16–24 minutos
Brasil na Segunda Guerra Mundial

Resumo

Em meio ao avanço da Segunda Guerra Mundial, o Brasil viu sua neutralidade ser colocada à prova. Enquanto os combates devastavam o norte da África, os Estados Unidos pressionavam o governo brasileiro para transformar o Nordeste em peça-chave de uma gigantesca ponte aérea que abasteceria os aliados britânicos. Por trás dos discursos de “defesa continental”, surgiam planos secretos, disputas diplomáticas, tensões militares e até o temor de uma ocupação estrangeira em solo brasileiro.

Neste excerto adaptado do livro Guerreiros da Província, o leitor mergulha nos bastidores de um dos períodos mais delicados da história nacional: quando Getúlio Vargas, os chefes militares brasileiros e o governo Roosevelt travaram um silencioso jogo de poder envolvendo soberania, interesses estratégicos: a origem remota da entrada do Brasil no conflito mundial.

Documentos inéditos revelam como o Nordeste brasileiro se tornou alvo das grandes potências, expondo os dilemas das Forças Armadas diante das pressões dos Estados Unidos e da ameaça de perder o controle de partes do seu território. Em um cenário onde “quando as armas falam, as leis se calam”, o Brasil precisou equilibrar diplomacia, nacionalismo e sobrevivência política.

Uma narrativa intensa e pouco conhecida da Segunda Guerra Mundial, que mostra como o destino do Brasil esteve muito mais próximo do epicentro do conflito do que muitos imaginam. Esteve sob o fio da navalha.

Ponte do Atlântico Sul

Em 10 de março de 1941, um memorando alarmante chegou à mesa de George C. Marshall, chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, com informação a respeito da guerra travada no norte da África. Na Líbia, a Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha) ganhara a supremacia nos ares, no duelo contra a Real Força Aérea (RAF). Desde a queda da França, não havia opção para Londres socorrer com presteza o seu VIII Exército, agora em apuros com o Afrika Korps do general Rommel.1

Uma vez o Império Britânico à beira da ruína no Egito, falou mais alto a velha aliança anglo-americana. Eis o motivador principal da crescente pressão diplomática e militar dos EUA sobre o Brasil a partir de meados de 1941: a necessidade de suprir os ingleses com aeronaves cuja rota de voo teria de passar, forçosamente, pelo território brasileiro. Os dados extraídos de fontes primárias inéditas e a cronologia dos eventos mencionados a seguir deixam pouca margem à dúvida.

Em maio de 1941, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (FDR) despachou James Roosevelt (seu filho mais velho, secretário da presidência, comissionado no posto de capitão do Corpo de Fuzileiros Navais) para cumprir missão no Oriente Médio. Durante visita ao quartel-general (QG) britânico, o oficial acertou com o marechal inglês Arthur W. Tedder o estabelecimento de ousada rota para o abastecimento aéreo do Egito: a “Ponte do Atlântico Sul”.

De acordo com o projeto, até duas centenas de bombardeiros partiriam a cada mês dos EUA, atravessando o Atlântico Sul “via Brazil”, até alcançarem Bathurst, na Gâmbia; dali seguiriam até o front pela Takoradi Route (Rota Takoradi), no interior do continente africano. No mês seguinte, W. A. Harriman (enviado comercial de Roosevelt) oficializou a proposta ao primeiro-ministro inglês Winston Churchill, que a aceitou gratamente.2

Takoradi Route
Esboço inicial da Takoradi Route. Os territórios em amarelo estavam sob o controle do Eixo ou de países neutros, inviabilizando a instalação de bases aéreas e navais Aliadas.

Pan American Airways

A operacionalização dessa rota em território brasileiro estava a cargo da Panair do Brasil S/A, empresa subsidiária da Pan American Airways. Não se tratava de um empreendimento comercial qualquer. Desde sua concepção, a iniciativa tinha as digitais — e o financiamento oculto — do Exército dos Estados Unidos da América.

