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Muito além do material bélico, a Força Expedicionária Brasileira levou para o campo de batalha algo que nenhuma arma poderia substituir: o espírito jovial dos seus homens. Entre trincheiras, bombardeios e marchas exaustivas, um grupo de pracinhas encontrou na música uma forma de manter viva a esperança, fortalecer o moral da tropa e lembrar a todos pelo que estavam lutando. Eis a história do Conjunto Musical Expedicionários em Ritmos.

Expedicionários em Ritmos

A guerra em ritmo de samba

Poucos conhecem a história do conjunto musical organizado pelo então cabo Seraphim José de Oliveira, integrante do Regimento Sampaio. Formado ainda durante o período de preparação da FEB, o grupo transformou-se em uma das mais curiosas e emocionantes iniciativas culturais da campanha brasileira na Itália.

Mesmo após o embarque para o front, quando os instrumentos musicais foram substituídos por fuzis, metralhadoras e facas de trincheira, aqueles soldados continuaram compondo sambas, marchas e canções inspiradas na vida e na rotina castrense do combatente brasileiro.

As músicas eram escritas nos raros momentos de descanso, muitas vezes ainda sob o impacto dos combates, e serviam para elevar o moral da tropa. Após a conquista de Monte Castello, por exemplo, o conjunto realizou apresentações que impressionaram inclusive soldados norte-americanos e correspondentes estrangeiros.

Terminada a guerra, os integrantes voltaram a se reunir e, em 1965, reconstituíram aquele histórico espetáculo, registrando em disco parte desse extraordinário patrimônio musical da FEB.

A seguir, reproduzimos integralmente o texto (com sua grafia original) constante na capa do LP Expedicionários em Ritmos, lançado pela Chantecler em 1965. Preservamos a redação original do texto publicado pelo jornalista Oscar de Andrade, que registra essa notável história.


1943

Iniciou-se a convocação para selecionar os que deveriam integrar a FEB, que iria atuar nos campos de batalha. O então cabo Seraphim José de Oliveira, que pertencia à 3ª Cia. do Regimento Sampaio, feliz por ter sido escolhido, compreendeu que, para melhor congregar os seus camaradas dentro de uma convicção firme de partir para a Guerra, havia necessidade de exortar os seus companheiros com atrativos capazes de superar o temor.

O referido cabo já naquela época gostava de cantar, compor músicas e tinha o dom de congregar os seus companheiros através das melodias do seu violão. Notando que o seu Regimento vivia num constante regime de permanência nos campos de instrução e no Quartel, e que alguns dos seus camaradas tinham pendores artísticos, resolveu organizar um conjunto vocal para animar os bravos companheiros do seu Regimento ao combate, com a firme convicção de que a vida nada valia, quando mais alto falasse o compromisso da Pátria.

Depois de alguns ensaios, o conjunto se apresentou num show realizado no Regimento, tendo-se constituído num verdadeiro sucesso. O cabo Oliveira estava feliz, pois havia conseguido através da arte prender corações num só sentido: não esmorecer diante do fogo nos campos de batalha quando tivessem de enfrentar aquele inimigo que era chamado até de super-homem.

Em pouco tempo, aqueles bravos militares do conjunto eram os soldados do momento, pois, além da instrução militar ensinavam aos corações quererem mais à sua Pátria através da música. Assim partiram em 1944 para os campos de batalha da Itália.

Expedicionários em Ritmos
Viagem de retorno ao Brasil do conjunto musical Expedicionários em Ritmos. O sargento Ary de Carvalho Vasconcelos está assinalado pelo círculo.

1944

Finalmente, em terras estrangeiras, ordens severas foram dadas; os instrumentos foram substituídos por fuzis, metralhadoras e facas de trincheira, pois havia chegado a hora da “COBRA FUMAR”.

