obstante, escolheu-se Gericinó para abrigar os treinos de toda uma Divisão de Infantaria e órgãos não Divisionários.

Os pracinhas poderiam ter sido adestrados na vizinha Serra de Madureira ou outra serra nessa região? Talvez sim. Mas a crítica tardia é tarefa fácil para o observador onisciente, refastelado em sua poltrona no século XXI. No início de 1944, ninguém sabia informar qual seria o teatro de operações da FEB. Na Itália? Na França? No deserto do Saara? Nos Balcãs? O primeiro-ministro britânico Winston Churchill sequer havia sido consultado a esse respeito — e da concordância ou não do aliado inglês dependia o envio da FEB.

Muitas foram as deficiências vistas no preparo da expedição militar nacional, mas a questão doutrinária e de escolha do local de concentração e treino da tropa febiana não faz parte desse rol.

Guerreiros da Província

Uma resposta para “A FEB lutou em uma “guerra de montanha”?”.

  1. Avatar de Cel Wellington (Assessor História Militar "Brigada Fornovo di Taro")
    Cel Wellington (Assessor História Militar “Brigada Fornovo di Taro”)

    Excelente trabalho de pesquisa!

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