Operação Brasil

Karl Ritter: o embaixador nazista

Karl Ritter (1883-1968) era o principal representante do governo alemão no Brasil desde junho de 1937, quando chegou ao Rio de Janeiro para assumir o posto de Embaixador. Não era um diplomata de origem, mas um burocrata membro do NSDAP (Partido Nazista), afinado com a ideologia do seu partido. Segundo o professor Frank D. McCann, Ritter “personificava o estereótipo do prussiano retratado nos filmes de Hollywood”.

Quando Getúlio Vargas decidiu proibir o funcionamento dos partidos políticos, o embaixador alemão exigiu que fosse levantada a proibição contra o Partido Nazista. Durante uma audiência com o presidente, em 25 de fevereiro de 1938, alegou que a perseguição contra os nazistas era ilegal, pois o decreto do Governo abolindo os partidos políticos referia-se especificamente aos partidos brasileiros, e não aos estrangeiros. Getúlio afirmou que o Brasil “era um país de imigração, e que não poderíamos fazer a eles concessões que pudessem ser invocadas por outras colônias estrangeiras, com direito a idênticas reclamações”, e que a questão não era contra os alemães, mas a forma pela qual eles exerciam sua atividade é que precisava ser examinada e regulada. O estrangeiro pediu o fim de qualquer repressão policial, oferecendo em troca a interrupção da atividade política dos nazistas até que se chegasse a uma solução para o caso. Disposto a encerrar a audiência desconfortável, Vargas orientou Ritter para encaminhar as suas queixas por escrito, a fim de serem examinadas.[1]

Visando obter maiores instrumentos de pressão contra o Brasil — inclusive a autorização para ameaçar Vargas com o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países — Ritter enviou a Berlim um longo relatório, no qual destacava uma série de medidas antirracialistas baixadas pelo Estado Novo. O diplomata, membro do Partido Nazista, sabia o grau de impacto que o relatório causaria na alta cúpula do Partido, empenhado em promover a “pureza racial” alemã, segregando raças e etnias consideradas inferiores. Nas principais áreas de colonização germânica da região Sul, os jornais de língua alemã eram subsidiados pelo NSDAP, incentivando os imigrantes a evitarem casamentos com outros grupos sociais.[2]

Ao invés de ceder à pressão nazista, Vargas baixou o Decreto-Lei nº 383, de 18 de abril, colocando na ilegalidade todas as organizações estrangeiras (partidos, sociedades, fundações ou clubes) e dando-se o prazo de 30 dias para a sua desestruturação. O novo decreto frustrou as esperanças da diplomacia alemã sobre um possível recuo brasileiro: “Isso torna a atividade da Auslandorganisation (Organização do Partido Nazista no Exterior) quase impossível”, assinalou o Cônsul-Geral Lorenz, informando seus superiores em Berlim que os interventores militares no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina haviam imposto regulamentos prejudicando o “caráter germânico” naqueles estados, mais particularmente em Santa Catarina, “onde as escolas alemãs estão praticamente sendo assimiladas às escolas do governo brasileiro”.

Para o horror de Ritter, o governo Vargas fez justamente o contrário com relação aos alemães e seus descendentes no Brasil. Procurando despertar a ira dos seus superiores, o embaixador alemão fez um verdadeiro libelo às medidas antirracialistas de Vargas — que se contrapunha diametralmente à propaganda segregacionista do III Reich:

O presidente está obcecado com a ideia de eliminar as diferenças étnicas existentes na população brasileira, e criar uma raça brasileira homogênea, com língua e cultura uniformes. Aí, então, os Volksdeutscher (alemães étnicos nascidos fora do Reich), aproximadamente um milhão entre os estados do Sul, perturbam-no fortemente porque mantém sua língua, sua cultura e sua consciência racial alemã, mais do que os italianos, os holandeses, os polacos, e outros.[3]

Karl Ritter: o embaixador nazista ficou horrorizado com a política antirracialista de Vargas

O Estado Novo aproveitou uma viagem de Ritter à Alemanha para declarar o estrangeiro persona non grata, em 1º de outubro de 1938. Ele nunca mais retornou ao Brasil, ficando encarregado da ligação entre o Ministério das Relações Exteriores e as Forças Armadas.

