Quando desembarcaram em Nápoles, em julho de 1944, os integrantes do 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) encontraram um universo estranho e perturbador, muito diferente do esperado. Testemunharam os efeitos da Segunda Guerra Mundial sobre a população civil, na sua forma original — bruta e rude —, sem os filtros pudicos da imprensa da época.
O artigo a seguir é um extrato adaptado do livro Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira.

“Querem mulher?”
Após alguns dias acampados em Bagnoli, na cratera do vulcão Astroni, os pracinhas receberam autorização para visitar Nápoles. O tenente Paulo de Andrade Carqueja, comandante de um pelotão de infantaria do 6º RI, embarcou num jipe e arrebanhou quatro soldados, inclusive o fuzileiro José Marino, como intérprete.
— Vamos conhecer Nápoles! — falou a eles.
Deixaram a viatura numa praça e passaram a caminhar em duplas, cercados por “enxames” de meninos andrajosos, com as mãos estendidas a lhes pedir de tudo. Carqueja e Marino andaram meio quarteirão, até a abordagem de um rapazote de 12 ou 13 anos, que os interpelou:
— Brasiliani, volete signorina? (Brasileiros, [vocês] querem mulher?).
Marino respondeu:
— Quero!
O rapaz os levou até uma casa, meia quadra adiante, e os apresentou à sua família:
— Mia madre e le mie tre sorelle (Minha mãe e minhas três irmãs) — uma senhora e meninas entre 10 e 14 anos.
Marino [cuja mãe nascera na Calábria] ficou indignado:
— Mamma, questa è l’Italia?!” (Mãe, está é a Itália?!).
Mostrou-lhe a parte interior do antebraço e disse:
— Aqui corre sangue italiano. Então [a Itália] é isso?
Ela o chamou de filho:
— Filho meu, nós vendemos o corpo para não morrermos de fome.
Marino olhou para o tenente, que abaixou a cabeça. Eles não tinham dinheiro, pois os funcionários da Agência do Banco do Brasil recolheram todas as cédulas e moedas em poder da soldadesca, a fim de trocá-las, mais tarde, por “liras de ocupação” (abriu-se a primeira agência em Nápoles apenas em 1º de agosto, data da partida do destacamento).1
A dupla remexeu os bolsos, repassando à família as cartelas de cigarros e as barras de chocolate que traziam. O pracinha filho de italianos disse à mulher:
— Mãe, te dou nada porque vocês têm menos que nada — Ela começou a chorar.
Ambiente deletério


Os combatentes ficaram até a primeira semana de agosto no subúrbio de Nápoles, talvez o maior e mais frenético centro de perversão sexual da Europa. Causavam-lhes repulsa e nojo as mães que ofereciam seus filhos à prostituição — até meninos e meninas de 8 a 10 anos. Segundo o sargento Nilson Vasco Gondin, as crianças eram colocadas em fila para exposição aos clientes: “todos marroquinos, beduínos, árabes, mal-encarados, que, por cima das camisolas das crianças — camisolas já para facilitar o ato — apalpavam as nádegas das crianças antes de aceitarem o acordo, com se experimentassem a mercadoria: se estava como desejavam. Levavam as crianças e praticavam a pedofilia e sodomia”.2

Nápoles sofria os efeitos de uma epidemia de doenças venéreas a contar dos primeiros meses de 1944. Antes dos Aliados, os alemães mantinham os bordéis italianos locais sob rígida supervisão médica, conservando o território que dominavam “praticamente isento de estreptococos e de gonococos, que, para todos os efeitos, tinham sido reintroduzidos na Itália com a vinda das tropas americanas”, registrou Norman Miller, agente da Inteligência britânica na cidade.3




O plano Aliado
Julgou-se que a epidemia de DST (doenças sexualmente transmissíveis) se tratava de um plano elaborado por infiltrados do Eixo, tamanho o estrago causado nas fileiras Aliadas. Em março de 1944, nos hospitais de Nápoles, achavam-se tantos leitos ocupados por portadores de sífilis quanto a soma dos destinados a feridos e acometidos por outras enfermidades.4
O serviço de Inteligência Aliado resolveu dar o troco. Seus agentes arrebanharam um punhado de atraentes prostitutas napolitanas, com o intuito de fazê-las ultrapassarem as linhas inimigas e alcançarem o Norte, até então imune. Selecionaram-se vinte meretrizes que, segundo achavam os médicos chamados a cooperar com o esquema da ‘Força A’, não revelavam qualquer sintoma exterior de infecção, mas sofriam de uma cepa da sífilis “excepcionalmente virulenta e incurável”.5
O plano consistia em fazê-las atravessar a linha de frente para disseminar a doença em território inimigo, pagando-as com moedas de ouro que elas esconderiam no reto, além de algumas notas comuns de lira.
Da parte dos planejadores, deixou-se de lado qualquer pudor quanto aos resultados colaterais da ação, que causaria grandes sofrimentos à população civil, condenando inocentes às agruras da doença fatal — inclusive bebês à cegueira congênita. Abandonou-se a operação menos por escrúpulos humanitários do que por questões de ordem emocional e política, já que as raparigas não suportaram a ideia de separar-se dos cafetões, muitos deles proeminentes em suas ocupações e em condições de comprar favores do governo militar Aliado.6

Fontes
[i] Claudio Luiz de Oliveira, A agência do Banco do Brasil junto à Força Expedicionária Brasileira (AGEFEB) no Teatro de Operações da Itália (1944-1945), Revista do Exército Brasileiro, 25 jan. 2022.
[ii] Nilson Vasco Gondin, Liberdade escrita com sangue: um manezinho na segunda guerra mundial, Florianópolis, Insular, 2001, p. 79.
[iii] Norman Lewis, Nápoles, 1944, um inglês no labirinto italiano, São Paulo, Nova Fronteira, 2003, p. 104.
[iv] Ibid., p. 106.
[v] Ibid., p. 105.
[vi] Ibid., p. 106.
3 responses to “Nápoles – 1944: a cidade do pecado”
-
[…] Ligação dos EUA trouxe o testemunho do coronel Júlio Prestes, Oficial de Ligação brasileiro em Nápoles: “Em alguns casos receberam os uniformes apenas algumas horas antes do […]
-
[…] fala da paixão entre um soldado brasileiro e uma italiana loura durante a campanha da FEB na Itália. O final da música é triste, pois o casal foi separado ao final da guerra, visto que as […]
-
[…] ferroviárias levaram os expedicionários até Agnano, localidade no subúrbio de Nápoles, conhecida entre os antigos gregos e romanos por suas termas […]

Deixe uma resposta