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A Força Expedicionária Brasileira (FEB) teve muitos jogadores famosos compondo o seu efetivo. Contudo, houve um único pracinha convocado tanto para lutar na Segunda Guerra Mundial quanto para jogar pela Seleção Brasileira de Futebol numa Copa do Mundo: José Peracio Berjun, craque do time nacional na Copa de 1938. Peracio ajudou o Brasil a conquistar um inédito 3º lugar na competição realizada na Itália. Retornou à Europa em 1944, agora vestindo a farda de expedicionário.

O texto a seguir é um extrato adaptado do livro Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira.

O pracinha da seleção brasileira
José Peracio Berjun: o pracinha que integrou a Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1938 (foto colorizada do Arquivo Nacional).

No comboio do 1º Escalão da FEB, em seu trajeto para a Itália, estava José Peracio Berjun, grande nome do futebol brasileiro que defendeu as camisas do Botafogo e do Flamengo. O jornal E a Cobra Fumou reproduziu seu suposto depoimento:

Esta é terceira vez que passo o Equador. Nas duas primeiras eu tive a honra de representar o Brasil como jogador de futebol. Hoje cruzo o Equador como muitos outros brasileiros para cumprir uma missão sagrada: defender nossa dignidade como povo independente. Nossa missão como soldados é, sem dúvida, muito mais gloriosa, por ser em defesa dos ideais de liberdade e democracia e, por isso mesmo, posso afirmar que saberemos cumpri-la. A maior honra que o Brasil pode legar aos seus filhos é a de serem defensores de suas tradições históricas de honra e liberdade. Sinto-me feliz por ser um soldado da FEB. Eu já bombardeei italianos fascistas com bola; agora vou bombardear com bala.

José Peracio SEGUNDA Guerra Mundial FEB

A senhora é uma “príncipa”!

O discurso bonito jamais viria do boleiro ingênuo e simplório, que mal sabia assinar o próprio nome. O jornalista Mario Filho considerava impossível escrever acerca do mineiro de Nova Lima sem colocar o humor à frente da bola, como na anedota que eternizou, na qual José Peracio conta vantagem de sua experiência militar à filha de um cartola rubro-negro durante um jantar:

— A senhorita, com certeza, já viu um submarino em cinema. Eu, até ir para Recife, cheguei a pensar que submarino era coisa de cinema e mais nada. Pois eu vi um submarino de carne e osso.
A senhorita achou encantador aquilo de submarino de carne e osso.
— Como o senhor é interessante.
Peracio animou-se:
— E a senhorita não imagina: eu entrei num submarino. O submarino, aí, mergulhou.
— E que aconteceu? — perguntou a senhorita, cada vez mais interessada:
— O que aconteceu? Eu quase morri “asquificiado”.
A senhorita ficou vermelha, como se tivesse ouvido uma palavra feia, mas Peracio não percebeu e continuou narrando suas impressões:
— Ah! A senhorita não pode imaginar o que é a gente sentir-se “asquificiado”.
A jovem não corou mais. Já se acostumara à pronúncia de Peracio, que baixou a cabeça, passou o queixo pelo laço da gravata, uma, duas vezes, sacudiu os braços. A senhorita repetiu:
— Eu estou encantada.
Peracio, aí, não se conteve mais:
— A senhorita é uma “príncipa”.

José Peracio Berjun Segunda Guerra Mundial

Craque e falastrão

Flávio Costa, seu técnico no Flamengo, disse que o craque da seleção brasileira foi lutar na Segunda Guerra porque falava demais: “Conversamos com o Dutra [Ministro da Guerra e flamenguista doente], que prometeu que ia livrá-lo. Mas Peracio era falastrão, contou para todo mundo que não iria mais à guerra, e o governo teve de convocá-lo”.

Sem sucesso, o artilheiro ainda tentou evitar o embarque, alegando dores de uma suposta apendicite. À semelhança de outros futebolistas famosos, ele ganhou vaga de motorista em um dos regimentos da Artilharia. “Ninguém se arriscaria a baixar o moral das tropas com a perda de um esportista. Eles eram mais úteis fora do front”, resumiu o tenente Luiz Paulino Bomfim.


Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Juiz de Fora, Insigth Books, 2024, pp. 242-243.

3 respostas a “Craque e falastrão: o pracinha da Seleção Brasileira”

  1. Avatar de Cel Edison Daniotti
    Cel Edison Daniotti

    Estou hoje com 94 anos e sou Ten Cel da reserva do EB e também sobrinho do falecido Zezé Moreira nosso treinador de futebol da Copa de 1954,perdida para a Alemanha,embora todos esperavam que fosse a Hungria ,de Puskas,a dita Campeã do mundo na época.Certa vêz tio Zezé me passou o seguinte;ele e Peracio jogavam no Esporte Clube Brasil no RJ e Peracio perguntou à Zezé se Sábado de Aleluia cairia na 2a feira porque Peracio estaria de serviço no quartel no sábado e teria compromissos no dia.

    1. Avatar de Durval Lourenço Pereira

      Que história bacana! Bem ao “estilo Peracio”. Grato pela contribuição!

  2. Avatar de cleprofhist
    cleprofhist

    MUITO INTERESSANTE!

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