No início de novembro de 1944, houve surpresa para os expedicionários do 6º Regimento de Infantaria, da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que recém haviam entrado em posição no vale do Rio Reno. Ouviam ao longe o rimbombar dos obuses inimigos em sua direção, e parecia que os projetis atingir-lhes-iam. Mas, estranhamente, nada explodia.
Ao invés disso, as granadas inimigas detonavam suavemente durante o trajeto, 30 a 90 metros acima das posições, soltando um “poff” abafado. Expeliam centenas de panfletos que desciam lentamente ao solo, ao sabor do vento. Os obuses não intentavam ceifar a vida dos brasileiros, mas o ânimo combativo. Desta feita, os pracinhas estavam diante de um novo tipo de conflito: a guerra psicológica.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a guerra não era travada apenas nos campos de batalha. A disputa pela mente e pela moral dos soldados tornou-se uma prioridade para todos os exércitos envolvidos. Nesse contexto, as forças alemãs e italianas empregaram uma intensa campanha de propaganda contra as tropas Aliadas, incluindo os brasileiros que combatiam na Península Itálica.
Por meio de panfletos lançados por aeronaves ou disparados por projéteis especiais, os alemães tentavam enfraquecer a determinação dos combatentes da FEB. Desejavam semear dúvidas quanto a validade da participação do Brasil no conflito.
“Ouve lá, oh Zé”

A guerra psicológica era uma ferramenta amplamente utilizada por todos os lados com um objetivo simples: reduzir a vontade de lutar do inimigo sem a necessidade de combate direto.
Os estrategistas alemães sabiam que a FEB era uma força nova no teatro de operações. Muitos dos soldados brasileiros eram jovens com pouca ou nenhuma experiência de combate, que haviam deixado suas famílias pela primeira vez e combatiam a milhares de quilômetros de casa. Essa condição de fragilidade parecia oferecer uma oportunidade para operações de propaganda psicológica direcionadas especificamente aos brasileiros.
Diferentemente do material lançado sobre os norte-americanos ou britânicos, aqueles destinados à FEB eram escritos em português e exploravam temas cuidadosamente escolhidos para atingir o estado emocional dos pracinhas. “Os panfletos lançados sobre a nossa tropa empregando os alemães projéteis especiais, dão-nos o testemunho do maquiavelismo do adversário para abater o espírito combativo de nossos soldados”, escreveu o major Senna Campos, Chefe da 4ª Seção da FEB.
Um dos panfletos de guerra psicológica mostra a imagem de um homem de muletas, com um dos olhos vazado e uma das pernas amputada, “com dizeres em nossa gíria, denotava a presença de conhecedores perfeitos de nosso palavreado e de nossos costumes”:
Ouve lá, oh Zé
Deixa-me, dizer-te uma coisa.
Escuta. O que me deram foi a minha demissão e um par de muletas. Agora faço parte do exército dos mutilados de guerra que aumenta continuamente. Não sirvo para nada. Já não posso exercer a minha profissão nos caminhos de ferro. Talvez consiga uma autorização para vender amendoim torrado. O negócio não rende muito, mas com a pequena pensão que se recebe, não se pode sustentar uma família.
Por essa razão, digo-te o seguinte: Cada gota de sangue brasileiro vertida na Europa, é em vão. Não temos nada de meter o nariz nas questões da banda de lá. Eles que se arranjem lá como quiserem, com suas excomungadas guerras. Tem cautela amigo e faz por regressar à casa são e salvo. Sê prudente…
Panfletos Lançados sobre a FEB
Um aspecto impressionante desses panfletos era o grau de informação que os alemães possuíam sobre a organização febiana. Documentos preservados mostram que a Inteligência alemã identificou corretamente unidades, regimentos e até detalhes da estrutura expedicionária nacional. Tal evidência refuta a argumentação de deplorável obra nacional lançada nos anos 1980, alegando que os chefes nazistas desconheciam a existência dos pracinhas no front. Os documentos provam que o inimigo acompanhava atentamente a presença dos expedicionários no front italiano, adaptando as suas mensagens especificamente para o público brasileiro.
Para os soldados nacionais, essa aparente familiaridade do inimigo com as suas unidades podia causar surpresa e até desconforto: exatamente o efeito desejado pelas operações psicológicas.


Guerra Psicológica Pura: “Para que morrer agora?”
Uma das mensagens mais recorrentes da propaganda alemã procurou convencer os brasileiros de que eles lutavam por interesses estrangeiros, especialmente os dos Estados Unidos. Um dos panfletos exibe a imagem de um soldado brasileiro morto na Itália. A mensagem sugere que os brasileiros estavam sacrificando suas vidas para transformar o seu próprio país em uma colônia dos Estados Unidos. Para tanto, os nazistas utilizaram uma carta e documentos encontrado no corpo sem vida do pracinha Aristides José da Silva: um dos muitos bravos da FEB.