Inicialmente apresentado ao governo brasileiro como necessário para garantir a segurança hemisférica, enfim, o programa revelou sua verdadeira destinação: atender aos interesses estratégicos anglo americanos. A nova rota viabilizaria o apoio logístico a teatros de operações tão distantes e variados quanto as selvas asiáticas, as estepes soviéticas e o deserto africano.

Em abril de 1943, durante visita às bases Aliadas na África, o marechal Tedder, comandante Aéreo do Mediterrâneo, confidenciou ao brigadeiro Eduardo Gomes que, durante o combate ao Afrika Korps (Corpo Expedicionário da Alemanha na África), houve um dia em que só dispunha de um solitário avião para a defesa do Egito e outros seis em Malta, “até a situação atual, em que é esmagadora a superioridade aérea dos Aliados no norte da África”. 3 “Se não tivéssemos contado com essas bases brasileiras”, escreveu o secretário de Estado Cordell Hull em suas memórias, “não poderíamos ter auxiliado tanto os ingleses, como o fizemos, no momento crucial da batalha de El Alamein”.4

Segunda Guerra Mundial
Capitão James Roosevelt e o marechal inglês Arthur W. Tedder discutem a rota da “Ponte do Atlântico Sul” (www.raf.mod.uk).

“Por bem ou por mal”

Existia uma questão fundamental em jogo para o sucesso desse projeto, costumeiramente esquecida ou relativizada pela historiografia do tema. Ao utilizar o território brasileiro em favor de uma das potências beligerantes, a ponte aérea afrontava a posição de neutralidade do Brasil no conflito, arrastando-o a contragosto para o turbilhão da guerra africano-europeia.

Como era de se esperar, houve forte oposição das Forças Armadas às obras de construção e ampliação de pistas de pouso no Norte e no Nordeste, a cargo da Panair do Brasil. O Ministério da Guerra estava ciente dos crescentes riscos à soberania nacional ao brecar os planos dos EUA. Em 1940, o presidente Getúlio Dornelles Vargas recebera o providencial alerta do Estado-Maior do Exército Brasileiro quanto ao crescente risco de ocupação americana das instalações aéreas e navais: “Por bem ou por mal, pretenderão obtê-las”.5

Getúlio lançou mão de um estratagema político para driblar a oposição fardada: decidiu criar uma Força Aérea independente. Ignorou os indicados pelos militares para o comando do ministério e nomeou para o cargo o civil Joaquim Pedro Salgado Filho, seu conterrâneo e afilhado político, e ainda concedeu autorização verbal para o início dos trabalhos da Panair. Mas o plano não avançou conforme o previsto. Em 24 de junho de 1941, Vargas anotou em seu diário a ordem do ministro da Guerra para deter aviões vindos dos EUA, que fizeram escala em Belém com registros atestando a posse inglesa, país beligerante.6

Retaliação militar

Dois dias depois desse incidente, Roosevelt recebeu um memorando do general Marshall. O documento tinha no anexo um mapa da América Central e do Sul, com pistas de pouso assinaladas em território brasileiro, cujo cronograma das obras encontrava-se estagnado.7

Em Natal, por falta de profissionais dispostos a colaborar, o encarregado da Panair empregou até pescadores no papel de agrimensores improvisados.8 “De Natal à Bahia, inclusive, reportou-se que cinco por cento [do projeto] estava finalizado em 1º de junho”. Caso mantido o ritmo de trabalho, as pistas ficariam prontas apenas na década seguinte, durante a Guerra da Coreia.

 O enorme atraso do cronograma de obras derivou, em boa medida, dos obstáculos criados pela burocracia nacional. Alguns chefes militares — em particular, o brigadeiro Eduardo Gomes, comandante Aéreo do Nordeste — retaliaram a manobra varguista que beneficiou a Panair, limitando o número de aeronaves estrangeiras autorizadas a sobrevoar o País, com a exigência da apresentação de vistos e outros documentos pela tripulação.

