
🔰 Este post trata de uma questão tão importante quanto pouco estudada na história da FEB: o preparo das refeições nas cozinhas de campanha — um dos muitos problemas enfrentados pela Logística da FEB na Campanha da Itália.
☕️ Café com os brasileiros
O pessoal do quartel-general do IV Corpo aprendeu muito sobre café”, registrou o coronel Peter S. Wondolowski, membro do estado-maior e memorialista da grande unidade, que descreveu seu contato com o oficial de ligação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Segundo ele, o capitão Moura e seu ordenança serviam de anfitriões com frequência ao pessoal do QG, para um café tête-à-tête em sua tenda.
Acostumados à receita aguada — às vezes fria —, os estrangeiros apreciaram o líquido encorpado, quente e saboroso, que Moura lhes servia. Os americanos mostravam-se ansiosos pela chegada dos pacotes de sardinha e petiscos da terra natal, ao passo que os brasileiros almejavam receber latas de 10 kg de café dos seus entes queridos no Brasil. O capitão Moura estocava na barraca mais de meia dúzia de latas — o suficiente para durar o próximo inverno, diziam os americanos. “Não, apenas um mês”, respondia ele. Wondolowski narrou o encontro:
Como convidados, nunca pedimos ao capitão Moura leite para enfraquecer o café forte. Não era o costume, pois quanto mais preto e forte, melhor ficava o sabor; ele usava considerável quantidade de açúcar. Com o chá fervendo constantemente no trailer fotográfico do capitão britânico Roy Russell de um lado, e o café na tenda do capitão Moura do outro, o espírito futuro das Nações Unidas pairava no acampamento.1
Embora as diferenças culturais evidenciadas pelos hábitos alimentares tenham inspirado relatos amigáveis e curiosos, a adaptação da logística brasileira ao sistema de alimentação do US Army revelou-se problemática.
A historiografia febiana costuma focar nos aspectos operacionais, deixando de lado as questões logísticas. Este post aborda uma questão aparentemente trivial, mas que causou dores de cabeça aos expedicionários: o preparo das refeições.
🍽️ Melhora tardia da “boia”
Por ocasião do estacionamento do 1º Escalão da FEB em Agnano (julho de 1944), os pracinhas se alimentaram nos quatro primeiros dias com rações de campanha, pois os cozinheiros não sabiam operar o equipamento de rancho disponibilizado pelo V Exército. Iniciaram os trabalhos após “ligeira explicação dada pelos cozinheiros ianques”, relatou o major Agnaldo José de Senna Campos, Chefe da 4ª Seção da FEB, situação dificultada pelo cardápio diferenciado americano e as instruções impressas — “todas em inglês”.
Os problemas decorrentes da falta de prática repetiram-se nos escalões seguintes. Em janeiro de 1945, o capitão Gerald H. Munn, oficial do Destacamento de Ligação Brasileiro (BLD), reportou que a equipe do rancho nacional não preparava corretamente a comida, dando como exemplo o serviço da sopa de milho (canjica), servido pelos brasileiros no café da manhã. Na cultura americana da época, o alimento era servido apenas como sobremesa (pudding).2 O descarte de parte dos suprimentos americanos — de gosto desagradável ou mesmo intragável ao paladar nacional — foi visto como desperdício.

Referindo-se ao pessoal recém-chegado com o 5º Escalão da FEB (desembarcado na Itália em fevereiro de 1945), Munn escreveu que “O café da manhã das tropas consistia em dois ovos cozidos, uma fatia de pão com geleia, duas salsichas e café; os refeitórios estavam frios e as tropas ficaram muito mal impressionadas, expressando insatisfação com a comida e as condições de vida. Eram longas e morosas as filas para o rancho” .3

Em suas memórias, Senna Campos escreveu o seguinte:
Por iniciativa do nosso Serviço de Intendência, foi organizado curso de aperfeiçoamento da arte culinária em Pistoia, com o auxílio dos americanos e, por onde passaram 150 cozinheiros, com resultados mais promissores. Inegavelmente a “boia” melhorou nos arraiais brasileiros, pois foram aprendidos os processos de preparar pratos, pela maneira dos nossos aliados.4
Senna Campos só não revelou a tomada tardia de tal iniciativa: apenas em março de 1945, perto do final da guerra.