Antiamericanismo: Arenga Totalitária


Acima, mais uma sugestiva propaganda contra os norte-americanos (AF-31.I.45).
“Enquanto no Brasil um soldado americano hasteia a bandeira dos Estados Unidos, na Itália um soldado brasileiro está morto junto a uma cerca de arame farpado!”, descreveu Senna Campos.
Brasileiros! Vocês já pensaram porque é que os americanos vos pagam tão bem? É para vos levar no pacote! Porque é que querem levar-vos no pacote? Para afastar do Brasil os seus melhores soldados! Porque é que querem afastar os melhores soldados do Brasil? Para que vocês não possam mais defender a vossa Pátria, dentro do Brasil. Quem ameaça as fronteiras brasileiras? O inimigo que já se encontra lá. Quem é o verdadeiro inimigo do Brasil” É o americano imperialista que quer fazer do Brasil uma colônia.
“Não me parece que o alemão tenha escrito o que está acima”, refletiu Senna Campos, “Pelo próprio texto pode-se supor que houve brasileiro metido nisso…”. O oficial brasileiro estava correto, e trataremos disso num post futuro.
Em outro folheto aparece uma águia, com cabeça do presidente Roosevelt, tendo em suas garras as palavras borracha, minerais, café e petróleo, sobre um mapa tosco do Brasil.

Brasileiros! A tua maravilhosa terra é a mais rica de todo o mundo. Porque é que não jorra petróleo? Os americanos não querem! Porque é que no Brasil se produz tão pouco petróleo? Os americanos não querem. Porque é que a exploração dos minerais não está mais desenvolvida? Os americanos não querem. Os americanos querem tomar conta do Brasil para que seus capitalistas possam explorar as riquezas de sua terra. Por isso você sendo o melhor soldado brasileiro foi afastado do Brasil para morrer na Europa e nunca mais voltar à Pátria.
AF-1.XI.44
Escolheu-se o tema propositalmente. Desde a instalação de bases norte-americanas no Nordeste brasileiro e o fortalecimento da cooperação militar entre Washington e o governo Vargas, a propaganda nazista buscou explorar o receio da influência dos EUA sobre o Brasil. Duas décadas após o término do conflito, a mesma propaganda antiamericana nazista passou a ser reproduzida pelos ex-confrades socialistas — a face oposta da mesma moeda totalitária.
Propaganda Insinuante no Front Italiano: Apelo ao Sexo
Nesse outro estilo de propaganda psicológica, destinada aos norte-americanos, o panfleto apela para o sexo. Na capa há a imagem de uma cheerleader e os dizeres: “Dê uma boa olhada nisso”. Talvez seja a última boa visão que você terá em sua vida!”. No verso:

“Quais são as suas perspectivas para o futuro?
1º — você pode ser morto imediatamente;
2º — você pode ser totalmente incapacitado;
3º — você pode ser recolhido a um campo alemão de prisioneiros. Neste último caso você terá oportunidade de outra visão como a da primeira página?”
Já na guerra psicológica destinada aos ingleses, os alemães instigaram o ciúme britânico. Utilizaram como mote a presença de tropas americanas no Reino Unido e o relacionamento com as mulheres locais.

Como os Pracinhas Reagiram à Propaganda Psicológica?
Na prática, os resultados dessa propaganda foram bastante limitados. Veteranos da FEB relataram posteriormente que muitos desses panfletos eram recebidos com ironia ou simplesmente descartados. Alguns soldados guardavam exemplares como curiosidade, enquanto outros lhes davam usos bem menos nobres. A distância entre a realidade vivida pelos combatentes e as narrativas apresentadas pelos alemães tornava a propaganda pouco convincente para a maioria dos brasileiros.
Além disso, a convivência diária com tropas norte-americanas e a percepção direta da brutalidade do regime nazifascista contribuíam para neutralizar a influência de grande parte das mensagens difundidas pelo inimigo.
A Resposta Brasileira: Contrapropaganda
A FEB não permaneceu passiva diante dessas tentativas de influência. Em cooperação com os Aliados, os brasileiros participaram de ações de contrapropaganda destinadas às tropas alemãs, com panfletos enfatizando o isolamento da Alemanha, a superioridade material Aliada e as garantias oferecidas aos soldados que se rendessem. Em abril de 1945, durante as operações que culminaram na rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã em Fornovo, utilizou-se a contrapropaganda para estimular a capitulação das forças inimigas cercadas.
Nesse aspecto, a FEB participou não apenas da guerra de armas, mas também da guerra de ideias.
Arma Invisível
Os panfletos alemães lançados sobre as posições brasileiras representam uma curiosa e pouco conhecida faceta da participação da FEB na Segunda Guerra Mundial. Eles revelam que, para o comando alemão, os soldados brasileiros eram um alvo importante o suficiente para justificar o investimento em campanhas específicas de propaganda.
Esses documentos também demonstram que a guerra moderna não se limita ao campo físico. A batalha pela mente dos combatentes, pela moral das tropas e pela percepção da realidade tornou-se um componente essencial dos conflitos do século XX.
No caso da FEB, porém, a propaganda nazista fracassou em seu objetivo principal. Apesar das dificuldades causadas pelo inverno, das baixas e da distância de casa, os pracinhas mantiveram sua determinação e continuaram lutando até as vitórias que contribuiram de forma relevante para a derrota das forças nazifascistas na Itália. Os pracinhas lutavam pela honra nacional e pessoal, atributos e valores fortemente enraizados no brasileiro da época.
Você já viu algum desses panfletos originais lançados sobre as posições da FEB? Se possui fotografias ou documentos relacionados à guerra psicológica no front italiano, entre em contato com o Memorial da FEB e ajude a preservar essa importante parte da história dos pracinhas brasileiros.

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