O engenhoso aparato burocrático exibiu seus dotes, ao mesmo tempo que a precariedade — ou a inexistência — de benfeitorias especializadas (como alojamentos, torres de controle e hangares para a manutenção) limitava o incremento do tráfego aéreo. A construção de novas instalações revelou-se tarefa complicada em demasia, pois quase seis meses se passaram desde a autorização verbal de Vargas para o início dos trabalhos, sem que ela tivesse sido ao menos oficializada no Diário Oficial da União.9 Eliminar esses empecilhos se tornou prioridade aos olhos de Washington.

“Lobo metido em pele de cordeiro”

O general Lehman Wellington Miller, chefe da Missão Militar dos EUA no Brasil, entregou ao Estado-Maior do Exército (EME) uma proposta de participação americana nas manobras do Exército Brasileiro no Nordeste, previstas para agosto e setembro de 1941. O general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, chefe do EME, farejou risco e desaconselhou a proposição. Destacou em ofício ao presidente as “intenções militares de máxima gravidade […] decorrentes de desembarque, de sobrevoo e de aterragem de tropas estrangeiras de vulto em nosso País, com patente quebra de nossa equilibrada atitude de plena neutralidade em face do conflito na Europa”.10

Quase dez mil soldados americanos participariam das manobras em várias capitais do Nordeste — e nelas permaneceriam, terminado o exercício. Dariam guarida ao Corpo de Engenheiros do U.S. Army, encarregado de assumir à força as obras aeroviárias obstadas pelas autoridades locais. Miller comparou o intento à fábula do lobo metido na pele do cordeiro.11

Inter arma silent leges

Em 2 de setembro de 1939, o Itamaraty anunciara ao mundo a neutralidade brasileira no conflito, mas esse tipo de declaração revela-se um protocolo inócuo em tempos de guerra. O senador americano D. Worth Clarke, de Idaho, sugeriu, em julho de 1941, que os Estados Unidos traçassem uma linha no Atlântico, atrás da qual controlariam de modo pacífico todo o Hemisfério, inclusive a América do Sul e o Canadá: “Poderíamos fazer algum acordo para instalar governos fantoches confiáveis, que pusessem os interesses americanos acima dos objetivos da Alemanha ou de qualquer outro país”.12

As tramas da geopolítica esfacelam frágeis e pueris soberanias. Prova disso, uma invasão anglo-soviética arrombou as fronteiras do também neutro Irã no mês seguinte, assegurando aos russos o caminho para o recebimento de material de guerra trazido pela Rota Persa. Em essência, esse percurso não diferia do futuro “Trampolim da Vitória” que os EUA tencionavam construir no Brasil. “A Inglaterra e a Rússia estavam lutando pela vida. “Inter arma silent leges”, resumiu Winston Churchill, aludindo à máxima do político e filósofo romano Cícero em seu discurso Pro Milone (52 a.C.): “Quando as armas falam, as leis se calam”.13

O general Miller certificou aos seus superiores que a maioria dos brasileiros era “pró-americana, pró-britânica e anti-Eixo”, mas também muito nacionalista, protetora da soberania nacional e resistente a qualquer tentativa de sua violação. Opinou que os vizinhos sul-americanos aspiravam contribuir ativamente para a defesa do hemisfério, mas não apenas como espectadores, aconselhando que os Estados Unidos cedessem o armamento que pudessem ao País e auxiliassem no desenvolvimento da sua indústria de armas. Contraindicou o intento americano de arrendar bases ou de enviar forças militares para o Brasil, antes que os seus habitantes percebessem a iminência de um ataque ao seu território.14