Berlim, 4 de junho de 1942

Quatro anos depois da sua saída do Brasil, Ritter recebeu um relatório do Comando da Marinha (OKM), trazendo o resultado da consulta aos italianos ordenada por Hitler quanto aos supostos ataques a submarinos do Eixo efetuados pela aviação brasileira e veiculados pela mídia internacional. O documento enumerou uma série de razões para justificar uma ação ofensiva contra o Brasil, afirmando que o país auxiliava cada vez mais os Aliados, pois “colocou não somente as forças econômicas do país, mas também o seu território e as bases do Exercito Brasileiro à disposição do inimigo que, com apoio nestas bases, está realizando ataques contra as Forças do Eixo”. 

O Comando da Kriegsmarine argumentou que os ataques contra os submarinos do Eixo não poderiam ser interpretados como uma reação ao comportamento germânico, porque os alemães não fizeram ataques no mar territorial brasileiro ou contra os navios brasileiros, à revelia dos regulamentos da guerra no mar. Imputou a culpa pelos ataques alemães aos navios mercantes brasileiros às próprias embarcações torpedeadas: “Em todos os casos conhecidos pelo Skl (Comando de Guerra Naval) em que navios mercantes brasileiros foram afundados, o motivo pelos afundamentos foi de absoluta responsabilidade destes navios”[4]. Conforme mostramos no post Mitos e Negligências, é fato que os navios brasileiros não estavam devidamente identificados com as marcas de neutralidade, por razões que mais adiante iremos abordar.

HÁ EXATOS 80 ANOS: Cabeçalho do ofício enviado pelo OKM a Ritter (Bundesarchiv)

O OKM classificou de “escandalosas” as restrições levantadas no Brasil contra os cidadãos alemães, afirmando que o Brasil estava aumentando seu comportamento agressivo e que iria à guerra contra a Alemanha.  Para justificar sua posição, menciona a informação de que dois submarinos italianos, operando na costa nordeste do Brasil, haviam sido atacados nos dias 22 e 26 de maio “por uma aeronave cuja nacionalidade não pôde ser identificada, mas que deve ter decolado de um aeroporto brasileiro, sem dúvida alguma”.

No item seguinte, o texto reproduz parte da nota infeliz do Ministro da Aeronáutica brasileiro, enviada à imprensa nacional e internacional, repassada pelo adido naval alemão em Buenos Aires, em que Salgado Filho descreve a resposta da FAB ao ataque ao Comandante Lyra, afirmando que “três submarinos foram detectados, caçados e atacados na costa brasileira. Um deles foi afundado”. Por último, o documento germânico ressalta que, segundo a mídia brasileira, o “Brasil está praticamente em guerra contra o Eixo”. [5]

O objetivo da documentação enviada a Ritter pelo OKM era o de convencer a diplomacia do III Reich a corroborar os planos da Kriegsmarine em desfechar um ataque naval massivo contra o Brasil.

A questão decisiva para o futuro do Brasil era a seguinte: o ex-embaixador nazista no Rio de Janeiro, enxotado do seu posto por Aranha e Vargas, alimentava sentimento de vingança contra os brasileiros?


Conheça as postagens anteriores sobre o tema neste link

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[1] Getúlio Vargas: Diário, Vol. II, p.111.

[2] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2011, pp.19-20. Os periódicos eram o Blumenauer Zeitung (Jornal de Blumenau), o Urwaldsbote (Correio da Mata); e o Volk und Heimat (Povo e Pátria).

[3] O III Reich e o Brasil, Vol. I, pp. 27-30. Relatório político nº B7/7, 2621/525726-29, 30 Mar 38. Meio século depois, ao invés de ser combatido, o racialismo passou a ser promovido pelo Estado brasileiro.

[4] I Seekrieger I C IIII. International Law- Neutrality of Brazil. Report of the OKM to the Foreign Office Ambassador Ritter, 4 Jun 42, pp.180-182.

[5] Id.

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