No entanto, apesar das condições climatéricas completamente adversas, apesar das balas e granadas que lhes eram atiradas por um inimigo astuto, corajoso e fanático, o cabo Oliveira, seguido por outros companheiros também poetas, sargento Roldão Alves Guttemberg, soldados Pieri Júnior e Natalino Cândido da Silva, nos seus abrigos, em pleno combate, aproveitando as motivações que lhes iam surgindo, compuseram várias músicas, todas versando sobre fatos e feitos da tropa brasileira na campanha da Itália, traduzidos em sambas, batucadas e até canções românticas que expressavam a saudade da Pátria e da família.

O cabo Oliveira e os bravos rapazes do conjunto, ou seja, sargento Ary de Carvalho Vasconcelos, cabo Arodi Lourenço da Silva, sargento Quialdo de Azevedo Lemos, cabo Walter Gomes, Cabo José Augusto Nogueira, cabo Newton Ventrick Fraga, cabo Nelson Barros, soldado Pieri Júnior e Raimundo Oliveira da Silva, nos raros momentos de trégua, reuniam-se e cantavam suas músicas, improvisando com as armas de guerra seus instrumentos musicais.

Os soldados, ao ouvi-las, ficavam entusiasmados com a oportunidade das mesmas. Desse modo, o cabo Oliveira comandou seus companheiros para o avanço, despertando em outros o espírito de bravura pessoal.

Em plena campanha foi merecidamente promovido a sargento.

1945

Certa feita, ou seja, quatro dias após haverem conquistado Monte Castello, quando o Regimento Sampaio se reuniu na sua encosta, o sargento Oliveira e seus companheiros de conjunto começaram a cantar aqueles sambas feitos em combate. Os soldados, sentados, não se cansavam de aplaudi-los.

Os norte-americanos ficaram surpresos e admirados com a nossa alegria, conta o sargento Oliveira, e passaram a comentar aquele acontecimento. Os correspondentes estrangeiros também se interessaram em seus noticiários.

Era a consagração daqueles bravos que tanto influíram na vitória da FEB.

Terminada a guerra, o sargento Oliveira e aqueles heróis do conjunto que haviam escapado ilesos daqueles cruentos combates, com grande alegria, relembra o sargento Oliveira, que “reencontramos os nossos instrumentos, alguns dos quais traziam marcas de estilhaços de granadas”.

O saudoso coronel Caiado de Castro, comandante do Regimento Sampaio, vibrando de entusiasmo com os gloriosos feitos da FEB, resolveu fazer o show da vitória, em Francolise, na Itália, causando a participação do conjunto verdadeiro sucesso, grande emoção, principalmente quando foram recordados os maiores feitos de nossos pracinhas na referida campanha.

A BBC gravou aquele memorável show, que foi uma autêntica apoteose, vivida por bravos que em breve regressariam à Pátria cobertos de glórias.

Vinte Anos Depois

Expedicionários em Ritmos
Foto do conjunto musical, defronte ao Monumento aos Pracinhas, presente na capa do LP Expedicionários em Ritmos. A imagem original foi colorizada e aprimorada por IA.

Aquele ex-sargento, hoje é merecidamente capitão do Exército Brasileiro. A grande e gloriosa campanha é até hoje relembrada por todos nós brasileiros. Porém, para os homens que dela participaram, ficaram com lembranças que jamais se apagarão, pois foram marcadas a fogo.

Assim sendo, foi com grande alegria que, após sua promoção, o capitão Oliveira recebeu, do Chefe do Serviço de Relações Públicas do Exmo. Sr. Ministro da Guerra, a incumbência de reunir seus companheiros de conjunto para fazer uma reconstituição histórica do show realizado na Itália, para ele a maior riqueza, pois só ele soube o destemor, o heroísmo daqueles rapazes que, com ele, improvisando instrumentos, cantavam sambas para fazer cumprir a missão “Morrer pela Pátria”.

Foi uma epopeia agrupar o antigo conjunto, espalhado pelos mais diferentes recantos deste Brasil enorme. Enfim, a reconstituição foi feita no Clube Municipal do Estado da Guanabara e os homens que cantavam ouvindo o zumbido das balas, desta vez ouviram calorosos aplausos.

