6–8 minutos
Fuzil padrão da FEB

Você sabe dizer qual foi o modelo de fuzil padrão da FEB durante a Segunda Guerra Mundial?

Quando a Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcou na Itália, em 1944, os seus soldados tiveram de adaptar-se ao moderno arsenal norte-americano. O Exército Brasileiro possuía tradição no uso do armamento europeu, especialmente com relação ao fuzil Mauser (alemão) e a metralhadora Madsen (dinamarquesa), por isso a integração da FEB ao sistema logístico dos EUA exigiu a adoção de armamentos padronizados dos Estados Unidos.

O resultado foi um significativo salto tecnológico para o combatente brasileiro. Os pracinhas passaram a utilizar certas armas que representavam o estado da arte da infantaria Aliada durante a Segunda Guerra Mundial. Vamos conhecer alguns modelos do armamento individual.

1. Fuzil M1 Garand: “o maior implemento de combate já concebido”

O fuzil padrão da FEB na Segunda Guerra Mundial
O fuzil padrão da FEB na Segunda Guerra Mundial

O armamento individual mais emblemático da FEB foi o fuzil semiautomático M1 Garand, calibre .30-06 (7,62 mm). Considerado um rifle revolucionário na época, o Garand permitia ao soldado disparar oito tiros sucessivos sem necessidade de manobrar o ferrolho após cada disparo, como ocorria nos antigos fuzis de repetição.

Essa característica conferia aos infantes uma cadência de tiro muito superior à dos pares alemães, armados com fuzis Mauser Karabiner 98k. O general norte-americano George S. Patton chegou a definir o M1 Garand como “o maior implemento de combate já concebido”.

Robusto, preciso e confiável, o Garand tornou-se a arma padrão dos fuzileiros americanos durante o conflito. Segundo um artigo ufanista e fantasioso publicado na Revista Em Guarda: “Provas recentes com o fuzil Garand demonstram que, em terreno descoberto, num ataque de surpresa, 36 homens podem aniquilar um regimento inteiro em 60 segundos”.

O fuzil padrão da FEB na Segunda Guerra Mundial
O Fuzil M1 Garand e a Carabina M1 em artigo da revista Em Guarda: “um regimento inimigo aniquilado em 60 segundos”.

Todavia, o Comando da FEB revoltou-se quando descobriu que a Logística americana não forneceria os fuzis M1 aos pracinhas. O general Mascarenhas de Moraes escreveu aos superiores:

Parece ainda haver indecisão quanto aos modelos e tipos de armas a serem fornecidas, particularmente com respeito à proporção de rifles Garand e Springfield. A organização da 1ª Divisão é exatamente a mesma das Divisões americanas. Não nos parece aconselhável modificar o armamento das esquadras de fuzileiros, nem substituir o Garand pelo Springfield, conforme estabelecido nas T/E [Tabelas de Equipamento]. Isso modificaria as características do poder de fogo da nossa organização, tornando-a inferior a outras forças combatentes, com sérios riscos.1

Várias desculpas foram apresentadas aos brasileiros, inclusive de que havia “falta da arma” nos estoques dos EUA. Após muitos atritos, um relutante Mascarenhas de Moraes aceitou receber 200 exemplares do Garand, mediante a promessa de que o restante seria reposto tão logo houvesse disponibilidade. Entretanto, a promessa jamais se cumpriu. Essa questão encontra-se esmiuçada no livro Guerreiros da Província.

2. Fuzil Springfield M1903

O fuzil padrão da FEB na Segunda Guerra Mundial
Comparativo entre os modelos de fuzis Springfield. Fonte: FAS Military Analysis Network

O fuzil Springfield M1903 A3 foi o armamento padrão do pracinha. Trata-se de um fuzil de repetição utilizado pelo Exército dos EUA na Grande Guerra (1914-1918), cujo clip de munição de cinco cartuchos exigia a ejeção manual a cada disparo.

Os Springfield M1903 e M1903A1 mostraram-se ótimos dentro da sua categoria. Tinham o projeto inspirado nos Mauser 1893, capturados no final do século XIX, durante a guerra hispano-americana, mas sofriam com as vicissitudes comuns a toda arma produzida em massa e de forma acelerada. A partir de maio de 1942, iniciou-se a produção do M1903A3, com componentes barateados e de qualidade inferior ao projeto original: o padrão fornecido aos expedicionários, particularmente aos dos escalões chegados na Itália a partir de outubro de 1944. Em novembro de 1944, constam 10.274 exemplares desse modelo nos registros do 2º e 3º Escalão da FEB.

Queixas dos pracinhas

As queixas frequentes dos expedicionários quanto à fragilidade dos Springfield, em relação aos Mauser nacionais, devem-se ao rebaixamento qualitativo nas linhas de produção. Um comandante de pelotão comparou os dois após a Campanha da Itália, ressaltando a fragilidade e a fabricação precária das unidades distribuídas aos brasileiros: “Os velhos fuzis Mauser, modelo 1908, usados no EB naquela época, eram melhores, mais rústicos, seguros e eficientes que os fuzis de fabricação nova, mas ordinaríssimos, fornecidos à Força Expedicionária na Itália”.

