Em julho de 1944, quando o USS General W. A. Mann cruzou o Estreito de Gibraltar, trazendo a bordo o 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) , Paul Sylvester Maguire, capitão do navio norte-americano, anunciou pelos alto-falantes de bordo: “Nossas duas nações, colonizadas e fortalecidas pelas civilizações europeias, são agora as do Hemisfério Ocidental mais engajadas na defesa do precioso legado de Liberdade e defesa dos Direitos Humanos — não apenas nas Américas, mas nos campos de batalha da Europa”.
Acredita-se que a tripulação do navio tenha se surpreendido com a tropa sul-americana que cruzava o Oceano Atlântico pela primeira vez.


“Silvícolas fardados”
J. W. McElroy (assinalado na foto a seguir), oficial-executivo do navio, escreveu um relato confidencial da viagem. O documento permaneceu mais de 80 anos incógnito, até ser divulgado pela 1ª vez no livro “Guerreiros da Província“:
Os brasileiros eram tropas acima da média. Eles eram asseados e ordeiros, sem o traço da usual indisciplina que encontramos ocasionalmente em nossas próprias tropas. […] Nunca tínhamos visto o navio tão limpo, nos decks superiores e inferiores, em tempo algum conduzindo tropas, como vimos enquanto os brasileiros estiveram a bordo. A maior parte dessas tropas, simples soldados rasos, eram ótimos, amigáveis, cooperativos e muito parecidos com os nossos próprios homens na aparência, já que são, obviamente, de todas as raças e origens nacionais.



Mas se a desconfiança em relação aos brasileiros caíra por terra na belonave da US Navy, um longo caminho ainda seria percorrido — com vasto repertório de mitos a serem derrubados no imaginário dos Aliados.
No início de 1943, um barbeiro da cidade de Oujda (Marrocos) contou ao tenente-coronel brasileiro Aurélio de Lira Tavaraes, seu cliente, a aposta que presenciara no seu salão entre dois oficiais, um americano e outro inglês: “Cada um puxando a brasa para sua sardinha, se o Brasil era uma colônia inglesa ou norte-americana. Em face da discussão — ‘como eu estava mais bem informado, pois sei que o Brasil é uma colônia americana, resolvi reforçar a aposta que os dois terminaram por fazer’ ”.
Um artigo da revista Yank (o principal veículo de imprensa do Exército dos EUA) retratou em outubro de 1944 os homens do 1º Escalão. Para o autor norte-americano, o pracinha assemelhava-se a um aborígene fardado, cujo porte “não corresponde à dura resistência física adquirida durante o treino nas selvas da sua pátria. Outros podem achá-las impenetráveis, mas ele treinou nelas. […] Há até casos em que os homens estão calçando sapatos regularmente pela primeira vez na vida. Muitos deles provém de territórios selvagens e sentem-se desconfortáveis com o [rifle] M1”.
Para o articulista da Revista Yank, os soldados brasileiros assemelhavam-se a sivícolas fardados.

“Língua solta”
Outra percepção enganosa dos estrangeiros diz respeito aos calçados nacionais. Os borzeguins da FEB, de fornecedores variados e com acabamento desigual, não resistiram a poucas semanas de uso contínuo. Para conseguirem marchar, alguns tiveram de cortar a “língua solta” em que se transformou o solado, inutilizando o calçado. De acordo com a descrição contraditória do responsável pela logística febiana, major Senna Campos, “Os borzeguins foram os melhores que conhecemos até hoje no Exército; são muito bons mesmo. Apenas o sistema de pregagem da sola é fraco; se não forem repregados, soltam na logo”.
Em outro trecho mais coerente, o major explica que as amostras remetidas ao Exército apresentaram boa confecção, “mas, quando o material é fornecido em quantidade, tudo é diferente, ainda mais quando o tempo é curto”. Ainda que contasse com uma seção de sapataria para reforçar os solados, o 1º Escalão esqueceu de trazer o item mais elementar: o prego. “Tivemos de esperar a remessa do Brasil e pedir que as novas partidas recebessem esse reforço em suaconfecção”. Inocente, o autor do mesmo artigo da Yank supôs que os rombos nos calçados fossem propositais: “não é incomum ver buracos abertos neles para dar liberdade a algum joanete problemático”.
Os pracinhas haveriam de conquistar o respeito dos seus aliados e inimigos no campo de batalha.
A reportagem completa da revista Yank, o Log Book do USS General Mann e o link de acesso ao relatório original de J. W. McElroy (disponível em Fold3.com) estão disponíveis nesta postagem apenas para os assinantes pagos.
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7 respostas a “A viagem do 1º Escalão da FEB para a Itália”
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[…] o documento sonoro preservou a narração captada em pleno cais do porto, durante o desembarque do 1º Escalão da FEB. Traz as impressões da equipe de reportagem sobre a recepção americana. O entrevistador (não […]
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Crônica simplesmente maravilhosa, mostra como os Oficiais Americanos pensavam, e entendiam que os Soldados brasileiros eram descendentes dos europeus; diferentemente dos argentinos, que dizem que somos descendentes da Selva.
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Perfeita a sua observação. Mas essa era uma visão particular da US Navy. Os outros ramos das Forças Armadas Aliadas tinham opiniões diversas.
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Sr.Durval agradeço sua observação, apenas relembrei uma graça feita pelo último presidente da Argentina: nós argentinos viemos de barco, os mexicanos vieram dos Índios, e os brasileiros vieram da selva.
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