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O ano de 2026 não fugiu à regra. Viciada no masoquismo cívico, a imprensa tupiniquim ignorou solenemente os festejos das vitórias da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Porém, os nossos irmãos italianos não as esquecem.

Traduzimos e transcrevemos a belíssima matéria do jornalista Fabio Marucci (marucci@laprovincia.online), publicada em 30 de abril de 2026 no jornal italiano “La Provincia“. 🇮🇹

Homenagem aos pracinhas: os jovens brasileiros que lutaram na Itália e nunca mais voltaram.

Um momento solene de comemoração que renova o profundo laço entre a Itália e o Brasil, unidos na memória e na gratidão aos bravos soldados que vieram de longe e compartilharam sacrifício e liberdade.

Eles eram jovens, jovens demais para o imenso peso que a história estava prestes a colocar sobre seus ombros. Mesmo assim, sem hesitar, responderam: “Sim, senhor”, como fazem os verdadeiros soldados, aqueles que não pedem permissão à idade para serem corajosos.

Deixaram o Brasil, cruzaram o oceano, para desembarcar em uma terra distante, mas não estrangeira, e lutar ao lado de um povo amigo, subjugado pela opressão.

Eles eram os pracinhas, os “pequenos soldados” da Força Expedicionária Brasileira, que chegaram à Itália no outono de 1944. Em Pistoia, ao longo da Linha Gótica, escreveram páginas de sacrifício e determinação, enfrentando implacavelmente a dureza da guerra e a ferocidade dos nazistas e fascistas.

Esse nome, “pracinhas”, nascido do carinho do povo brasileiro e depois adotado pelos italianos, diz mais do que uma simples definição: fala de suas origens humildes, muitas vezes camponesas, e de um grande coração, capaz de reconhecer no outro um irmão. Não eram apenas soldados, mas homens capazes de trazer, junto com as armas, humanidade e proximidade.

E hoje, em nossa memória, eles permanecem não apenas como combatentes, mas como jovens vidas que, embora chamadas à guerra cedo demais, souberam escolher a coragem e a dignidade, transformando o sacrifício em memória viva.

Por essa razão, Pistoia os homenageou como parte das comemorações do 81º aniversário das vitórias da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Uma cerimônia solene, imersa em um silêncio de profunda lembrança, ocorreu no Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistoia, com a presença de diversas autoridades civis, militares e religiosas.

Um momento solene em que nomes e funções se fundiram num único gesto de respeito: do comandante do Instituto Geográfico Militar, Major-General Luigi Postiglione, representando o Chefe do Estado-Maior, ao comandante inter-regional da Marinha, Major-Almirante Flavio Biaggini, representando o Chefe do Estado-Maior da Marinha; do Prefeito de Pistoia, Angelo Gallo Carrabba, ao Comissário de Polícia, Marco Del Piaz. Também estiveram presentes o comandante provincial dos Carabinieri, Coronel Fabio De Rosa, o Presidente da Província, Luca Marmo, o Bispo Fausto Tardelli e o Vereador Leonardo Cialdi, representando o Prefeito de Pistoia.

Entre todos os que vieram de longe para lutar nesta terra, os brasileiros deixaram uma marca diferente, feita de gestos, olhares, solidariedade. Sua contribuição foi decisiva, seu sacrifício total: lutaram até o último suspiro, ajudando a restaurar a liberdade a um país ferido.

A história deste lugar de paz, que preserva os ecos distantes da guerra, é marcante e comovente. Aqui, em 1944, foram sepultados os primeiros soldados brasileiros mortos em combate. Eles estavam entre os 25.334 soldados que deixaram o Brasil para lutar na Itália; dentre eles, 465 jamais retornaram, exalando seu último suspiro nesta terra estrangeira. Em 1960, os restos mortais dos pracinhas sepultados em Pistoia — com exceção dos três desaparecidos — foram repatriados e hoje repousam no Monumento Nacional aos Caídos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro. Contudo, este lugar jamais deixou de ser uma ponte entre dois mundos: o Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistoia, construído em 1966, ergue-se precisamente onde antes ficava o cemitério.

A memória deixou aqui um símbolo eterno. Em 1967, quando o corpo de um dos desaparecidos foi encontrado, ele foi sepultado em Pistoia. Não foi possível dar-lhe um nome, e assim, por 59 anos, ele foi o Soldado Desconhecido Brasileiro. Repousa no centro do monumento, ao lado da chama eterna, onde o tempo parece parar diante das palavras gravadas na pedra: “Ao soldado brasileiro que morreu em combate em solo italiano, uma Pátria agradecida”. Uma epígrafe que é mais do que uma lembrança: é um sussurro constante de gratidão.

Na primeira fila, personificando o elo vivo que une duas nações, estava Lilian Cristina Burlamaqui Durate, Conselheira e Representante da Embaixada do Brasil na Itália, ladeada por Rodrigo Coutinho Ferreira, Coronel de Artilharia e Adido de Defesa e do Exército Brasileiro na Itália, Eslovênia e Malta. Ao lado deles, testemunhando a presença unida do Brasil, estavam o Capitão de Mar e Guerra Ruy Ulisses Gonçalves da Veiga Júnior, Adido Naval na Itália, o Coronel Marcos de Oliveira Macedo, Piloto e Adido da Força Aérea na Itália, e o Coronel Ilmar Ubiratan Salgado Luzia, do Exército Brasileiro.