Como tudo que é bom tem o seu valor reconhecido, o conjunto foi convidado pelo jovem João Roberto Kelly a comparecer em seu programa de TV, o que aconteceu em 2/9/65.

Logo, a Chantecler interessou-se, não só pelo valor artístico, mas também pela história vibrante do punhado de heróis anônimos que mantiveram um atrativo permanente, sustentando o moral de nossos homens durante a guerra.

O interesse da Chantecler perpetuou em disco as músicas compostas e cantadas em plena Guerra. Muitas delas são autênticos hinos guerreiros e outras, nostálgicas lembranças da Pátria distante. Todas elas, porém, trazem a marca de sua origem:

“A COBRA ESTÁ FUMANDO”

Resposta dos pracinhas aos pessimistas e maldizentes que afirmavam, quando a FEB preparava-se para cumprir seu destino de glórias nos campos de batalha, que:

“…era mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar.”

De fato, não só a cobra fumou, como também dançou as músicas dos nossos soldados.

OSCAR DE ANDRADE (jornalista)


Nome dos atuais componentes do conjunto

  • Seraphim José de Oliveira — Crooner e violonista
  • Raimundo Oliveira da Silva — Violonista
  • Arodi Lourenço da Silva — Violonista tenor
  • Pieri Junior — Tan-tan
  • Nelson Barros — Pandeiro
  • Newton Ventrick Braga — Cabaça
  • José Augusto Nogueira — Réco-réco
  • Ary de Carvalho Vasconcelos — Ganzás

Quer conhecer as canções do grupo? Temos uma seção específica dedicada às canções da FEB e do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Sessenta anos depois

Carta Capitão Ary

Eis o texto de uma atenciosa carta resposta enviada pelo capitão Ary de Carvalho Vasconcellos, quando da produção do documentário “O Lapa Azul”, quando buscamos inserir, sem sucesso, algumas músicas presentes no LP.

Niterói, 31/07/06

Prezado Senhor

Major Durval Lourenço Pereira Júnior

Acuso o recebimento de sua carta datada de 12/07/06, versando sobre autorização para utilização de músicas feitas durante a II Grande Guerra Mundial e gravadas pela Chantecler, em São Paulo, no ano de 1965, 20 anos depois de terminada a guerra, pelo Conjunto EXPEDICIONÁRIOS EM RITMOS, composto por soldados da 3ª Cia do 1º RI – Regimento Sampaio, herói da tomada de Monte Castello, em 21/02/45.

Para seu conhecimento, estou encaminhando junto à presente, cópia da capa do disco (long-play) que contém em seu verso, os nomes das músicas com seus respectivos autores, ou seja, 4 de autoria de Seraphim José de Oliveira (no retrato, o do meio com seu violão), 4 de autoria de Pieri Júnior (o da extrema esquerda com tan-tan), 2 de Gutemberg e 2 de Natalino Cândido, que não aparecem no retrato porque não fizeram parte do Conjunto em sua reapresentação em 1965.

Como pode ver pelo exposto, estou legalmente impossibilitado de assinar a autorização enviada pelo amigo, em razão de não existir no disco nenhuma música de minha autoria. Assim sendo sugiro localizar os autores acima citados, ou seus herdeiros, para assinarem a necessária autorização.

A história do Conjunto está contada também no verso da capa do LP, pelo jornalista Oscar de Andrade.

Sem mais, subscrevo-me cordialmente, enviando as minhas

Saudações Expedicionárias

Ary Vasconcellos
V.V.


Em tempo:

O Conjunto foi desfeito há aproximadamente 40 anos e nunca mais tive notícias de seus componentes porque resido em Niterói e eles, na época, moravam no Rio de Janeiro.

Do LP tirei meia dúzia de CDs para distribuir com amigos ex-combatentes mais chegados que não conheciam as músicas. Um deles foi o Rosenthal, que lhe cedeu uma cópia.


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