
Durante décadas, consolidou-se a explicação de que a Força Expedicionária Brasileira (FEB) fora armada com os antigos fuzis M1903 Springfield porque a produção do moderno M1 Garand teria sido insuficiente para atender à demanda dos brasileiros. Entretanto, a documentação oficial dos arquivos norte-americanos revela um cenário diferente e bem mais complexo.
O M1 Garand representou uma verdadeira revolução tecnológica. Fora o primeiro fuzil semiautomático adotado em larga escala como armamento padrão de uma grande potência militar, permitindo ao combatente disparar oito tiros sucessivos sem retirar a mão do gatilho, permitindo manter-se a pontaria durante toda a sequência de disparos. Em comparação, o M1903 Springfield, de ação por ferrolho, exigia a ejeção manual da cápsula após cada disparo e utilizava um carregador de apenas cinco cartuchos.
A diferença entre os dois fuzis no campo de batalha era enorme, pois enquanto um soldado treinado conseguia efetuar mais de 50 disparos precisos por minuto com o Garand, contra aproximadamente 15 disparos por minuto com o Springfield. Na prática, um grupo de combate equipado com Garands detinha poder de fogo comparável a todo um pelotão armado apenas com fuzis de repetição.
A preocupação de Mascarenhas de Moraes
Quando a FEB iniciou seu processo de organização na Itália, em julho de 1944, o comando norte-americano iniciou a distribuição do material bélico aos brasileiros. Todavia, os ianques repassaram aos pracinhas os antigos fuzis Springfield M1903. Por isso, o Comandante da FEB, general João Baptista Mascarenhas de Moraes, recusou o recebimento dessas armas.
Em ofício enviado em 21 de julho de 1944 ao general David G. Barr, chefe de gabinete do NATOUSA, Mascarenhas argumentou que a organização da FEB era idêntica à das divisões americanas e que substituir o Garand pelo Springfield reduziria significativamente o poder de fogo da tropa, contrariando a própria estrutura prevista para a Divisão brasileira.
Numa guerra travada em terreno montanhoso, majoritariamente travada por pequenas frações de tropa — em que a superioridade das armas automáticas alemãs era um fato incontestável — a preocupação do general brasileiro mostrou-se plenamente justificada.
A alegação americana
Os oficiais norte-americanos apresentaram cinco justificativas para explicar a distribuição limitada dos Garand:
- muitas divisões americanas ainda utilizavam o Springfield;
- a produção do M1 seria insuficiente;
- as tropas que combatiam na Normandia tinham prioridade;
- o Garand aumentava consideravelmente o consumo de munição;
- tropas recém-formadas dificultavam o abastecimento logístico.
O problema é que a documentação oficial da época não confirma essas explicações, que foram assimiladas por alguns historiadores como verdadeiras.


O que dizem os documentos sobre os M1 Garand?
Relatórios periódicos do Mediterranean Theater of Operations, U.S. Army (MTOUSA) mostram que, naquele período, não havia escassez de armas individuais, já que as principais preocupações logísticas concentravam-se na falta de munição para:
- morteiros de 60 mm;
- obuseiros de 105 mm;
- canhões anticarro;
- metralhadoras pesadas calibre .50;
- artilharia antiaérea.
Ou seja, a limitação logística não estava nos fuzis individuais.
Além disso, a indústria norte-americana já havia superado as dificuldades iniciais de fabricação do Garand. A produção, que em 1937 era de apenas 10 fuzis por dia, alcançou:
- 700 unidades diárias em março de 1941;
- cerca de 4.600 unidades por dia em janeiro de 1944, em uma única fábrica.
Entre 1940 e 1945, foram produzidos aproximadamente 4 milhões de fuzis M1 Garand.
No último trimestre de 1943, a produção de armas portáteis norte-americanas já superava a demanda do conflito. A fabricação da Carabina M1, inclusive, tornou-se tão elevada que o próprio War Production Board determinou a suspensão da produção em algumas fábricas devido ao excesso de estoques.


Afinal, faltaram Garands para a FEB?
As evidências documentais indicam que as alegações norte-americanas eram falsas. Faltaram fuzis modernos para os expedicionários, mas não devido a restrições de ordem logística.
Embora tenham existido dificuldades de produção do M1 no início da guerra, quando a FEB foi organizada essas limitações já haviam sido superadas pelo sistema industrial dos EUA. A documentação oficial prova que a negativa em fornecer os Garands aos brasileiros (apenas 200 unidades foram entregues ao 1º Escalão) esteve relacionada, portanto, muito mais a decisões políticas de fornecimento do que a uma real incapacidade industrial dos Estados Unidos.
O episódio demonstra como a análise de documentos primários permite revisar interpretações tradicionais da história da FEB, revelando aspectos pouco conhecidos da cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.
Este artigo é um extrato adaptado do livro Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira, que aborda em detalhes as questões logísticas afetas à campanha febiana na Itália.




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