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Primeiro Tenente José Gonçalves
José Gonçalves no Rio de Janeiro (1944), pouco antes de embarcar para a Itália (foto cedida por Cesar Campiani Maximiano e colorizada por IA).

O texto a seguir é um excerto do livro Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Trata do tenente José Gonçalves e do seu pelotão — de homens unidos por fortes laços de fraternidade. Gonçalves reuniu a tropa para uma fotografia histórica que, além do valor documental raro, eternizou o conceito de “espírito de corpo” dos expedicionários, no qual o companheirismo, a disciplina e o sacrifício coletivo são essenciais. A fotografia do pelotão em Camaiore tornou-se um poderoso símbolo humano da experiência da FEB na Segunda Guerra Mundial, preservando a memória de homens transformados pela guerra e unidos por laços comparáveis aos de sangue.


Reunião em Camaiore

O I Batalhão do 6º RI concentrou-se por completo em Camaiore a partir de 8 de outubro. Converteu-se na reserva do IV Corpo, pronto para intervir em qualquer emergência na faixa litorânea, pois a Task Force 92 enfrentava dificuldades — sinal de que os expedicionários mostraram-se dignos de confiança perante o escalão superior.

José Gonçalves aproveitou merecidos dias de descanso, passadas semanas de intensa atividade. Aos 32 anos, gozava da fama de “o mais experiente do pelotão”, já que a maioria dos seus sargentos, cabos e soldados tinha menos de 25. Era um dos raros tenentes com vivência anterior de combate, que participara da Revolução de 1932 como 2º sargento de Infantaria, à frente de um pelotão de fuzileiros. Menino paulista de origem humilde, não realizou o sonho de ingressar na Escola Militar do Realengo. Certa vez, foi excluído do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva por não ter condições de comprar o uniforme de gala para os desfiles Segundo suas próprias palavras, era “um jovem motivado pelo desejo que sempre teve de servir ao País através do Exército”.1

O oficial fez jus ao curto nome de batismo; nome e sobrenome pequenos, como sua estatura, simples como os seus hábitos, mas de profundas e milenares raízes ancestrais. “José” provém do verbo hebraico yasaph (adicionar), daí Yoseph: “que Ele [Deus] adicione filhos”, ou “aumenta-me a família, Deus”. “Gonçalves” deriva do patronímico “filho de Gonçalo”, com raiz no germânico Günther (guerreiro de batalha), que chegou ao latim sob a forma de Gundisalvus e evoluiu para Gonçalo em português.2

História eternizada

 Em um 12 de outubro ensolarado, Gonçalves mandou reunir a tropa na varanda de uma residência, a fim de posarem para uma fotografia. Os detalhes desse evento são passíveis de reprodução graças ao seu hábito de confidenciar a rotina a um diário. Manteve o elo com sua individualidade por meio da caligrafia esmerada, impressa no pequeno caderno em espiral: um psicólogo inanimado. Fez uso de medida profilática de sanidade mental, em meio à guerra que despersonaliza o indivíduo, desconecta-o do calendário e da própria identidade, e reduz a passagem do tempo a dias iguais — terrivelmente iguais. Agiu bem ao decidir registrar aquele instante, pois não haveria futura oportunidade de fazê-lo com o efetivo completo.

O fotógrafo apertou o botão do disparador, que acionou o diafragma da câmera. Bastou a piscadela de um milésimo de segundo para que uma réstia varasse a escuridão da caixa do aparelho, imprimindo no rolo de nitrato de celulose aquele momento único. Produziu um instantâneo de várias camadas interpretativas, visíveis de acordo com a experiência e a sensibilidade do espectador A primeira dessas camadas exibe a qualidade técnica do registro, com nitidez muito superior à média das imagens obtidas durante a campanha. Gonçalves zelou por esse tesouro durante décadas, salvando-o das traças, de fungos e do contato indevido dos menos caprichosos.

sprit de corps

Grande quinhão da iconografia febiana provém de origem furtiva, haja vista a proibição regulamentar. Os expedicionários levaram escondidas câmeras amadoras particulares, que, embora de operação simples, exigiam certo grau de conhecimento técnico e habilidade no manuseio. Em geral, o negativo resultante tinha baixa qualidade. Já os retratistas oficiais, com melhores equipamentos, sequer tiveram permissão de registrar cenas do Porto de Nápoles por conta da censura. Visitavam o front somente com autorização superior e, ainda assim, cercados de cuidados, já que a morte de um deles causaria pequena tragédia diante da opinião pública no Brasil. Gonçalves teve sorte ao encontrar um bom profissional civil na modesta e bombardeada Camaiore, dotado de filmes de difícil obtenção em tempos de guerra.