Outro sargento que tomou parte em dois ataques ao Monte Castello declarou que “O armamento que utilizamos nós recebemos no acampamento, quando chegamos: era um fuzil Springfield, por sinal muito mais vagabundo que o Mauser, que era um arma mais consistente”.2

Fuzil padrão dos pracinhas da FEB NA Segunda Guerra Mundial
Instrução do fuzil Springfield 1903 para os pracinhas da FEB, em julho ou agosto de 1944. Fonte: NARA.
Fuzil padrão dos pracinhas na FEB
Sargento Onofre (6º RI) recebe instrução de uso do fuzil Springfield. Fonte: NARA.
Filme norte-americano explicativo da origem do fuzil Springfield 1903 A3. Fonte: NRA.

3. Carabina M1

Carabina M1 FEB
Pracinha armado com a Carabina M1, em data e local desconhecidos. Fonte: Coleção da major Elza Cansação Medeiros.

A Carabina M1 era uma espécide de miniatura do fuzil M1, por isso ficou conhecida como “Little Garand“. Destinava-se principalmente a oficiais, radioperadores, motoristas, mensageiros e outros militares cujas funções exigiam maior mobilidade. Menor e mais leve que o Garand, podia ser transportada com facilidade em terrenos montanhosos ou durante deslocamentos rápidos.

Embora possuísse menor alcance e poder de impacto, sua praticidade fez dela uma arma bastante apreciada pelos combatentes Aliados.

4. Submetralhadora Thompson

Conhecida mundialmente como Tommy Gun, a submetralhadora Thompson utilizava munição calibre .45 ACP e era capaz de disparar em modo semiautomático ou automático. Seu elevado poder de fogo em curtas distâncias tornava-a ideal para:

  • Patrulhas;
  • Combate urbano;
  • Ataques a posições fortificadas;
  • Operações em áreas densamente arborizadas.

Entre os pracinhas, a Thompson ganhou fama por sua confiabilidade e poder de fogo nas escaramuças entre patrulhas rivais. Nesta foto da última patrulha do sargento Max Wolff, precebe-se que a maior parte do efetivo porta as Tommy Gun. Dada a sua raridade e distribuição restrita, várias delas provavelmente foram emprestadas por colegas de outras frações de tropa.

Segunda Guerra Mundial
Foto da última patrulha do sargento Max Wolff

5. Submetralhadora M3 “Grease Gun”

Em fases posteriores da guerra, algumas tropas passaram a utilizar a M3 Submachine Gun, popularmente conhecida como Grease Gun (“Pistola Graxeira”), devido à sua aparência semelhante a uma bomba de lubrificação mecânica.

Produzida para substituir a Thompson, possuía construção mais simples e barata, sendo produzida toda em metal e com o mesmo calibre .45 ACP. Embora menos sofisticada e inferior à sua antecessora, revelou-se eficiente e de fácil manutenção.

Pracinha da FEB
Pracinha da FEB portando a Grease Gun.

6. Pistola Colt M1911

https://images.openai.com/static-rsc-4/tqxDjTVWW-KF_nTjC16UjaB77TaIuWTu3mjkCuB4VGR_vAUh2GOnjW4duQ6vmpUQAxVuLVEP30o0FqPqjYvETjHEWvAmGnpb2K27--4x9PXWdzLyCdYKMMItGx7L5NR0jAoF3A7sv9hcWG4KtxPhpMPW9AnTqTAzp660KIcwxfua-QwK3sEcVF9t4OSRpKCm?purpose=fullsize

A arma curta mais comum entre os oficiais da FEB era a pistola Colt M1911, calibre .45 ACP. Projetada por John Browning, ela já havia demonstrado sua eficiência durante a Primeira Guerra Mundial e continuava sendo uma das pistolas militares mais respeitadas do mundo. Sua robustez e poder de fogo eram amplamente elogiados pelos usuários.

7. Revólver Smith & Wesson Modelo 1917

Ficheiro:Smith-et-Wesson-1917-p1030108.jpg

Além da Colt, alguns militares utilizaram o Smith & Wesson Modelo 1917, também de calibre .45. Embora fosse um projeto mais antigo, o revólver apresentava excelente confiabilidade e era empregado principalmente por oficiais, policiais militares e pessoal em determinadas funções de apoio.

Confusões

O armamento individual principal utilizado pela FEB (fuzil Springfield) costuma ser confundido em tempos recentes, particularmente com as diferentes versões de carabinas, mosquetões e fuzis utililizado pelo Exército Brasileiro, antes e depois da Segunda Guerra Mundial — afinal, o Springfield nada mais era do que uma cópia dos fuzis Mauser.

Fuzil Mauser do EB
Um dos vários modelos de fuzis Mauser utilizados pelo Exército Brasileiro. Fonte: Armas On-Line.

Um dos alvos da confusão é o Mosquefal (oficialmente chamado de Mosquetão 7,62mm Modelo 968), produzido na Fábrica de Itajubá durante a década de 1960.

Mosquefal
Um Mosquefal da Fábrica de Itajubá. Fonte: Armas On-Line.

A arma surgiu do projeto de adaptação dos antigos fuzis Mauser para utilizarem o mesmo calibre 7,62 × 51 mm da OTAN, com vistas a facilitar a logística de munição. Entre outros detalhes, é facilmente distinguível do Springfield pela chapa de metal na base da coronha. Conheça o excelente artigo publicado sobre o tema pelo site Armas On-Line.

Fuzil Mauser utilizado pelo EB na década de 1940. Podem ser facilmente diferenciados dos Springfield pela fina haste de metal adjacente à ponta do cano. Fonte: Revista Em Guarda.

Avaliação: 1 de 5.

_______________________

Fonte:

  1. Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Juiz de Fora, Insight Books, 2024, pp. 266-267.
  2. Ibid., p. 270.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Memorial da FEB

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo