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A marca do ressentimento

Recheada de comentários e episódios depreciativos envolvendo a a figura do comandante da FEB, a obra A Verdade sobre a FEB, do coronel Lima Brayner, causou tamanha repercussão negativa que levou o autor a tentar se redimir nos livros seguintes. Questões ligadas à História Militar e revisionismo são inevitáveis ao se avaliar as interpretações apresentadas em tal obra. Em Luzes Sobre Memórias (1973) Brayner afirmou: “Mascarenhas foi, sem dúvida, um grande chefe dotado das mais altas virtudes”. Em Recordando os Bravos (1977), ele fez questão de novamente inserir a menção elogiosa feita por Mascarenhas à sua pessoa.

Todavia, os efeitos do primeiro livro de Brayner repercutem até hoje entre historiadores e pesquisadores. O pouco destaque dado ao seu testemunho é interpretado como uma espécie de censura institucional, que teria resultado numa suposta “higienização” da memória da FEB. Até que ponto é válida tal assertiva?

Lima Brayner livros
Brayner procurou reparar os danos lançando Luzes sobre Memórias e Recordando os Bravos, mas os danos causados foram irreversíveis.
Lima Brayner
Lima Brayner e o seu livro polêmico.

Julgar a validade das críticas de Brayner é uma tarefa das mais intrincadas e trabalhosas. Isso porque exige do historiador um amplo conhecimento das operações conduzidas pela FEB, bem como da extensa literatura escrita por seus protagonistas. A Verdade Sobre a FEB traz o valioso testemunho do seu Chefe do Estado-Maior, oferecendo ao leitor um quadro único dos percalços enfrentados pelo comando da Divisão brasileira. Entretanto, o valor da obra é nublado por dois traços peculiares do autor: a amargura e o ressentimento.

Conflitos pessoais

Brayner jamais perdoou o general Mascarenhas por ter dado ouvidos às opiniões do TC Castello Branco em detrimento às suas. A ferida maior no ego do marechal aconteceu no retorno ao Brasil, por ocasião da confecção do relatório final da campanha — segundo Brayner uma atribuição funcional sua —  por alguns oficiais que “sequer possuíam o curso de Estado-Maior”.

O relato de Brayner sobre os conflitos pessoais febianos repercutem com maior vigor justamente naqueles que desconhecem o funcionamento de um Estado-Maior e a sua usual “fogueira de vaidades”. Em essência, o relacionamento interpessoal entre os militares de um Estado-Maior não difere muito do encontrado numa grande empresa. Além disso, desejam que suas opiniões sejam escolhidas pelo chefe em situações de conflito junto aos demais integrantes da equipe.

Se os atritos no trabalho de um EM acontecem com frequência até mesmo em exercícios rotineiros em tempo de paz, que dirá no calor do combate. Nesse contexto, as decisões tomadas influenciam o destino de milhares de homens. Além disso, tais atritos costumam ser potencializados conforme aumenta o posto dos militares envolvidos. Assim, a narrativa de Brayner acerca das questões pessoais mencionadas em seu livro, embora sejam muito interessantes, não trazem grandes surpresas para os historiadores militares. A exceção fica para os neófitos.

A história mostra que Mascarenhas agiu corretamente quando deu ouvidos ao assessoramento de Castello Branco, no sentido de modificar seu estilo de comando e de reforçar o treinamento da tropa — sabidamente pouco e mal instruída no Brasil —, atendendo as sugestões do comando norte-americano. Muito do sucesso da FEB, a partir de fevereiro de 1945, deveu-se a essa nova postura.

A FEB pelo seu comandante Mascarenhas de Morais
Baseado no relatório final da campanha, o livro A FEB Pelo Seu Comandante venceu o teste do tempo com seu estilo sóbrio e equilibrado.

Os donos da verdade

Foi outra decisão sábia a designação de uma equipe de dois majores e três capitães, de fora do EM, para elaborar um relatório final da campanha que venceu o teste do tempo. O documento continua sólido, equilibrado, e com poucas ressalvas no seu conteúdo. Embora seja usual a produção de tal documento pelo EM, antes de tudo ele é uma responsabilidade do Cmt.

O livro A FEB pelo seu Comandante, de Mascarenhas, costuma ser criticado por assemelhar-se mais um relatório do que um livro, certamente por ter utilizado o relatório final da campanha como base narrativa. A sobriedade do texto passa longe das intrigas pessoais. Isso porque trata-se de uma obra de alto nível sobre uma campanha militar. Mascarenhas foi um general vitorioso no campo de natalha, e não um romancista.

