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O cidadão contemporâneo geralmente não faz ideia das dificuldades que envolveram a formação da Força Expedicionária Brasileira. Além dos empecilhos de ordem política, militar e econômica, inerentes a uma nação pobre como o Brasil dos anos 1940, imersa na ditadura do Estado Novo, havia outras questões de ordem psicossocial: o homem do interior — o Jeca Tatu — era visto com desprezo pela intelectualidade nacional.

O País se envolvera em um conflito externo pela última vez na Campanha da Tríplice Aliança, no longínquo século XIX. Agora o Exército nacional enfrentaria não o modesto Paraguai, mas a poderosa e experiente máquina de guerra alemã. O medo de um fracasso vergonhoso era palpável.

Naquela época, as teorias racialistas faziam enorme sucesso na Europa e nas Américas. Acreditava-se que certas raças tinham habilidades superiores: um mito abraçado pelo nazismo que também encontrava eco no Brasil. Os teóricos enxergavam a miscigenação racial como um “crime” contra a pureza racial, que enfraqueceria o poder combativo do soldado.

O contingente febiano, herdeiro da miscigenação racial característica do Exército Brasileiro, estava na contramão dos preceitos dessa teoria. Tal concepção estrangeira inspirou a criação de um estigma nacional que os pracinhas teriam de superar: o estereótipo do Jeca Tatu.

O Jeca Tatu foi um tipo comum entre os convocados para a Força Expedicionária Brasileira.
Mazzaropi imortalizou o personagem caipira no cinema (filme Jéca Tatú, de 1960).

Urupês

O jornalista Euclydes da Cunha, em sua magnífica obra Os Sertões (1902), criou a imagem do sertanejo bravo e resiliente, baseada em sua experiência como correspondente de guerra durante a Campanha de Canudos. No outro extremo, Monteiro Lobato retratou em Urupês (1918) o caboclo brasileiro de forma depreciativa: um “fazedor de desertos”. Essa visão fora baseada em seus problemas pessoais com os empregados da fazenda Buquira, no Vale do Paraíba (SP), que o autor herdou do avô em 1911.

Após desentendimentos com os roceiros, criou o personagem Jeca Tatu, definido a partir da sua natureza racial e genética: um caipira alcoólatra, pobre, doente, ignorante, papudo, feio, molenga e inerte, que morava numa casinha de sapê embrenhada no mato.

O racialismo influenciou a criação do personagem Jeca Tatu
Poster promotor da eugenia no regime nazista.
Jeca Tatu
Ilustração do Jeca Tatu no livro Jéca Tatuzinho (1924).
Torpa do 11º RI
Os integrantes do regimento mineiro possuíam majoritária origem rural.
Endereços de integrantes do 11º RI
Com base em fontes primárias do AHEx, pudemos estimar, com razoável precisão, o percentual de convocados para a FEB das zonas rurais e urbanas.

O Jeca Tatu vai à guerra

Os pracinhas da FEB, em sua maioria, vinham de pequenas localidades como Belmiro Braga, Guaxupé, Rio Novo, São João Nepomuceno e Santa Rita do Passa Quatro. Cresceram em fazendas e povoados com menos de cinco mil habitantes. A intelectualidade nas grandes cidades os estigmatizou com o estereótipo do caboclo criado por Lobato. Poucos acreditavam no sucesso desses sertanejos contra as temíveis hostes nazistas.

Nosso livro Guerreiros da Província, editado em comemoração aos 80 anos da Campanha da FEB, traz o testemunho de dezenas de expedicionários interioranos – gente humilde e costumeiramente desprezada por seus ricos e sofisticados conterrâneos do litoral e metrópoles. A obra reconstitui a verdadeira epopeia que transformou simples camponeses em soldados de plena capacidade combativa, elogiados até por membros de unidades de elite germânicas.

Mais do que uma narrativa original da jornada febiana, a obra oferece ao leitor um mergulho na alma da brava gente brasileira.

Avaliação: 5 de 5.

8 respostas a “O Jeca Tatu vai à Guerra”

  1. […] Em viagem pelo sul de Minas Gerais, o observador atento percebe um detalhe presente em muitas das modestas cidades que pontilham essa bela região: a homenagem aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Seja por meio de estátuas, placas ou outros tipos de memoriais, tais municípios preservam com orgulho a lembrança da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Eis o lar do soldado provinciano. […]

  2. […] vigário, que geralmente dirigiam o famoso Ford “bigode”, modelo 1929. “Havia seis carros em São João Nepomuceno, no máximo. Hoje dizem que o Brasil é pobre; pobre era naquele tempo. Quase ninguém tinha […]

  3. […] praça”. Entretanto, na cultura nacional do início dos anos 1940, utilizava-se a palavra “pracinha” — única e exclusivamente — para designar um espaço de lazer público de pequena […]

  4. […] III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria ocupava um casarão externo ao regimento, próximo ao córrego do Lenheiro, que corta a cidade. Ao […]

  5. […] soldado Antonio de Padua Inhan (Toninho), da 9ª Cia do 11º Regimento de Infantaria, completou 19 anos em alto-mar, a bordo do USS General M. C. Meigs, durante a viagem do 3º […]

  6. […] 2º tenente Ary Rauen, oficial comandante do 2º pelotão pertencente à 1ª Cia do I Batalhão do 11º Regimento de Infantaria. “Voluntário de origem tedesca que deu a vida para a liberdade e a democracia da […]

  7. […] racial na tropa – militares da cidade de Conselheiro Lafaiete (MG) no 11º RI, em São João del-Rey (Foto cedida gentilmente por Maurício […]

  8. Avatar de Antonio Morales
    Antonio Morales

    Já mostra a realidade das guerras modernas, quantos filhos de abastados iam para a frente de combate? Quantos estavam nos veículos anfíbios no dia D desembarcando para uma morte certa? Diferente da tal “idade das trevas” onde os reis lideravam pessoalmente os soldados no campo de batalha.

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