
Segunda Guerra: Participação dos Pracinhas foi considerada ‘dor de cabeça’ pelos Aliados
Tropas brasileiras que participaram da Segunda Guerra Mundial foram tratadas de forma estereotipada pelos Aliados e pelas forças do Eixo
Por Fabio Previdelli
Na manhã de 16 de julho de 1944, os primeiros soldados pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcaram no porto de Nápoles, na Itália, para entrar na Segunda Guerra Mundial. Um fotógrafo inglês registrou o momento: “Tropas de nativos estavam entre as forças brasileiras”, dizia a descrição da emblemática imagem que focava alguns homens negros e mulatos.
“Atenção! Soldados do Terceiro Reich. Acaba de desembarcar em Nápoles um exército de sifilíticos”, espalhou a Rádio de Berlim. “Os brasileiros vêm aí. São negros que andam nus, usam argolas no nariz, nas orelhas e comem crianças vivas”, espalhou a propaganda racista do Terceiro Reich.
Àquela altura, poucos confiavam na força combativa dos bravos brasileiros, que eram tratados pelo estereótipo de “Jeca Tatu”. Como eles seriam capazes de derrotar as poderosas tropas arianas de Adolf Hitler?
A jornada da FEB na Segunda Guerra Mundial é detalhada pelo escritor Durval Lourenço Pereira, tenente-coronel R1 do Exército Brasileiro, em “Guerreiros da Província: A Jornada Épica da Força Expedicionária Brasileira“ (Insight Books).
Durante entrevista à revista Aventuras na História, Durval detalha que a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial envolve uma complexa teia de questões políticas, diplomáticas e militares — muitas das quais reduzidas a clichês e concepções enganosas.
“Na verdade, o Brasil foi levado à guerra”, aponta.
O Brasil na Guerra
Muitos tratam os ataques de submarinos no litoral do Nordeste como o único fator que levou o governo brasileiro a declarar guerra às forças do Eixo. Mas o pesquisador defende que esse episódio foi apenas o “estopim” para a participação do país no conflito.
Segundo Durval Lourenço Pereira:
“A busca pelas origens remotas da entrada brasileira na Segunda Guerra nos leva ao 1º semestre de 1941, quando o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt enviou seu filho (o capitão Roosevelt) ao Teatro de Operações do Mediterrâneo. Em seu QG no Egito, o marechal inglês Arthur William Tedder recebeu uma generosa oferta de apoio aéreo por parte de Washington, que propôs o envio de aeronaves e suprimentos ao VIII Exército britânico por uma rota inovadora, que passava pelo Caribe e a América do Sul, chegando ao Egito pelo interior do continente africano, após atravessar a ‘Ponte do Atlântico Sul’.”
Tal trajeto incluía escalas por cidades brasileiras como Belém e Natal, mas adentrá-las iria contra a soberania nacional.
“Conforme as leis internacionais, a autorização para a passagem de material bélico em apoio a um dos países em conflito (fosse por meio aéreo, terrestre ou naval) transformava a nação que a permitisse, automaticamente, em um Estado beligerante.”
Lourenço Pereira aponta que, ao contrário do que a historiografia sugere, as bases americanas em solo brasileiro não visavam proteger o continente de uma possível invasão nazista.
“O suporte à logística e à estratégia de guerra anglo-americana foi o objetivo central da ‘Ponte do Atlântico Sul’ — talvez o único.”
E acrescenta:
“Todas as ações subsequentes que envolveram a participação bélica do Brasil derivam desta questão primordial.”
Segundo o autor, durante o governo de Getúlio Vargas, o presidente buscou apoio de Washington para fortalecer sua permanência no poder.
“Ele agiu furtivamente, por meio de seus assessores diretos, afilhados políticos, militares leais, jornalistas e empresários cooptados, em uma série de manobras escusas.”
Além disso:
“Os governos britânico e norte-americano, por meio de operações false-flag conduzidas por agências de espionagem como o MI-6 e o OSS (agência precursora da CIA), também influenciaram decisivamente para motivar a decisão brasileira, por meio de ações — até hoje pouco conhecidas ou incógnitas — capazes de inspirar a produção de vários livros e filmes.”

Sob o olhar dos Aliados
Durval Lourenço Pereira também destaca outro ponto frequentemente tratado de forma equivocada: como os Aliados enxergavam a participação do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial.
Segundo ele, durante o Estado Novo, a imprensa brasileira era submetida à forte censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
“Bastava a um jornal publicar uma opinião divergente ou negativa acerca da conduta do governo, para que lhe fosse negada a aquisição das bobinas de papel destinadas à impressão. Isso significava a falência do periódico.”
Como consequência, a narrativa oficial passou a se apoiar fortemente na documentação produzida por autoridades norte-americanas, que interpretavam a defesa da neutralidade brasileira como simpatia ao Eixo.
“Essa concepção enganosa gerou o popular e tosco ‘Fla-Flu’ ideológico, geralmente utilizado para explicar esse período: o embate de americanófilos versus germanófilos.”
No campo militar, segundo o autor:
“Os Aliados não desejavam envolver as Forças Armadas nacionais em combates terrestres. O Brasil era um país subdesenvolvido, sem tradição militar recente ou indústria de material bélico, e com doutrina militar defasada (francesa).”
Como consequência:
“As tropas estrangeiras teriam de treinar, equipar e armar o Exército Brasileiro em plena guerra mundial. Por isso, o general Marshall, chefe do Estado-Maior dos EUA, avaliou o projeto da expedição febiana como uma ‘dor de cabeça adicional’. Já a diplomacia britânica considerou-o uma ‘hipótese absurda’.”
O pesquisador também ressalta que americanos e britânicos organizavam suas tropas segundo rígidas divisões étnicas e raciais.
“Por isso, a miscigenação racial característica do povo brasileiro e do seu Exército eram motivo de curiosidade da imprensa e de ressalva das autoridades estrangeiras. No imaginário do europeu e do norte-americano mediano, o Brasil não passava de uma enorme selva, fervilhante de cobras e povoada por nativos”, conclui Durval Lourenço Pereira.





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