Numa segunda camada, avulta a apresentação individual e a organização. Todos estão barbeados, uniformizados, armados e equipados com correção, cuidadosamente distribuídos no espaço restrito, decerto por orientação do civil italiano. A sensação é de disciplina. Os atiradores de fuzis-metralhadora trouxeram suas armas, colocadas em destaque: troféus do orgulhoso time campeão. Alguns soldados usam cinturões de munição cruzados diante do peito, tal qual faixas ou medalhas; outros exibem granadas de morteiro. Exalam o que a terminologia militar francesa chama de sprit de corps (espírito de corpo).

Pelotão de José Gonçalves
O pelotão de José Gonçalves em Camaiore (foto cedida por Cesar Campiani Maximiano e colorizada por IA).

Saudade do lar

Outras companhias do Batalhão Gross aproveitaram os serviços do mesmo profissional, no entanto, talvez este seja o único registro visual de um pelotão do Destacamento FEB com efetivo quase completo na Toscana — verdadeira raridade. Eram tempos de fotografias que exigiam formalidade análoga à dos atuais retratos para documentos, pois os filmes antigos requeriam longas e estáticas poses para evitar borrões, devido ao maior período de exposição necessário.

Dado o alto custo do serviço, muitos completavam a jornada terrestre sem jamais obterem a própria fisionomia impressa. Na coletânea Expedicionários Sacrificados na Campanha da Itália, por exemplo, dos 443 febianos biografados, 92 deles não tiveram uma única imagem que os identificasse. Inexiste a descontração costumeira vista nos instantâneos em grupo colhidos na caserna. Na primeira fileira, um dos fuzileiros esboça sorriso juvenil, em contraste às outras 40 almas de fisionomia séria. “Como se vê pelas ‘belas’ caras que apresentamos, além do aspecto belicoso, os alemães outra alternativa não têm senão correr… E é exatamente o que têm feito ultimamente”, escreveu Gonçalves à esposa. A terceira camada revela o ar de maturidade generalizado, quase solene. Antes de chegarem à Itália, aqueles moços só conheciam a guerra romântica das películas de Hollywood. Agora não mais. A inocência os deixara para sempre.

Dois deles têm o olhar — e, quem sabe, o pensamento — distante, decerto no lar. Houve festa em 18 de agosto, momento em que receberam o primeiro malote de correspondências do Brasil. “É impossível descrever o efeito que causa uma simples cartinha na alma de quem durante tanto tempo esteve sem notícias dos entes queridos A satisfação é indescritível e não há palavras que exprimam o que se passa dentro do ‘Eu’ de cada um”, lembrou o capitão Antorildo, que viu “muitos chefes de família, com lágrimas nos olhos, recordarem trechos mais interessantes das cartas”. Mães abençoavam os filhos, esposas enviavam votos de felicidade aos maridos, filhos pediam aos pais lembranças da campanha.3

Tenente e poeta

De forma contraditória, a distância fortaleceu o laço familiar, que concentrava lembranças, preces e até versos. Coincidência notável, a pose do efetivo aconteceu no mesmo dia em que o E a cobra fumou! (jornal do 6º RI) publicou o poema intitulado A prole da 1ª Cia: as derradeiras letras escritas pelo tenente Barbosa, o “vovô da 1ª Cia” (tinha 40 anos), que, dez dias a seguir, tombaria mortalmente atingido por um sniper germânico.4 A poesia singela descreve o dia a dia dos seis oficiais da sua subunidade, com inspiração no breve período em que dividiram a mesma barraca em Tarquinia:

Seis membros de uma família,

Numa barraca de lona

Moram com certo conforto,

Sem louça ter, nem mobília.

É uma família cuja

Curiosidade consiste

 no pai não ser o mais velho

 e a mãe, também não existe.

Tavares, Gonçalves, Félix,

Barbosa, Ignacio e Carrão,

São os membros da família,

Componentes da União. […]

A obrigação todos cumprem

fazendo promessas mil

Que a guerra logo termine

Para voltar ao Brasil.