Semelhante avaliação positiva não cabe ao livro A Verdade sobre a FEB, pois no testemunho de Brayner percebe-se uma gritante falta de iniciativa e autoridade em apaziguar os ânimos exaltados dos oficiais do seu Estado-Maior. Mesmo tendo sido escrita mais de vinte anos após o término da guerra, a obra mostrou uma lamentável falta de compreensão de Brayner acerca das operações militares desenvolvidas pelos brasileiros na Itália. Talvez essa incompreensão tenha sido potencializada por um antiamericanismo crônico que permeia a narrativa.

No presente, apesar de todas as ressalvas, a obra de Brayner costuma cair nas graças dos interessados em rescrever a jornada febiana, pois, segundo eles, ela teria sido “higienizada”. Tal concepção provém do espírito revisionista que acometeu a historiografia a partir dos anos 1980: o esforço continuado reescrever a história militar brasileira sob a ótica marxista.

Fogueira das vaidades

Ao contrario do que afirmam os revisionistas, jamais houve qualquer iniciativa do Exército em moldar a história da FEB, simplesmente porque a FT nunca se interessou em produzir uma versão oficial da campanha. Exceção feita ao conteúdo resumido da FEB na História do Exército Brasileiro, a quase totalidade da bibliografa relativa ao tema foi escrita por seus protagonistas e historiadores civis e militares.

Obviamente, qualquer narrativa histórica pode — e deve — ser revista, melhorada e ampliada. Um exemplo é o livro Soldados da Pátria – História do Exército Brasileiro 1889-1937 (2004), de Frank D. McCann: uma monumental análise do papel do Exército Brasileiro da Proclamação da República ao Estado Novo. Contudo, a doutrinação ideológica no falido sistema educacional brasileiro cobra o seu preço.  

Mascarenhas foi elegante e cortês a ponto de suprimir de suas memórias as falhas e omissões de terceiros — Brayner inclusive —, recomendando o coronel para a promoção ao generalato diretamente ao Ministro da Guerra. Porém, sua generosidade foi respondida com o ressentimento e a deslealdade. A Verdade sobre a FEB apareceu nas prateleiras das livrarias apenas quando o velho comandante já havia falecido e não podia mais se defender.

Lima Brayner jamais reconheceu a magnanimidade de Mascarenhas. Por sua vez, os febianos também não perdoaram a traição ao seu comandante, e Brayner foi discriminado. Embora ocupasse o mais alto posto da hierarquia militar, ele sequer comparecia às reuniões periódicas dos veteranos. [3] Talvez ele seja a vítima mais emblemática da “fogueira das vaidades” na história moderna do Exército Brasileiro.

[1] Luzes sobre Memórias, p.16.

[2] Brayner ainda escreveu mais um pequeno livro: Luzes no Crepúsculo (1978), sua obra derradeira.

[3] Diálogos com Cordeiro de Farias, p.282.

2 responses to “Revisionismo e História Militar”

  1. […] indireto às Forças Armadas, algo que preferem evitar. Tal postura resultou na propagação de mitos e avaliações negativas, como a absurda ideia de que a expedição brasileira não passou de um […]

  2. Avatar de strunfim
    strunfim

    Excelente livro do Marechal Brayner. Relata todos os problemas enfrentados pelos Soldados desde a convocação, o desleixo como foram tratados pelo Governo e até comando. Os quinta-colunas, os canalhas da grande imprensa.
    Humilhação mesmo é o livro de Willian Waack “as duas faces da glória”, onde relata episódio de corrupção, roubo no fornecimento de refeições para os Pracinhas.

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  1. […] indireto às Forças Armadas, algo que preferem evitar. Tal postura resultou na propagação de mitos e avaliações negativas, como a absurda ideia de que a expedição brasileira não passou de um […]

  2. Avatar de strunfim
    strunfim

    Excelente livro do Marechal Brayner. Relata todos os problemas enfrentados pelos Soldados desde a convocação, o desleixo como foram tratados pelo Governo e até comando. Os quinta-colunas, os canalhas da grande imprensa.
    Humilhação mesmo é o livro de Willian Waack “as duas faces da glória”, onde relata episódio de corrupção, roubo no fornecimento de refeições para os Pracinhas.

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