
Uma época peculiar
Vivemos em uma época peculiar. Nunca tivemos tantos recursos para conhecer o passado e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil distorcê-lo, manipulá-lo ou simplesmente apagá-lo. Documentos digitalizados, fotografias, filmes, jornais, cartas, diários, arquivos militares e testemunhos de veteranos estão hoje ao alcance de milhões de pessoas. A tecnologia permite que tais informações, antes restritas a arquivos e bibliotecas, sejam consultadas por pesquisadores em qualquer parte do mundo. Porém, ainda assim, a memória febiana continua vulnerável.
A História pode ser transformada em instrumento político. Pode ser submetida a interesses ideológicos e simplificada até perder sua complexidade. Pode ser reescrita de acordo com conveniências do presente. E, em alguns casos, até a memória materializada em monumentos pode ser literalmente destruída.
É nesse contexto que preservar a memória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) deixa de ser apenas uma atividade para historiadores e pesquisadores.
Torna-se uma responsabilidade coletiva.
A memória da FEB pertence a todos nós
A FEB ocupa um lugar singular na História do Brasil. Entre 1944 e 1945, milhares de brasileiros atravessaram o Atlântico para participar da campanha dos Aliados na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Jamais houve algo semelhante em mais de 500 anos da história nacional.

Eram homens provenientes de diferentes regiões, profissões e classes sociais. Jovens que, em sua maioria, jamais haviam imaginado que um dia atravessariam o oceano para combater em uma guerra.
Na Itália, enfrentaram um dos terrenos mais difíceis da campanha europeia: montanhas, frio, neve, lama, minas. Se depararam com artilharia e metralhadoras inimigas e letais, manejadas por um adversário experiente, entrincheirado em posições defensivas cuidadosamente preparadas.
Combateram em lugares que se tornariam parte da história militar brasileira: Monte Castello, Castelnuovo, Montese, Fornovo, Collecchio e tantos outros. Mas a história da FEB não é apenas uma sequência de batalhas.
Ela é também a história de milhares de famílias brasileiras. É a história dos pais que viram seus filhos partir. Das mães que esperaram notícias. Das esposas que ficaram. Dos irmãos, filhos, amigos, noivas e namoradas.
É a história das cartas enviadas da Itália, das fotografias guardadas durante décadas e das lembranças transmitidas de geração em geração. Por isso, quando falamos em preservar a FEB, não estamos falando apenas da preservação de um episódio militar, mas de memórias humanas.
Quando a destruição de um monumento se transforma em apagamento histórico
Um monumento dedicado aos pracinhas não é apenas concreto, pedra, bronze ou metal. Uma placa não é apenas uma placa. Uma fotografia não é apenas uma fotografia. Um memorial é uma mensagem dirigida às gerações futuras com a seguinte mensagem implícita:
“Isto aconteceu.”
“Estas pessoas existiram.”
“Este sacrifício foi feito.”
“Não se esqueça.”
É justamente por isso que os episódios recentes envolvendo a descaracterização e a destruição de monumentos dedicados à FEB em Juiz de Fora (vide o post) devem provocar reflexão e receber todo o repúdio da sociedade.

Tal questão ultrapassa a discussão sobre urbanismo, reformas ou intervenções em espaços públicos. Quando desaparece uma referência histórica, desaparece também uma ótima oportunidade de transmitir conhecimento. Um jovem que passa diante de um monumento pode não saber quem foram aqueles soldados, mas pode perguntar:
Quem eram eles?
Por que existe este monumento?
O que aconteceu?
Onde eles lutaram?
Por que brasileiros foram enviados para a Europa?
E essa pergunta pode ser o início de uma pesquisa, o começo de uma descoberta. Pode despertar o interesse pela História. Entretanto, quando o monumento desaparece, essa possibilidade também desaparece — talvez seja esse o real e escuso objetivo da militância engajada na destruição do patrimônio histórico.
Não podemos delegar toda a memória às instituições
É natural esperar que governos, museus, universidades, arquivos públicos e instituições militares cumpram sua parte na preservação da memória febiana, pois lhes cabe a obrigação de fazê-lo. Mas a memória de uma nação não pode depender exclusivamente dessas estruturas. A sociedade também possui responsabilidade.
Famílias de veteranos podem preservar documentos.
Pesquisadores podem digitalizar acervos.
Colecionadores podem catalogar objetos.
Professores podem levar a FEB para a sala de aula.
Museus podem criar exposições.
Sites especializados podem publicar documentos.
Redes sociais podem aproximar a História das novas gerações.
E cidadãos comuns podem simplesmente compartilhar uma história.
Às vezes, preservar a memória começa com um gesto aparentemente pequeno: guardar uma fotografia; identificar um soldado; digitalizar uma carta; registrar uma entrevista; corrigir uma informação equivocada; publicar um documento; visitar um memorial; ensinar uma criança quem foram os pracinhas; enaltecer o trabalho de pessoas comuns e agentes públicos em prol da memória febiana. Pequenas iniciativas podem produzir grandes resultados.
O perigo de deixar o passado desaparecer
Uma sociedade que perde a memória também desperdiça parte de sua capacidade de compreender o presente. Quando uma geração deixa de conhecer seus próprios acontecimentos históricos, abre-se espaço para que outros contem essa história em seu lugar. E quem controla a narrativa sobre o passado pode influenciar a maneira como uma sociedade compreende seu presente. George Orwell falou esse respeito no premonitório livro 1984, alertando quanto aos instrumentos de controle do pensamento típicos do totalitarismo:
Quem controla o presente controla o passado; quem controla o passado controla o futuro.
Por isso, a preservação da memória da FEB possui importância que vai muito além da nostalgia. Não se trata simplesmente de olhar para fotografias antigas ou admirar uniformes de uma época distante. Trata-se de compreender quem fomos. E, a partir disso, compreender melhor quem somos.
Uma surpresa está chegando

É justamente por acreditar na importância desse trabalho que o Memorial da FEB está preparando algo especial. Uma iniciativa pensada para aqueles que acompanham nosso trabalho. Para quem pesquisa a Força Expedicionária Brasileira ou coleciona objetos relacionados à Segunda Guerra Mundial. Para os descendentes dos veteranos e aqueles que estudam a participação brasileira no conflito. E também para todos os brasileiros que simplesmente acreditam que a memória daqueles que serviram ao país merece ser preservada.
Ainda não revelaremos o que estamos preparando, pois queremos preservar a surpresa. Mas podemos adiantar uma coisa:
Setembro será especial.





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