Eis a pista para descobrir a camada interpretativa mais profunda dessa foto histórica. O poema do “vovô” Barbosa permite compreender o impulso que impeliu Túlio Campello a dedilhar uma melodia num piano, tendo em mente jovens como o soldado Wsoek, que falecera a seu lado mais de meio século antes. Ou, ainda, a entender por que a notícia da morte do tenente Pinto Duarte causou o choro em homens de diferentes companhias do I Batalhão — o tipo de pranto devido exclusivamente aos familiares.

“Matem os covardes”

A formalidade do ato proibia abraços entre adultos e até os sorrisos das crianças. Ainda assim, no contingente de Gonçalves há, discretamente, ombros colados e cotovelos que se apoiam em pernas alheias. A película com os 41 militares eternizou o quadro de uma família de guerreiros, cujos laços de compromisso mútuo pareciam tão sólidos quanto os sanguíneos da unidade familiar — e as razões são conhecidas. Vacilos individuais comprometiam a segurança coletiva, tal qual um inocente cochilo do sentinela no quarto de hora. A sobrevivência de cada um deles vinculava se ao correto desempenho funcional dos confrades fardados: seus irmãos de armas.

Lançando mão da sua típica profanidade verbal, Patton advertiu os efetivos americanos às vésperas do Dia D:

Um homem tem que estar alerta o tempo inteiro se esperar continuar respirando. Caso contrário, algum filho da puta alemão vai aparecer por trás dele e espancá-lo até a morte com uma meia cheia de merda [artefato improvisado e conhecido como blackjack: uma meia cheia de terra ou pedras]. Há 400 covas na Sicília só porque um homem dormiu no trabalho — mas elas são covas alemãs, porque nós pegamos o sacana dorminhoco antes do oficial dele! Um exército é um time. Vive, come, dorme e luta como um time. Esta coisa de herói individual é um monte de merda.

Os bilhões de sacanas que escrevem essa coisa para o Saturday Evening Post [revista semanal americana que publicava histórias de bravura e heroísmo] sabem tanto sobre combate de verdade quanto sobre trepar. E nós temos o melhor time — temos a melhor comida e o melhor equipamento, o melhor espírito e os melhores homens do mundo. Por isso, por Deus, verdadeiramente tenho pena desses pobres sacanas que vamos enfrentar. […] Cada homem deve pensar não apenas em si mesmo, mas nos companheiros lutando ao lado. Não queremos covardes cagões no Exército. Deveriam matá-los como moscas. Senão, vão voltar para casa depois da guerra, malditos covardes, e gerar mais covardes. Os bravos vão gerar mais bravos. Matem os covardes e teremos uma nação de homens bravos.5

Filhos guerreiros de batalha

O único militar ausente da composição em Camaiore revela outra faceta do grupo: a rusga característica das relações familiares. O soldado Armando Ferreira não participou da sessão, embravecido com o colega que tomara posse indevida da sua bazooka de estimação. Admirado e respeitado pelos companheiros, Ferreira era ciumento.

Até crianças se juntaram à parentela de farda. Dois garotos italianos agregados aparecem na cena, de gorro e cartucheiras. Um deles está na extremidade esquerda, no limite do enquadramento; o outro está sentado à sombra, de pernas encolhidas e pouco visível. O pelotão adotou-os como mascotes, porquanto cismavam em gravitar em torno dos soldados — hábito frequente nos meninos desgarrados em tempos de guerra. Mais do que o usufruto da comida do rancho, as armas, a disciplina e os uniformes os fascinaram, visto que o comportamento másculo, indispensável nas aventuras, perigos e lutas, naturalmente deslumbra e inspira os guris. Ensaiou-se choradeira geral logo que os brasileiros tiveram de sair de Camaiore para ocupar novo setor, pois os dois meninos não se conformaram em se separar da tropa. Quem iria censurá-los? Talvez só lhes restasse essa família.

José Gonçalves adotou muitos jovens: filhos guerreiros de batalha

Avaliação: 5 de 5.

1. José Gonçalves e Cesar Campiani Maximiano, Irmãos de Armas, p. 16.

2. Disponível em: https://sobrenomes.genera.com.br/sobrenomes/goncalves-gonzalez-gonzalo/. Acesso em: 10 ago. 2023.

3. Antorildo Silveira, O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionário, p. 47.

4. José Gonçalves e Cesar Campiani Maximiano, op. cit., p. 71.

5. Terry Brighton, Mestres da Batalha, pp. 287-288.

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