Então, como um suspiro compartilhado entre passado e presente, os hinos nacionais romperam o silêncio, seguidos pelos acordes da Canção do Expedicionário, que acompanharam a deposição de coroas de louros no túmulo do Soldado Desconhecido do Brasil. Um gesto simples e solene, realizado em honra daqueles que lutaram bravamente, deixando uma marca indelével de seu sacrifício nesta terra, banhando o solo da Itália com seu generoso sangue. Uma guarda armada de paraquedistas prestou homenagem aos caídos ao som pungente de “Silêncio”, enquanto o Prefeito Gallo Carrabba, o Conselheiro Cialdi, o Presidente Marmo, a Conselheira Lilian, o Capitão Ulisses, o Coronel Macedo, o Coronel Coutinho e as famílias dos ex-combatentes ocupavam seus lugares na assembleia. Naquele momento, cada presença se tornou uma lembrança, cada nome uma história que permanece viva.

Após a bênção do Soldado Desconhecido brasileiro, importantes honrarias foram concedidas pelo Coronel Coutinho e, em nome do Instituto Militar Brasileiro, pelo Sr. Mario Pereira. A Medalha do Exército Brasileiro, instituída em 2017 e concedida a cidadãos e instituições civis brasileiras e estrangeiras, militares estrangeiros, membros da Marinha do Brasil, da Força Aérea do Brasil e organizações militares que tenham realizado ações notáveis ​​ou prestado serviços relevantes aos interesses e à reputação do Exército Brasileiro, foi entregue pelo Comandante do Exército Brasileiro ao Ajudante Paraquedista Marco Aloisio Gullo.

A Medalha de Homenagem à FEB, instituída em 2020 e destinada a personalidades civis brasileiras e estrangeiras, membros das Forças Armadas e Forças Auxiliares, bem como organizações militares e instituições civis que contribuíram para a preservação e difusão da memória da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, foi concedida pelo Comandante do Exército Brasileiro ao Capitão Ruy Ulisses Gonçalves de Veiga Júnior e aos senhores Adele Columbri, Anselmo Uguccioni, Caterina Campani, Damiano Bartoletti, Edvaldo Paoli, Ermanno Squarcina, Giuseppe Nanni, Giuseppe Pucci, Graziano Delle Luche, Giudo Astori, Marcio Dos Santos Alves, Matteo Deluca, Michele Giovannelli, Roberta Ardore, Roberto Grenna e Vittorio Vecchi.

A Medalha Zenóbio da Costa, concedida a civis e militares que tenham realizado ações particularmente notáveis ​​na preservação da memória dos feitos da FEB, foi entregue ao Sr. Enrico Pesce pelo comandante do 1º Batalhão da Polícia do Exército. A Medalha da Batalha de Montese, uma honraria concedida pelo Instituto Histórico Militar Brasileiro, foi entregue ao Sr. Anselmo Uguccioni.

Um momento particularmente emocionante ocorreu quando o jovem Lorenzo Sabattini, ao chegar a Pistoia com o grupo do Museu da História da Linha Gótica em Castel d’Aino, nos Apeninos Bolonheses, espontaneamente e sem acompanhamento musical, cantou a Canção do Expedicionário, arrancando longos aplausos dos presentes.

As autoridades e homenageados saudaram as bandeiras nacionais. Por fim, a representante da Embaixada, Lilian Cristina Burlamaqui Durate, discursou, visivelmente emocionada, recordando a amizade entre Brasil e Itália, unidos por uma história compartilhada de valores autênticos. O vereador de Pistoia, Lorenzo Cialdi, também discursou, enfatizando a importância de manter viva a memória para que as novas gerações compreendam a contribuição das pracinhas.

E naquele silêncio respeitoso, entre bandeiras tremulando e memórias que perduram, Pistoia renovou uma promessa: jamais esquecer.

* Um trabalho de pesquisa histórica, fundamentado em evidências objetivas, nos leva a considerar o Exército Brasileiro historicamente ligado ao Exército Italiano desde a Segunda Guerra Mundial. Duas realidades distantes que, ao mesmo tempo, compartilham valores autênticos, inspirados pela cooperação internacional e pela paz. Não é comum encontrar na Itália vestígios de combatentes das Forças Armadas Brasileiras que morreram em batalha por um ideal nobre: ​​jovens estrangeiros que deixaram suas famílias no Brasil e vieram para a Itália sacrificar suas vidas em uma guerra devastadora.

Nestes tempos, felizmente, mudamos, assim como as exigências operacionais. Ao mesmo tempo, entre o Exército Italiano e o Exército Brasileiro, permanece viva uma chama: a cooperação, alimentada diariamente por cadetes do comando preparados e sensíveis tanto à história quanto às necessidades da vida contemporânea. Neste contexto, o adjunto militar da Marinha do Brasil na Itália tem um papel decisivo: valorizar e promover todas as iniciativas capazes de conferir prestígio ao Exército Brasileiro e, ao mesmo tempo, construir pontes com a Força do Exército Italiano, numa perspectiva de colaboração em escala global, o que não é trivial.

A autêntica amizade entre duas excelências militares e, consequentemente, entre dois países – Itália e Brasil – pode ser positivamente incentivada e disseminada por esta organização de informação a qualquer momento. Com o compromisso de continuar nesta trajetória editorial, dando visibilidade a uma sinergia de paz e cooperação tão relevante quanto necessária numa era em que, em escala global, não há conflitos entre os povos.

Avaliação: 5 de 5.

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