
A memória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) vem sendo injustiçada pelos lamentáveis acontecimentos da política recente, pois a geração de homens brasileiros que combateu na Segunda Guerra Mundial possuía valores diferenciados. A honra pessoal era um deles.
Em idos dos anos 1980, quando aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas, costumava escutar colegas de turma resmungarem quanto à postura dos oficiais-generais da época. Não sabiam o que estava por vir no século seguinte.
Rapazes imberbes, de 16 ou 17 anos, repetiam críticas ouvidas de pais e familiares, também militares. Uma delas dizia: “Enquanto essa turma do Realengo não for embora, as coisas não melhoram”. Referiam-se aos oficiais formados pela Escola Militar do Realengo, na Vila Militar do Rio de Janeiro (atual quartel-general do Grupamento de Unidades-Escola – 9ª Brigada de Infantaria Motorizada). Formou-se opinião negativa e injusta sobre a Escola em certos círculos civis e militares.
Esqueça os resumos ideologizados e falaciosos que o Wikipedia e outros portais “educacionais” exibem sobre a Escola Militar do Realengo, antecessora da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Conheça a sua intimidade pelo ótimo livro Verás que um filho teu não foge à luta, que conta a trajetória do pracinha José Alípio de Carvalho, cadete da Escola no início dos anos 1940.

A Escola Militar de Resende
“A Escola Militar constava de três áreas interligadas e cobertas: no piso superior ficava o Gabinete do Comandante da Escola, a Secretaria, a Sala dos Oficiais e uma sala de aula chamada ‘Benjamin Constant’, escreveu José Alípio, “Na outra extremidade deste mesmo piso ficava o alojamento de uma Companhia e os banheiros, onde resolvíamos as nossas pendências”.
Os insufladores, logo que começava uma discussão, diziam: ‘Banheiro, banheiro’, e lá iam os dois valentes se digladiarem. Às vezes, as brigas eram violentas e as marcas se viam nos olhos que arroxeavam. Era proibido brigar, mas os oficiais faziam vista grossa, porque eles também tinham brigado e ninguém podia fugir da raia. Muitas vezes, um cadete franzino era obrigado a brigar com um muito mais forte. Uma das brigas violentas a que assisti foi a do Zé Luiz Mena com Pires: a gente chamava a este de Negro Pires. Era uma figura muito simpática de atleta e eu fui muito seu amigo e a briga foi por um fato à toa.
“Um filho teu não foge à luta”
Era norma, na hora da refeição, um prato entrar por uma cabeceira da mesa e o que se lhe seguia entrar pelo lado. E, por um prato, os dois se desentenderam. Zé Luiz era gaúcho, descendente de ilustre família de militares e muito brioso e cujo apelido no Colégio Militar de Porto Alegre era Jaguar; às vezes, chamavam-no de onça, mas era ótima pessoa. Um colega seu, também gaúcho, foi que o atiçou. Disse-lhe: ‘Ele te desmoralizou’. O Zé Luiz, brioso como era, foi desafiar o Pires, que não pensava em brigar. Foi uma das mais sérias brigas que vi.
O Pires tinha uma resistência cavalar; depois de algum tempo, parou e disse:
— Jaguar, vai descansar, depois a gente continua.
Descansaram, e depois o Jaguar disse:
— Tchê, descansei, vamos continuar.
Novamente pararam e depois a briga continuou, até que o Pires derrubou o Jaguar e montou. Ambos estavam cansados; os colegas intervieram e a briga acabou. Tomaram banho e o Jaguar estava esfalfado, com alguns hematomas no rosto, deitado em sua cama.

“Não, Tchê, agora tu és meu inimigo”
O Pires dirigiu-se a ele e disse:
— Jaguar, vamos nos abraçar — ao que Jaguar retrucou:
— Não, Tchê, agora tu és meu inimigo.
Eu soube por terceiros e foi-me afirmado por ambos que o Zé Luiz foi até à reserva de armamento, pegou um sabre e foi encontrar-se com o Pires para tirar a diferença. O Pires não topou, o Zé Luiz disse que ele era covarde, ao que Pires retrucou: ‘Olha, Jaguar, não tem sentido; se a gente brigar, um de nós vai morrer e eu não quero te matar nem morrer’. O Zé Luiz, brioso como era, sentindo-se humilhado, trancou a matrícula e voltou para o Rio Grande, onde o encontrei como funcionário da Caixa Econômica, quando me confirmou aquele fato.
Vi outras brigas violentas, brigas de verdadeiros gladiadores, rapazes muito fortes que sabiam lutar. Vi outras que eram verdadeiras covardias, quase massacres: rapazes fortes contra outros fracos. A turma deixava até evidenciar-se a superioridade do mais forte; o importante era não acovardar. Eu mesmo tive de defrontar-me com um companheiro mais forte. Não fugi da raia; ambos distribuímos porradas, até que, evidenciada a sua superioridade, separaram-nos.
Tive de conseguir uns óculos escuros para esconder o roxo que surgiu em um olho. Interessante que, durante o Curso, não nos falamos. Quando fui aspirante, ele veio cumprimentar-me. A briga foi por causa de um outro que o provocara e, na hora, não teve coragem de assumir. Ele pensou que tivesse sido eu a provocá-lo e dirigiu-se ao seu alojamento, onde os insufladores nos obrigaram a lutar”.

A masculinidade sob ataque
Nos anos 1940, a resolução das “pendências” entre os jovens cadetes não diferia da vista entre os pares civis. Ao invés de consultas com psicólogos ou convocação dos pais à seção psicopedagógica nos colégios modernos, os brigões resolviam suas diferenças pessoalmente — “no braço”. Valia o “Te pego lá fora!”. Mesmo assim, poucos dias depois, ambos jogariam futebol animadamente, no mesmo time, como se nada houvesse acontecido. Um evento banal na cultura da época. Não raro, o mancebo que voltasse para casa reclamando ter apanhado na rua, costumava ganhar sova extra paterna.
Todavia, desde então, a sociedade nacional mudou bastante. A masculinidade passou a ser execrada por educadores comprometidos com pautas políticas e ideológicas, munidos de novilíngua própria. Surgiu o bullying, a “ideologia de gênero”. Rapazes inseguros, que poderiam autoafirmar sua virilidade — como na inesquecível briga ente George McFly e Biff Tannen em De Volta para o Futuro —, passaram a ser orientados a se identificarem como moças. Geralmente, os danos psicológicos causados são irreversíveis.
O valente paraibano José Alípio de Carvalho foi voluntário para lutar na Itália. Ele protagoniza um novo livro sobre a FEB, continuação de “Guerreiros da Província“. Comandou um pelotão de infantaria num dos terríveis combates pelo Monte Castello, liquidando os inimigos alemães numa das casamatas no sopé do monte. Ferido durante a refrega, recebeu a maior condecoração de guerra por bravura no Exército Brasileiro. Alípio era um homem da sua geração.
Por tudo isso, jamais permita que se misture a memória dos expedicionários com à dos protagonistas de eventos da situação brasileira recente. Nossa sociedade permitiu que a emasculação virasse comum — quase regra — e hoje paga um alto preço pela inação. Pela ignorância e/ou submissão covarde.
A geração da Escola Militar de Resende se foi, junto com a geração dos filhos da Pátria que não fogem à luta. E não há indícios de que tão cedo surja outra à altura.
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Fonte
Verás que um filho teu não foge à luta, organizado por Clio Baraúna de Varvalho; Márcia Baraúna Pinhero. Manaus: Reggo, 2020, pp. 78-79.

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