História da FEB

Reencenações na FEB

Muito do que sabemos hoje sobre a Segunda Guerra Mundial provém das imagens visuais – estáticas e em movimento – que os fotógrafos de combate usaram para documentar todas as fases dessa custosa tragédia humana.

Milhões de imagens foram tiradas por fotógrafos profissionais e amadores. Homens que haviam sido fotógrafos profissionais antes da guerra foram recrutados por seus governos para continuar a exercer seu ofício sob uniformes. Outros foram enviados por suas revistas, jornais e agências de fotografia para trazer de volta cenas dramáticas.

Mesmo antes do envolvimento dos EUA, os alemães estavam fazendo um excelente trabalho ao documentar sua guerra em fotografias e filmes. Formados em Propaganda Kompanies (PK), os cinegrafistas iam a todos os lugares com as tropas, e suas imagens frequentemente apareciam em cinejornais e revistas militares como o Signaland Der Adler, para não mencionar a imprensa popular. Os britânicos também se dedicaram a fazer um registro fotográfico da guerra, criando a Unidade Fotográfica e de Filmes do Exército (AFPU).

Como se pode imaginar, entrar em combate armado apenas com uma câmera não era isento de riscos. Incontáveis ​​fotógrafos foram mortos ou feridos tentando cobrir a ação, buscando conseguir aquela foto espetacular que daria ao público uma ideia do que realmente se tratava a guerra. Por exemplo, dos 1.400 cameramen do U.S. Signal Corps na Europa Ocidental durante a Segunda Guerra Mundial, 32 foram mortos em combate e mais de 100 ficaram feridos. Outros, servindo na Marinha e no Corpo de Fuzileiros Navais, também perderam a vida tentando conseguir “a foto” ou “o take“. Os fotógrafos civis também não estavam imunes ao perigo; dos 21 cinegrafistas da Life Magazine enviados ao exterior, cinco ficaram feridos e 12 contraíram malária.

Com a FEB não foi diferente. Um grupo de jornalistas, fotógrafos e um cinegrafista acompanharam o contingente brasileiro durante a guerra. Boa parte das imagens da Força Expedicionária foi captada pela equipe presente na foto a seguir.

Correspondentes de Guerra na Itália – em pé, da Esq. para a dir.: Rubem Braga (Diário Carioca); Frank Norall (Coordenação de Assuntos Interamericanos); Thassilo Mitke (Agência Nacional); Henry Bagley (Associated Press); Raul Brandão (Correio da Manhã); Horácio Gusmão (Agência Nacional). Na primeira fila: Allan Fischer (fotógrafo da Coordenação de Assuntos Interamericanos); Joel Silveira e Egídio Squeff (O Globo); e Fernando Stamato (cinematografista da Agência Nacional).

Buscando oferecer aos seus patrões e ao público dos seus países um material atraente, excessos foram cometidos por alguns profissionais — e havia uma razão para tal atitude. As fotos de maior impacto na Campanha da Itália foram obtidas pelos combat photographers, membros do U.S. Signal Corps, elementos que avançavam junto com a tropa em primeira linha, largando seu equipamento fotográfico para empunhar o fuzil e atuando como legítimos infantes quando necessário. Como, por motivos óbvios, aos civis não era autorizado acompanhar as tropas em 1º escalão, alguns profissionais brasileiros decidiram “inovar”.

4/3/1945. V Exército, área de Sassomolare, Itália. Homens do 87º Regimento de Infantaria da 10ª Divisão de Montanha capturam alemães expulsos de casa por um esquadrão de assalto, ao norte de Sassomolare. Foto de Baker. 196th Sig. Photo Co. (Denver Public Library).

Por sinal, o apelo à “criatividade” de modo algum foi uma exclusividade nacional. Basta mencionar o caso do famoso diretor John Huston (vencedor de duas estatuetas de ouro em Hollywood), que utilizou farto material de reencenação — inclusive vestindo um soldado americano com uniforme alemão para simbolizar um morto inimigo — na produção do seu aclamado documentário The Battle of San Pietro,

Um das encenações produzidas pelos brasileiros aconteceu na região de Rocca Corneta, cuja sequência de fotos costuma ser reproduzida erroneamente na mídia nacional como parte do “assalto final ao Monte Castello”. Este local dista cerca de 4 Km do famoso monte. Vamos utilizar uma dessas fotografias para orientar o aficionado pela memória da FEB a diferenciar encenações de situações reais.

Há pelo menos cinco indicativos de uma foto posada nesta imagem. São eles:

  1. Posição da Tropa – Uma tropa na linha de frente, em posição defensiva, está postada em trincheiras (fox holes) ou em abrigos para se proteger dos impactos e estilhaços de granadas de Artilharia ou morteiros — jamais num barranco. Tal posição estaria justificada caso a tropa estivesse em curso de um ataque, mas a posição despreocupada dos três militares à direita da imagem exclui por completo tal possibilidade.
  2. Armamento – Metralhadoras de mão como a que aparece na foto (uma M3 – Grease Gun), devido ao curto alcance e elevada dispersão do tiro, normalmente são utilizadas em patrulhas e não em posições defensivas, a não ser em última e desesperada instância — o que, novamente, pelo aspecto dos três militares sentados, não é o caso. Além disso, não há granadas para uso imediato ou pentes de munição sobressalentes junto aos quatro elementos armados.
  3. Equipamento e Posição das Armas – Tanto a metralhadora com bipé quanto os fuzis estão apontados para o céu. Quase todos os militares estão confortavelmente usando gorro, sem portar o equipamento pessoal.
  4. Apresentação Individual – Nota-se que os militares em primeiro plano estão com os uniformes impecáveis e barba feita, e este não é o aspecto visual de um combatente em 1º Escalão. Conforme o título do livro do historiador César Campiani Maximiano, a aparência comum destes militares pode ser definida com três palavras: Barbudos, Sujos e Fatigados
  5. Local da Foto – É possível localizar no terreno o sítio onde foi obtida a foto maior. Comparando-a com outra onde aparece um pequeno campanário de Rocca Corneta, é possível identificar um dos militares, além da parte superior de uma das edificações em escombros. Fato incontestável, as duas fotos foram obtidas no mesmo local. Ali estava uma posição alemã tomada pela 10ª Divisão de Montanha, em 19-20 de fevereiro de 1945, que foi ocupada pela FEB no mês seguinte. Não há qualquer relato de combates nessa região entre brasileiros e alemães. Por sinal, sequer era possível ao inimigo avistar esse local após o final de fevereiro de 1945.

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