Os chefes militares ouviram Miller, mas levaram-se adiante apenas a sua última parte do seu conselho. Criou-se um subterfúgio para justificar os anseios de Washington: a vinda de tropas dos EUA para o Nordeste visava “proteger o flanco das Américas no Hemisfério Sul”. Segundo hipótese mirabolante formulada pelo coronel Ridgway, da Divisão de Planos de Guerra, em caso de fracasso das intenções de Hitler na União Soviética, o Eixo voltaria sua atenção para a África Ocidental e, mais tarde, para o Brasil.15

“Devemos agir de imediato”

A artimanha não iludiu a cúpula das Forças Armadas, que se mostrou avessa a colaborar de forma indireta com a Inglaterra, com quem tivera sérios atritos no ano anterior. A esquadra britânica agia impunemente em águas territoriais brasileiras, em clara violação da soberania nacional.

Em junho de 1940, oficiais do gabinete do ministro da Guerra alegaram, indignados, que só haveria vantagens para o Brasil se fosse abatido o poderio da Inglaterra, “que dominava há três séculos o mundo”, e que a vitória alemã seria “o agente salvador dos países que, como o nosso, viviam submetidos, sem possibilidade de libertação, a um regime colonial imposto à sua economia pelas grandes democracias capitalistas”.16

Em novembro de 1940, patrulhas navais inglesas detiveram o Almirante Alexandrino e o Siqueira Campos (navios lotados de passageiros e armas compradas da Krupp), conduzindo-os à base militar britânica em Gibraltar. No mês seguinte, 24 dias após o aprisionamento do Siqueira Campos, Vargas convocou “reunião ministerial para a discussão do grave problema e quanto às possíveis medidas de represália, entre as quais alvitrou-se o rompimento das relações e a apropriação de empresas inglesas no país”.17

Em seguida ao bloqueio de Londres ao envio das armas adquiridas pelo Ministério da Guerra da empresa alemã, os comandantes dos navios de Sua Majestade preferiram aportar no Uruguai a lidar com a animosidade latente nos portos nacionais.

Arcos, flechas e bordunas

Houve múltiplos incidentes tensos entre o chefe da Missão Militar dos EUA e o chefe do EME. Irritado com a recusa aos seus planos, Miller disse a Góes Monteiro ter recebido carta de Marshall, que dava ordens expressas de conseguir autorização para que a aviação americana e outros elementos pudessem participar das manobras do Exército no Nordeste.

De fato, em 19 de junho de 1941, Marshall e o secretário da Guerra, Henry L. Stimson, apresentaram pessoalmente ao presidente Roosevelt a proposta de uma ação militar em solo brasileiro: “Notícias recentes do norte da África mostram, de forma bastante clara, que nós devemos agir de imediato para salvar a situação no Brasil”, escreveu Stimson.18

Três dias depois, teve início a Operação Barbarossa — que fez soar o gongo salvador. A investida do Eixo contra a União Soviética provou que os objetivos de Hitler estavam no distante Leste Europeu, arrefecendo os ânimos guerreiros de Washington em relação ao Brasil. Mas não por muito tempo.

Miller voltou à carga em agosto. Fez admoestação indevida a Góes, que lhe respondeu com franqueza: “O Brasil se prontificando a cooperar com os Estados Unidos, na defesa do continente, o faz consciente de que contribuirá mais para a defesa indireta das zonas estratégicas da América do Norte, do que pela própria defesa”. Acrescentou que, “se não fosse essa convicção, o Brasil nada pediria aos EUA e o que tem pedido, nesse sentido, é para pagar de modo compatível com as suas possibilidades”.

O estrangeiro insistiu em depreciar o Exército; declarou que o País era incapaz de se organizar defensivamente, mesmo que o governo americano lhe vendesse as armas necessárias. Ferido em seus brios, Góes repeliu a insinuação com veemência, afirmando que o Brasil poderia não possuir a eficiência material, mas que seria capaz de se defender contra qualquer agressor, mesmo que tivesse de empregar as armas usadas pelos índios.19

Góe Monteiro e Miller
O general Góes Monteiro (ao centro) alertou ao general Miller (à direita) que, se fosse preciso, o Brasil empregaria as armas usadas pelos índios” (Arquivo Histórico do Exército).

