
O Que Comiam os Pracinhas Brasileiros na Segunda Guerra Mundial?
Quando se fala na participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Campanha da Itália, é comum lembrar dos combates em Monte Castello, Castelnuovo, Montese, Collecchio e Fornovo di Taro. Entretanto, um aspecto fundamental da vida dos soldados costuma receber menos atenção: a alimentação que lhes deu energia para conquistar as vitórias.
Sustentar milhões de combatentes no outro lado do Oceano Atlântico representou um gigantesco desafio logístico para os EUA. Para solucionar esse problema, o Exército dos Estados Unidos concebeu as famosas rações de campanha. O Exército Brasileiro as complementou com artigos típicos da dieta nacional trazidos do Brasil: como arroz, café, farinha, feijão e sal.
Essas rações foram cuidadosamente planejadas para fornecer calorias, proteínas e nutrientes suficientes a homens submetidos a longas marchas, frio intenso, fadiga e combate constante. Algumas eram destinadas ao consumo individual durante operações de combate; outras serviam para alimentar unidades inteiras quando havia condições de preparar refeições quentes.
Neste artigo, vamos conhecer em detalhes os principais tipos de rações consumidas pelos pracinhas brasileiros na Itália, seus ingredientes e as curiosidades que marcaram a alimentação da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.
A Importância da Alimentação em Combate
Os planejadores militares sabiam que um exército não pode lutar adequadamente sem comida de qualidade e em boa quantidade. Um soldado em combate precisa consumir entre 3.500 e 4.500 calorias diárias, dependendo da intensidade das operações e das condições climáticas. No rigoroso inverno dos Apeninos italianos, essa necessidade frequentemente aumentava. Além de fornecer energia, as rações precisavam atender a diversos requisitos:
- Fácil transporte;
- Longa duração sem refrigeração;
- Resistência a variações climáticas;
- Facilidade de preparo;
- Valor nutricional adequado;
- Boa aceitação pelos soldados.
Nenhuma dessas condições era perfeita, mas juntas formavam um sistema extremamente eficiente para os padrões da época. O combatente melhor alimentado de todo o conflito não foi outro, senão o abastecido pela Logística do Tio Sam.
1. Ração K: A Mais Conhecida da Guerra
Entre todas as rações utilizadas pela FEB, a mais famosa foi, sem dúvida, a Ração “K“. Desenvolvida em 1941 pelo fisiologista Ancel Keys, da Universidade de Minnesota, ela foi concebida para uso de tropas em movimento constante, especialmente paraquedistas, patrulhas e unidades de infantaria em operações ofensivas. Seu principal objetivo era oferecer uma alimentação compacta, leve e de preparo simples. Cada soldado recebia três pequenas caixas coloridas para facilitar a identificação:
- Breakfast Unit (café da manhã), na cor vermelha;
- Dinner Unit (almoço), na cor azul;
- Supper Unit (jantar), na cor verde.

Conteúdo da Ração “K”