O conjunto documental (entre outros relatórios secretos gerados pelo BLD) oferece conclusão inusitada. Cerca de oito meses após o desembarque do 1º Escalão da FEB, o efetivo nacional ainda enfrentava dificuldades para a confecção da alimentação da tropa nas suas cozinhas de campanha.
Qual a razão do atropelo? O que poderia ter sido feito para evitar ou minorar tais problemas?
🍞 O “brequefeste”
Quando os primeiros contingentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcaram na Itália, os soldados brasileiros encontraram uma realidade muito diferente daquela a que estavam acostumados nos quartéis do Brasil. Além das dificuldades inerentes às operações militares, os pracinhas precisaram rapidamente se adaptar a novos procedimentos logísticos ditados pelo aliado ianque.
Como a FEB foi integrada ao IV Corpo de Exército dos Estados Unidos, praticamente todo o equipamento utilizado pelos brasileiros — armas, uniformes, veículos, munições e equipamentos — era fornecido pelo Exército dos EUA. Isso significava que os expedicionários teriam de aprender a manejar novos equipamentos para o preparo das refeições,
Como o Exército Brasileiro pouco conhecia funcionamento do sistema americano, tentou-se uma adaptação prosaica, ainda no Brasil. Segundo o tenente Ruy de Oliveira Fonseca, “Fruto das recomendações da Missão brasileira no TO do Mediterrâneo, as refeições febianas adaptaram-se à variedade e periodicidade do cardápio americano”.
Contudo, o tenente Ruy notou que a diferença entre o que aparecia no cardápio do 11º RI e o servido pelo aprovisionamento “atingia o infinito”. Trocou-se o bacon do “brequefeste” (breakfest = café da manhã) por um naco de presunto do Serviço de Subsistência com quatro dedos de largura por dois de espessura — e tentar mastigá-lo dava início a uma luta inglória. Os bifes do lunch (almoço) desafiavam o poder de corte dos velhos talheres articulados.
Os legumes se resumiam num cesto cheio de folhas de alface (lavadas?), onde cada um metia a mão e se servia o quanto pudesse apanhar de uma vez só. […] Ovos? Sim; mas, quando cozidos, era aquela montoeira de ovos duros e moles, com as cascas esmigalhadas, aderentes e sem forma que, cozidos desde a madrugada, eram empilhados nos panelões, para serem servidos às seis e meia da manhã. Quando fritos, vinham ainda piores, pois fritos em banha reiúna, desde o amanhecer, eram servidos frios e endurecidos, com a gordura esbranquiçada envolvendo-os. Resultado: azia o dia inteiro. […] À noitinha, pela hora do jantar, acontecia o “sáper” [supper = jantar], quando, ao que parece, eram aproveitadas as sobras das refeições encaldeiradas de uma sopa, acompanhadas de mate com pão.5
Resultado da iniciativa amadora, o treinamento do Serviço de Intendência no Brasil não avançou muito além das alterações no conteúdo do cardápio e das mudanças na semântica alimentar. Por isso, os nossos intendentes passaram apuros quando tiveram de se adaptar à guerra moderna — quase tanto quanto os seus colegas das Armas.
Os fogões americanos
Havia uma sistemática diferenciada no preparo das refeições nos dois países. No Exército Brasileiro, durante os acampamentos, preparava-se o rancho em trempes (chapas ou grades metálicas) aquecidas por fogueiras (“fogo de chão”). Já durante os exercícios com contínuos deslocamentos de tropa, cozinhava-se o alimento em grandes fornos de ferros, sobre carroças tracionadas por parelhas de animais, a poder de carvão ou lenha. Eram conhecidas como “Marias Pretas”, devido à estrutura inteiramente de ferro na cor preta.


Quando chegaram à Itália, os brasileiros foram apresentados ao U.S. Field Stove M1937 — modelo que revolucionou a logística ao permitir o preparo de comida quente diretamente nas frentes de batalha. Entretanto o material exigia operação complexa e perigosa.
⚙️ Funcionamento e Combustível
- Queima de Combustível Líquido: Operava predominantemente com gasolina automotiva comum sob pressão, o que facilitava o abastecimento, pois usava o mesmo combustível dos veículos.
- Sistema de Pressurização: O queimador contava com um tanque de combustível integrado. O operador usava uma bomba de ar manual (similar a uma bomba de bicicleta) para pressurizar o tanque, transformando a gasolina em vapor inflamável estável.
- Filtros de Segurança: O equipamento incluía um filtro de lã de aço para reter impurezas e chumbo da gasolina antes da queima, reduzindo o entupimento de válvulas e a toxicidade da fumaça.
📦 Estrutura e Design
- Gabinete Modular: O fogão consistia em um gabinete retangular robusto e autossuficiente, construído em alumínio e aço inoxidável para resistir à corrosão e ao uso severo.
- Queimador Reposicionável: A unidade de queima (fire unit) podia ser encaixada em até três posições de altura diferentes dentro do gabinete: a posição superior servia para grelhar ou fritar; as posições central e inferior serviam para ferver panelas grandes ou transformar o gabinete em um forno.
- Dimensões e Transporte: Tinha cerca de 90 cm de altura e 38 cm de largura. Com o gabinete vazio, possuía alças laterais que permitiam que apenas dois soldados o transportassem com facilidade. Ele operava perfeitamente, mesmo em movimento, instalado na traseira de caminhões ou vagões de trem.