Plano de Emergência

As intenções veladas de Washington vieram à luz em 14 de agosto. O general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, informou Vargas da descoberta de um plano de ocupação americana no Nordeste, contido numa carta de Miller ao seu governo — “apanhada na censura pelo chefe de Polícia”, registrou Getúlio em seu diário pessoal.20 No mês seguinte, o ministro da Guerra remeteu mensagem secreta ao presidente da República, na qual mostrou a “necessidade da existência de um serviço nacional secreto”.21

O Ministério da Guerra suspendeu as manobras previstas, e Dutra ordenou o remanejamento de várias unidades para o saliente nordestino, bem como majorou o efetivo do Exército na região para contrapor-se à ameaça. O Nordeste passou a acolher inúmeras organizações militares (OM) de outros estados, além de servir de berço a novos quartéis.

Ordenou-se a criação de três regimentos de infantaria entre o último dia de maio e 12 de junho: o 14º, em Recife; o 15º, em João Pessoa; e o 16º, em Natal.22 Em 26 de setembro, o chefe do EME sugeriu ao comandante da 7ª Região Militar o estabelecimento de um “Plano de Emergência” para, caso se fizesse necessário, entrar de imediato em execução.23 O fortalecimento da defesa territorial brasileira andava em ritmo acelerado, independentemente da nacionalidade do pretenso invasor.

O imbróglio Brasil-EUA poderia ter sido resolvido há anos mediante um gesto de boa vontade de Washington, cumprindo apenas um dos vários contratos de compra de material bélico assinados desde o início da década. Todavia, conforme o explicitado por Góes Monteiro a Miller, bem mais do que a proteção continental contra a hipótese de uma invasão do Eixo, estavam em jogo os interesses estratégicos americanos.

Embargo ao Japão

Hitler fracassou ao tentar projetar seu poder naval de superfície no Oceano Atlântico, pois as duas únicas tentativas resultaram em desastres, como a incursão do Admiral Graf Spee (afundado em dezembro de 1939) e a do encouraçado Bismarck (destruído em maio de 1940). Ao longo de todo o conflito, jamais o Eixo utilizou militarmente qualquer base aeroterrestre da África Equatorial, ou Ocidental Francesa. A ameaça de um desembarque nazista no Nordeste servia de espantalho mambembe para amedrontar leigos e incautos, civis e militares — até oficiais-generais.

Em outubro de 1941, Miller respondeu a um questionário em Washington. O alto-comando das Forças Armadas quis saber acerca de uma força blindada organizada no Distrito Federal e se ela estava pronta para ocupar o saliente nordestino até o final do ano. Também questionou a situação da Força Aérea Brasileira (FAB) e seu estado de pronto emprego. Todas as respostas foram negativas:

“O Brasil praticamente não possui Força Aérea localizada no Nordeste. […] Observa-se que o Brasil não possui aviões de combate; bombas e munição estão em falta para os velhos tipos de aviões de treinamento. […] No presente, a Força Aérea baseada no Rio não é capaz de seguir com presteza para o Nordeste, nem de lutar numa ação decisiva no caso de uma invasão”.24

Desconhecem-se as instruções que Miller recebeu antes da sua volta ao Rio, em 24 de outubro, mas, sem dúvida, a Casa Branca considerava iminente a entrada dos EUA no conflito. A campanha de difamação lançada por FDR contra o aviador Charles Lindbergh e seu movimento antiguerra começava a mostrar resultado, contudo, a majoritária oposição isolacionista no Congresso representava um obstáculo formidável aos planos bélicos da Casa Branca.