Embora seu cardápido tenha variado ao longo da guerra, a composição típica incluía:
Café da manhã
- Biscoitos enriquecidos;
- Carne enlatada ou presunto;
- Café solúvel;
- Açúcar;
- Chicletes;
- Cigarros;
- Tabletes energéticos.
Almoço
- Queijo processado;
- Biscoitos;
- Chocolate;
- Limonada em pó;
- Açúcar;
- Chicletes.
Jantar
- Carne suína ou bovina enlatada;
- Biscoitos;
- Chocolate;
- Caldo em pó;
- Café instantâneo;
- Chicletes.
O Problema da Ração “K”
Apesar de prática, a Ração “K” apresentava limitações: Fornecia aproximadamente 2.800 calorias diárias ao usuário, quantidade insuficiente para soldados submetidos a esforços prolongados. Por isso, muitos combatentes relataram:
- Perda de peso;
- Sensação constante de fome;
- Cansaço excessivo;
- Deficiências nutricionais.
A Ração “K” foi concebida apenas para consumo durante períodos curtos, embora frequentemente fosse utilizada por muito mais tempo do que o planejado.
2. Ração “C”: O Clássico Enlatado Americano
A Ração “K” era a mais conhecida, mas a Ração “C” foi uma das mais consumidas. As Rações “C” foram desenvolvidas em 1938 como substitutas das rações de reserva, que sustentaram as tropas americanas durante a IGM. Consistiam principalmente de carne enlatada ou bacon e latas de biscoitos secos, além de café moído, açúcar, sal, tabaco e papel higiênico — havia pouca variedade.
Na segunda metade dos anos 1930, pesquisadores do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento do Depósito de Intendência, em Chicago, desenvolveram rações que poderiam ser armazenadas por longos períodos, e que fossem mais saborosas e nutritivas do que as rações de reserva.
O modelo criado consistia em duas latas de folha de flandres, de 340 gramas, abertas com uma pequena chave afixada na base. Havia a unidade “M” (meat – carne) e a unidade “B” (biscuit ou bread – biscoito ou pão). Inicialmente, as refeições eram ensopados, porém mais variedades foram adicionadas ao longo da guerra, incluindo carne com espaguete ao molho de tomate, presunto picado, ovos e batatas, carne com macarrão, carne de porco com feijão, presunto com feijão-lima e frango com legumes. Além dos pratos principais, chocolates, doces, chicletes, biscoitos e cigarros também foram inclusos.
As três refeições (seis latas) forneciam cerca de 3.700 calorias ao soldado. As rações podiam ser ingeridas frias, mas apresentavam melhor sabor quando cozidas. A principal vantagem desse modelo era a durabilidade, pois as latas podiam permanecer armazenadas por anos, sem sofrerem deterioração.1



Componentes da Ração “C”
Unidade “M” – Prato principal enlatado
Podia conter:
- Carne com feijão;
- Carne com legumes;
- Picadinho de carne;
- Ensopado bovino;
- Presunto e ovos;
- Carne com macarrão.
Unidade “B” – Pão e sobremesa
Incluía:
- Biscoitos;
- Café;
- Açúcar;
- Chocolate;
- Balas;
- Chicletes;
- Sal;
- Cigarros.
Como Era Consumida
Embora pudesse ser ingerida fria, os soldados preferiam aquecê-la. Era comum improvisar pequenos fogareiros ou simplesmente colocar a lata próxima ao fogo. Os veteranos frequentemente descrevem a Ração “C” como mais saborosa que a Ração “K”, embora bem mais pesada para o transporte.

3. Ração “D”: O Chocolate de Emergência
Poucos alimentos militares ficaram tão famosos quanto a Ração “D“. Tratava-se de uma barra de chocolate criada especialmente para situações extremas. O Exército dos EUA estabeleceu requisitos curiosos para as suas especificações:
- Alta concentração calórica;
- Resistência ao calor;
- Fácil transporte;
- Sabor amargo.
A última exigência era intencional, pois os estrategistas militares não queriam que os soldados consumissem a barra como se fosse guloseima.

Ingredientes da Ração “D”
Sua composição incluía:
- Chocolate amargo;
- Açúcar;
- Farinha de aveia;
- Gordura de cacau;
- Leite em pó.
Cada barra fornecia cerca de 600 calorias, e sua textura era extremamente dura, exigindo mastigação vigorosa ou o corte em pequenos pedaços a serem dissolvidos — de forma proposital — lentamente na boca.
Tropical Bar: O Chocolate para Climas Quentes
Posteriormente surgiu a chamada Tropical Bar. Ela possuía composição semelhante à Ração “D”, mas resistia melhor ao calor. Embora a FEB atuasse principalmente em clima temperado e frio, esse produto também circulou pelos estoques Aliados.