🍳 Capacidade Operacional e Acessórios
- Versatilidade de Cozimento: Funcionava como fogão, grelha e forno ao mesmo tempo. Permitia que os cozinheiros militares pudessem fritar, assar pães, cozinhar ensopados e preparar café.
- Kit de Utensílios Padrão: Cada unidade vinha equipada com caldeirões (stockpots) de 10 e 15 galões (aproximadamente 38 e 57 litros), além de assadeiras retangulares profundas com tampas que também serviam como chapas.
- Escalabilidade: Uma única unidade M1937 conseguia alimentar cerca de 50 soldados por refeição. As cozinhas de campanha costumavam agrupar três ou quatro gabinetes alinhados para conseguir servir uma companhia inteira (de 150 a 225 homens) de forma simultânea.
🤌 Origem dos problemas e possíveis soluções
O Chefe da 4ª Seção da 1ª DIE identificou os dois principais problemas na Logística da FEB: a preparação dos motoristas e dos cozinheiros. Com vistas ao uso eficiente do novo equipamento de rancho, o treinamento do Serviço de Intendência poderia ter sido feito durante os meses de organização da FEB. Alguns fogões e um punhado de cozinheiros americanos seriam suficientes para o preparo das equipes de cozinha nacionais. Todavia, isso não aconteceu. Cabe lembrar dos termos do acordo de fornecimento antecipado de 50% do material bélico de uma Divisão de Infantaria americana para o treino no Brasil — contrato descumprido por Washington. Tal qual fuzis, morteiros, metralhadoras e equipamentos diversos, os novos fogões foram apresentados aos pracinhas apenas na Itália. Agravou-se a situação pela morosa iniciativa da logística febiana em adestrar o seu pessoal.
Com relação ao uso dos fogões, a exceção ficou por conta do versátil fogareiro portátil: o G.I. pocket stove. Durante o conflito mundial, o governo dos EUA incumbiu a empresa Coleman a desenvolver um modelo compacto para uso militar. Ele deveria ser leve, não ser maior que uma garrafa térmica de um litro, queimar qualquer tipo de combustível e funcionar em temperaturas de -51 a 52 °C. Em apenas 60 dias, a Coleman criou o Fogão de Bolso G.I. (M1941), que entrou em serviço pela primeira vez em novembro de 1942, quando cinco mil unidades acompanharam as Forças americanas durante a invasão do Norte da África.
Mais de um milhão desses fogões foram produzidos para uso em guerra, recebendo muitos elogios da tropa. O correspondente de guerra Ernie Pyle o classificou “logo atrás do Jeep“, em termos de utilidade durante o conflito.

🪖 Emprego no Brasil

A partir do término da Segunda Guerra Mundial, grande quantidade dos U.S. Field Stove M1937 ocupou o quadro de dotação do material de Intendência do Exército Brasileiro. Não foi possível encontrar o documento oficial que formalizou a aquisição, mas acredita-se que o recebimento do material tenha origem nos contratos de Lend-Lease durante o conflito, ou que tenham sido trazidos pela FEB; ou, ainda, adquiridos por força do Acordo Militar Brasil-EUA, que vigorou entre 1952 e 1978.
Os fogões americanos equiparam a Força Terrestre até por volta da primeira década do século XXl, sendo gradativamente adaptados para o uso de botijões de GLP pelos Parques Regionais de Manutenção do EB. Acabaram substituídos por cozinhas móveis rebocáveis da Kärcher (Kärcher Futuretech), e também por cozinhas de campanha espanholas, padrão OTAN (Cozinha ARPA 2000/250BR), por volta do início da década de 2010.
Hoje, tanto o fogão M1937 quanto o G.I. pocket stove são itens raros de militaria no Brasil, muito procurados por colecionadores dedicados à memória da FEB.
Gostou do post?
Curta, comente e compartilhe!
🤝Agradecimentos pela colaboração na elaboração do texto aos amigos: Decio Moreira, Maurício Peres, José Marcos, Durval Kaviski, Marcos Alexandre Brandi Batalha, Eduardo Reis, Flávio Costa e Luiz Carlos Ramos.
📚 Fontes
- Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Juiz de Fora, Insight Books, 2024, p. 323.
2. Relatório do capitão G.H. Munn ao coronel Sewell, 13 jan. 1945, NARA.
3. BLD Report, 27 fev. 1945, do major G.H. Munn ao Commanding General, USAFSA, NARA.
4. Aguinaldo José Senna Campos, Com a FEB na Itália: páginas do meu diário, Rio de Janeiro, Imprensa do Exército, 1970, p. 125.
5. Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Juiz de Fora, Insight Books, 2024, p. 180.




Deixe uma resposta