
Medo, incerteza e patriotismo: o estado moral dos soldados brasileiros antes da guerra
Quando o contingente brasileiro começou a ser preparado para a guerra, havia uma questão que não podia ser respondida apenas com armas, uniformes ou treinamento militar: estavam aqueles homens psicologicamente preparados para combater?
Em novembro de 1943, o psiquiatra civil Dr. Mirandolino Caldas, da Diretoria de Saúde do Exército, elaborou um relatório secreto sobre o estado moral dos soldados incorporados. O documento oferece um raro retrato do que se passava na mente do contingente. Mirandolino identificou três grupos distintos entre os convocados. O primeiro era formado pelos que aceitavam a missão com disposição:
“Há o grupo que está satisfeito em servir a Pátria para o que der e vier.”
O segundo — e, segundo o médico, o maior deles — vivia um intenso conflito interior. De um lado, estavam o instinto de conservação, o medo e o individualismo; de outro, o amor-próprio, o patriotismo e o sentimento de honra e dignidade. Era, em essência, uma batalha entre o desejo natural de sobreviver e a disposição de cumprir o dever.
Havia ainda um terceiro grupo, felizmente menor, no qual o medo havia vencido. Seus integrantes demonstravam abertamente o desagrado pela convocação e uma forte repulsa pela guerra. Para Mirandolino, não seria possível esperar deles grandes feitos caso fossem obrigados a marchar para o campo de batalha.¹
Mas o diagnóstico do psiquiatra era ainda mais preocupante. Sem revelar os percentuais correspondentes a cada grupo, Mirandolino concluiu que grande parte da tropa examinada ainda não possuía preparo psicológico adequado. Em suas palavras, havia “muito desespero, muita má vontade, muita indecisão”.² E havia algo ainda mais elementar: muitos sequer compreendiam por que o Brasil estava em guerra.
“Fui convocado”
Segundo o relatório, cerca de metade dos soldados examinados não soube responder se o Brasil tinha ou não motivos para participar do conflito. Alguns simplesmente diziam que, se o governo havia declarado guerra, então deveria ter suas razões — embora não soubessem explicar quais eram.² Tal percepção também aparece nas memórias de Boris Schnaiderman, um sargento de Artilharia que posteriormente resumiria de maneira contundente o sentimento de muitos de seus companheiros:
“A maioria dos soldados não tinha nenhuma vontade de lutar e não entendia por que estava ali.”
Schnaiderman acrescentou:
“Democracia e Liberdade eram palavras com sentido diverso em minha boca e nos ouvidos dos meus companheiros.”³

Esse estado de espírito, porém, não era uma peculiaridade brasileira. Até os Estados Unidos enfrentavam problema semelhante. Uma pesquisa realizada no US Army durante o verão de 1943 concluiu que muitos soldados americanos também não tinham uma compreensão clara daquilo que estavam combatendo — nem de seu próprio papel na guerra.
Outra pesquisa revelou que mais de um terço dos militares jamais havia ouvido falar das “Quatro Liberdades” defendidas por Franklin Roosevelt. Apenas um em cada dez soldados era capaz de mencionar todas elas. Em julho daquele ano, o general Dwight D. Eisenhower chegou a advertir, em uma carta secreta aos comandantes subordinados, que menos da metade dos soldados acreditava ser mais útil à nação como militar do que teria sido trabalhando na indústria de guerra. Menos de um terço se dizia preparado e ansioso para entrar em combate.⁴
Talvez nenhuma frase tenha resumido melhor aquela realidade do que a redação vencedora de um concurso literário realizado entre os soldados americanos, cujo tema era Why I’m Fighting — “Por que estou lutando?”
A resposta foi curta e desconcertante:
“Fui convocado.”
A guerra começa antes do campo de batalha
É importante compreender esse contexto para avaliar corretamente a trajetória da FEB. Os homens que desembarcariam na Itália em 1944 não chegaram ao front como combatentes prontos, motivados e psicologicamente moldados para a guerra. Muitos eram jovens arrancados de suas famílias e de suas atividades civis, enviados para um conflito que, até pouco tempo antes, parecia distante e abstrato.
Os pracinhas descobriram no campo de batalha aquilo que nenhum relatório psiquiátrico poderia prever: a capacidade de transformar medo em coragem e obrigação em dever. A jornada da FEB, portanto, não começou apenas quando seus soldados desembarcaram em Nápoles ou quando enfrentaram o Exército alemão nos Apeninos.
Ela começa muito antes — dentro da cabeça e do coração de cada homem convocado.
E talvez essa seja uma das dimensões menos conhecidas da epopeia da Força Expedicionária Brasileira: antes de vencer o inimigo, o pracinha precisou vencer a si próprio.
Notas
1. CALDAS, Mirandolino. Relatório sobre o estado moral e psicológico do contingente incorporado, novembro de 1943, pp. 14-15.
2. Ibid., pp. 19-20.
3. SCHNAIDERMAN, Boris. “Memórias de um ex-combatente”. Pesquisa FAPESP.
4. ATKINSON, Rick, Day of Battle, p. 36.




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