O Estrategema

Forjou-se um estratagema. Quatro meses antes do retorno de Miller ao Brasil, no dia seguinte ao início da Operação Barbarossa, FDR recebeu uma carta com sugestões de Harold Ickes, secretário do Interior e amigo íntimo:

“Embargar petróleo ao Japão seria um dos atos mais populares que você poderia fazer […]. O embargo de óleo para o Japão pode resultar numa situação que tornaria não só possível como fácil entrar na guerra de uma maneira efetiva. E se nós, indiretamente, fôssemos levados à guerra, evitaríamos a crítica de que teríamos entrado como um aliado da Rússia comunista”.25

Washington congelou os ativos japoneses nos EUA no mês seguinte à carta de Ickes, usando como pretexto a ocupação nipônica dos principais campos de aviação na Indochina (acordada entre os governos de Tóquio e Vichy). A gota d’água veio em 28 de julho, assim que Roosevelt determinou o embargo total das exportações de petróleo e seus derivados ao Japão. Tamanho corte no fornecimento dos combustíveis revelou-se especialmente duro para a economia japonesa, porque mais de 80% do petróleo consumido no país tinha origem nas reservas dos Estados Unidos. A sugestão do Secretário do Interior teve influência determinante nos rumos do envolvimento bélico americano.

Em 7 de dezembro de 1941, quando a Armada japonesa atacou Pearl Harbor, a delicada situação brasileira chegaria a um ponto crítico. Não foi por menos que o primeiro plano de invasão preparado pelos Estados Unidos em guerra não teve como alvo a Alemanha, a Itália ou mesmo o Japão.

Mas o Brasil.

Guerreiros da Província

Avaliação: 1 de 5.