4. Ração de Montanha

A Ração de Montanha do Exército dos EUA na Segunda Guerra Mundial era uma ração de campo especializada e hipercalórica (4.800 kcal), projetada para tropas que operavam em ambientes alpinos e de frio extremo. Testada pela primeira vez em 1942, era embalada em caixas para alimentar quatro homens por um dia, mas acabou sendo descontinuada em 1943, devido ao seu alto custo e porções excessivamente generosas. As versões privilegiavam:
- Baixo peso;
- Alto valor energético;
- Facilidade de transporte.
Os alimentos eram mais concentrados e frequentemente incluíam:
- Chocolate;
- Frutas secas;
- Biscoitos;
- Sopas desidratadas;
- Café.
5. Ração “10-em-1”

Conforme a guerra avançou, os americanos criaram a chamada “10-in-1 Ration“, projetada para alimentar dez homens durante aproximadamente um dia. Ganhou a simpatia das tropas devido à sua maior variedade de alimentos.
Em 1943, havia dois protótipos de Ração “10 em 1”. O primeiro fornecia instruções para preparar e consumir três refeições em conjunto. O outro protótipo substituía o almoço coletivo por uma unidade de Ração “K” individual. A Ração “10 em 1” utilizava uma unidade de Ração “K” para cada refeição do meio-dia e oferecia três opções de cardápio diferentes.
Este protótipo foi escolhido como ração de combate devido à praticidade da caixa individual para a refeição do meio-dia. Cinco opções de cardápio eram oferecidas em vez de duas, exigindo, portanto, maior variedade na refeição do meio-dia. Para 10 homens, a ração já incluía alguns itens como cigarros e papel higiênico, sendo desnecessário incluir esses itens nas unidades de Ração “K”.

Conteúdo da Ração “10-em-1”
Pratos principais
- Carne bovina;
- Presunto;
- Peru;
- Salsichas;
- Ensopados.
Acompanhamentos
- Batatas;
- Cenouras;
- Feijão;
- Macarrão.
Sobremesas
- Pudins;
- Frutas em conserva;
- Biscoitos doces.
Bebidas
- Café;
- Chá;
- Limonada.
6. Ração “B”: Refeições Preparadas

A chamada Ração “B” não era uma ração de emergência, mas utilizada apenas nas cozinhas de campanha, pois os seus ingredientes eram perecíveis ou semiperecíveis. Entre eles havia:
- Carne fresca;
- Ovos;
- Batatas;
- Legumes;
- Pães;
- Leite.
Os cozinheiros militares transformavam esses ingredientes em refeições completas quando as condições permitiam. Era a alimentação preferida dos pracinhas.

7. Ração “A”: O Sonho do Soldado
A melhor alimentação disponível era a Ração “A“, pois utilizava alimentos frescos, praticamente iguais aos consumidos em tempos de paz. Seu cardápio incluía:
- Carnes frescas;
- Frutas;
- Verduras;
- Leite;
- Pão fresco;
- Sobremesas.
Naturalmente, era difícil fornecê-la próximo às linhas de frente. Mesmo assim, bases mais estáveis conseguiam prepará-la periodicamente.
Café: Companheiro Indispensável dos Pracinhas
O café era presença indispensável nas rações. Para os brasileiros, acostumados ao consumo diário da bebida, grande quantidade adicional foi remetida do Brasil. Isso representava um importante fator de conforto psicológico. Muitos veteranos relatariam décadas depois que um copo de café quente ajudava a enfrentar:
- O frio intenso;
- A exaustão;
- A saudade de casa.
A “Loira Ruim”
Algo que hoje parece estranho era considerado normal na década de 1940. Diversas rações continham cigarros de marcas famosas distribuídas regularmente, tais como:
- Camel;
- Chesterfield;
- Lucky Strike;
Na época, antes da vigência do “politicamente correto”, o cigarro era visto como forma de aliviar o estresse e de elevar o estado moral da tropa. Do Brasil veio a marca de cigarro Yolanda, que não teve boa aceitação na Itália. Nem os pracinhas e nem os italianos a apreciavam, apelidando-a de Bionda Cativa (Loira ruim).

As Reações dos Pracinhas
As opiniões sobre as rações variavam entre os pracinhas. Alguns soldados apreciavam a praticidade e a fartura em comparação às condições encontradas por exércitos de outros países. Outros reclamavam da repetição dos cardápios adaptados à cozinha americana. As críticas mais comuns envolviam:
- Monotonia alimentar;
- Excesso de conservas;
- Falta de alimentos frescos;
- Peso das latas;
- Alimentos com tempero adocicado.
São muitos os relatos de trocas das rações americanas com os camponeses italianos, seja para obter-se refeições locais, seja para que o paladar da comida fosse melhorado pelo tempero das cozinheiras. Mesmo assim, o sistema logístico norte-americano garantiu que a FEB jamais enfrentasse crises graves de abastecimento. O soldado brasileiro foi exemplarmente alimentado durante todo o conflito. “Nunca uma tropa brasileira foi tão bem alimentada, em qualidade e quantidade, como os componentes da Força Expedicionária Brasileira”, declarou o general Senna Campos em suas memórias.
Muito Além da Comida
As rações de campanha da FEB representam muito mais do que simples alimentos. Elas contam uma história de logística, tecnologia, ciência da nutrição e adaptação humana em circunstâncias extremas. Fala-se muito nos avanços tecnológicos da indústria bélica, esquecendo-se da célebre frase atribuída a Napoleão Bonaparte: “Os exércitos marcham sobre os seus estômagos”.
Cada lata aberta, cada pacote preservado e cada barra de chocolate encontrada hoje funciona como uma verdadeira cápsula do tempo da Segunda Guerra Mundial. Ao observar esses itens, podemos compreender melhor a rotina dos brasileiros que enfrentaram o inverno italiano, os bombardeios e os combates contra as forças do Eixo.
Enquanto os grandes feitos militares costumam ocupar as manchetes da História, as rações nos lembram que a guerra também era feita de pequenos gestos cotidianos: um café quente, uma lata de ensopado compartilhada entre companheiros e uma refeição rápida antes de seguir para a próxima missão.
E foi graças a esses alimentos aparentemente simples que milhares de pracinhas encontraram a energia necessária para cumprir sua missão e escrever uma das páginas mais importantes da história militar brasileira.
Cápsula do Tempo
Você certamente já ouviu falar das famosas rações de campanha consumidas pelos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez tenha escutado histórias contadas por pais, avós ou veteranos sobre a alimentação dos soldados brasileiros na Itália. Mas você já se perguntou:
➡️ Como eram essas rações por dentro?
▶️ Que tipo de alimentos elas continham?
➡️ De que forma eram preparadas?
▶️ Qual era o sabor dos alimentos?
➡️ E, mais impressionante ainda: como estará uma dessas rações aberta após 81 anos?
No Memorial da FEB, você poderá acompanhar a abertura de uma verdadeira cápsula do tempo da Segunda Guerra Mundial.
Em um vídeo especial, com quase 40 min de duração, rações de campanha autênticas da época da guerra são abertas e examinadas em detalhes. Cada embalagem, cada item e cada alimento revelam aspectos fascinantes do cotidiano dos soldados brasileiros.
O resultado é surpreendente e oferece uma rara oportunidade de conhecer como os pracinhas manuseavam o suprimento que os mantinham alimentados durante a maior guerra da História.
Se você é apaixonado pela história da FEB, ou simplesmente tem curiosidade sobre a vida dos combatentes brasileiros, este é um vídeo que não pode deixar de assistir. Você teria coragem de provar uma ração de combate produzida durante a Segunda Guerra Mundial?
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Vídeo disponível aos apoiadores (assinantes pagos) ao final da postagem.
Fontes
— Aguinaldo José Senna Campos, Com a FEB na Itália: páginas do meu diário, Rio de Janeiro, Imprensa do Exército, 1970.
— https://hero-rations.com/products/wwii-c-ration-individual-and-replacement-items
— https://warfarehistorynetwork.com/article/k-rations-created-the-worlds-best-fed-army/
— http://www.usarmymodels.com/ARTICLES/Rations/crations.html
— Flanagan, Jr., Lt. Gen. E.M., “Angels at Dawn: The Los Banos Raid”
— Army Quartermaster Foundation, “Army Operational Rations”
— Joint Base San Antonio, “More Than A Full Stomach: Nutrition and the Field Ration”
—US Department of Defense, “‘C Rats’ Fueled Troops During and After World War II”
— Smithsonian Magazine, “When Hershey’s Crafted a Special Treat for the Troops”
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O vídeo que abre a cápsula do tempo é de autoria de Steven Thomas, conhecido online como Steve1989MREInfo. Trata-se de um YouTuber americano e comentarista de história militar no canal https://www.youtube.com/@Steve1989MRE com mais de dois milhões de inscritos.
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