Fontes

  1. PSF: Safe: Marshall 1941-April, 14, 1942, psfa 0043, FDR Library.
  2. R.A.F. Narrative, The West African Reiforcement Route, Air Historical Branch, Air Ministry. Disponível em: < https:// www.raf.mod.uk/what-we-do/our-history/air-historical-branch/second-world-war-campaign-narratives/middle east-campaigns-vol-x-the-west-african-air-reinforcement-route/>. Acesso em: 12 ago. 2024.
  3. Relatório a J. P. Salgado Filho a respeito da viagem de Eduardo Gomes ao Norte da África, a convite do general Marshall, a fim de visitar as tropas aliadas naquela região. Recife, v. XL/52, p. 4, Arquivo Getúlio Vargas, 1943/GV c 1943.04.18, CPDOC-FGV.
  4. Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Júnior (orgs.), Marechal Eurico Gaspar Dutra: o dever da verdade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.
  5. Ofício secreto n. 284, do chefe do EME, 11 set. 1940, Acervo Góes Monteiro, AHEx. Agradecimento a Giovanni Latfalla pelo gentil envio de cópia do documento. Cf. O Estado-Maior do Exército e as negociações militares Brasil -Estados Unidos, 1938-1942, Caminhos da História, Vassouras, v. 6, n. 2, jul./dez. 2010.
  6. Getúlio Vargas, Diário, v. 2, 1937/1942, Rio de Janeiro, FGV – Siciliano, 1995, p. 402.
  7. George Marshall, Memorandum for the President, 26 jun. 1941, War Department, PSF: Safe: Marshall 1941-April,14, 1942, psfa 0043, FDR Library.
  8. Frank D. McCann, A aliança Brasil – Estados Unidos, 1937-1945, pp. 185-191.
  9. O relato da construção das bases aéreas consta em detalhes na obra de Frank D. McCann, A aliança Brasil – Estados Unidos, 1937-1945, Rio de Janeiro, BIBLIEx, 1995, pp. 175-194.
  10. Correspondência pessoal e secreta n. 35-25, do ministro da Guerra ao presidente da República, 5 jun. 1941. Renault Leite e Novelli Júnior, op. cit., pp. 418-421.
  11. O adido militar alemão perguntou ao chefe do EME se 40 mil homens e 1.200 aviões dos EUA participariam da manobra. Segundo o estrangeiro, a informação veio do Alto Comando do Reich. Ofício Secreto n. 82, do chefe do EME ao ministro da Guerra, 2 jun. 1941, Acervo Góes Monteiro, AHEx, apud. Giovanni Latfalla, O general Góes Monteiro e as negociações militares Brasil/Estados Unidos, 1938-1942, dissertação de mestrado em História Social, Universidade Severino Sombra, Vassouras, jun. 2011. Dutra, O Dever da Verdade, p. 445.
  12. Max Hastings, Inferno: o mundo em guerra, 1939 -1945, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2011, p. 205.
  13. Winston Churchill, Memórias da Segunda Guerra Mundial, v. 2 (1941-1945), Rio de Janeiro, Harper Collins, 2017, p. 574.
  14. Frank D. McCann, Brazil and the United States during World War II and Its aftermath, Londres, Palgrave Macmillan,
    2018, pp. 72-73, 106.
  15. Memorando do coronel Ridgway ao general Marshall, 9 out. 1941. Stetson Conn e Byron Fairchild, A Estrutura de Defesa do Hemisfério Ocidental, Rio de Janeiro, BIBLIEx, 2000, p. 364.
  16. Leitão de Carvalho, A Serviço do Brasil na Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro, A Noite, 1952, p. 22.
  17. Renault Leite e Novelli Júnior, op. cit., p. 376.
  18. Stetson Conn e Byron Fairchild, op. cit., p. 349.
  19. Ofício Secreto n. 107, do chefe do EME ao ministro da Guerra, Rio de Janeiro, 6 ago. 1941, Acervo Góes Monteiro, AHEx, p. 3, apud. Giovanni Latfalla, O general Góes Monteiro e as negociações militares Brasil – Estados Unidos, 1938 – 1942, dissertação de mestrado em História Social, Universidade Severino Sombra, Vassouras, Rio de Janeiro, 2011, p. 69.
  20. Estima-se que o documento foi obtido por atividade de Inteligência nacional. Getúlio Vargas, Diário, v. 2, p. 415.
  21. Mensagem secreta n. 98/59, 27 out. 1941. Cópia — Secreto — Armas da República — Conselho de Segurança Nacional — Secretaria-Geral — Palácio do Catete — ofício n. 1.106, 22 dez. 1941, do secretário-geral ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República. Assunto: Relações brasileiro-americana [sic], Cx 79/B, Pasta 2, Secreto, Cópias de Ofícios e Informações, 1942, BR DFANBSB N8.0.PSN, EST.630 — cópias de documentos sigilosos. Dossiê — Fundo: Conselho de Segurança Nacional — BR DFANBSB N8, Arquivo Nacional.
  22. Leitão de Carvalho, op. cit., p. 64.
  23. Paulo Q. Duarte, O Nordeste na II Guerra Mundial, Rio de Janeiro, Record, 1971, p. 192.
  24. Questions concerning the Brazilian situation asked of general Miller during his visit to Washington D.C., october, 1941, Giovanni Latfalla, Segunda Guerra Mundial: propostas para emprego de tropas do Brasil, Juiz de Fora, Editar, 2022, Anexo – Documento selecionado.
  25. Paul Johnson, Tempos modernos: o mundo dos anos 20 aos 80, Rio de Janeiro, BIBLIEx e Instituto Liberal, 1994, pp. 327-328.

3 respostas a “Sob o Fio da Navalha”

  1. […] busca pelas origens remotas da entrada brasileira na Segunda Guerra nos leva ao 1º semestre de 1941, quando o presidente norte-americano Franklin […]

  2. Avatar de cleprofhist
    cleprofhist

    EXCELENTE ARTIGO!

    1. Avatar de Durval Lourenço Pereira

      Muito obrigado, caro professor. Agradeço o compartilhamento.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Memorial da FEB

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo