Homenagem à FEB na Itália presta tributo aos pracinhas

O legado da Força Expedicionária Brasileira (FEB) continua vivo na Europa. Em Nápoles, cidade onde milhares de pracinhas desembarcaram em 1944 para iniciar sua participação na Campanha da Itália, uma cerimônia cívico-militar reafirmou o respeito e a gratidão aos soldados brasileiros que combateram durante a Segunda Guerra Mundial.
Segundo matéria da Aditância de Defesa do Brasil na Itália, publicada hoje no site do EB, a homenagem realizada em 1º de julho reuniu autoridades civis e militares brasileiras e italianas, além de representantes da comunidade local, em um momento marcado pelo reconhecimento da coragem, do sacrifício e da contribuição da FEB para a libertação do Velho Mundo do nazi-fascismo.

O local escolhido para a cerimônia foi a entrada da Reserva Natural da Cratera do Vulcão Astroni (vide a imagem do Google Maps acima), inaugurando-se uma placa que recorda o local do primeiro acampamento da Força Expedicionária Brasileira.
Mais do que recordar fatos históricos, a solenidade reforçou os laços de amizade entre Brasil e Itália, preservando a memória daqueles que atravessaram o Atlântico para defender os valores da liberdade, da democracia e da paz. O tributo em Nápoles demonstra que, mesmo após mais de oito décadas, o heroísmo dos pracinhas brasileiros permanece vivo na memória do povo italiano, inspirando novas gerações a conhecer e valorizar essa importante página da história do Brasil.
A data remete ao 82º aniversário do primeiro hasteamento da Bandeira Nacional em solo italiano. O evento histórico ocorreu em 23 de julho de 1944, e está presente no livro Guerreiros da Província, que aborda em detalhes as atividades realizadas durante o tempo de permanência dos pracinhas no Astroni, como no trecho adaptado a seguir:
A Primeira Noite da FEB na Europa
“As composições levaram os expedicionários até Agnano, subúrbio de Nápoles, localidade conhecida entre os antigos gregos e romanos por suas termas quentes e sulfurosas. Em seguida, marcharam por estrada sinuosa e íngreme, cujo pavimento quase derretia sob o calor fortíssimo do verão: “O dia estava tão quente que a gente tinha impressão de ver chispas de fogo a desprender do asfalto escorregadio”, recordou Pedroso, que suava aos borbotões com a túnica abotoada até o pescoço.
Cruzaram os portões de extensa muralha no ponto culminante da subida. Lá puderam avistar o destino: a cratera do Astroni, um vulcão extinto. O local assemelha-se a um imenso buraco, circundado pelos bordos altos e abruptos de uma encosta com extenso muro no topo. Seu bojo abrigava lagos e um aprazível bosque, ao redor de uma área descampada central. Alguns caipiras tomaram grande susto ao atinarem onde estavam, e os gaiatos atiçavam o temor: “É um vulcão, sim. Pois nós não temos tomado banho quente? (a água jorrava de uma fonte de água termal na cratera). […] Ela já sai quente da terra”.
Os medrosos acercaram-se do tenente Viotti, do 11º RI, de São João del Rei, e só não usaram a palavra ‘erupção’ porque não a conheciam: “É deveras, seu tenente? Isso aqui é mesmo a cratera de um vulcão? Diz que, de tempos em tempos, ele entra em erupção e que está justo na hora de entrar de novo?”. Nem alojamento, nem acantonamento ou acampamento esperava o 1º Escalão, mas um campo para bivaque.
Frio, improviso e patriotismo
O lugar causou má impressão ao Cmt da 1ª DIE. Ao contrário do que testemunhara no norte da África, “a área não estava preparada para receber a tropa”. Faltavam abrigos para os praças e cozinhas necessárias ao preparo das refeições. Para piorar a situação, as barracas inclusas nos fardos de bagagem ficaram no Brasil, devido à insistência dos oficiais de ligação dos Estados Unidos, que também devolveram roupas de cama e medicamentos ainda no cais do porto.
Resultado do mal-entendido, passaram a noite debaixo das árvores, em cobertores que amanheceram empoçados pelo acúmulo da garoa. “Noite terrivelmente fria constituiu rude prova para nossa gente”, anotou Mascarenhas. Viotti reparou que, em solidariedade aos seus comandados, alguns oficiais “preferiram dormir ao relento, junto deles. Começara a cimentar-se, desde o primeiro dia, entre oficiais e soldados, uma fraternidade e amizade que permanecem até hoje”.
O contingente ocupou espaço ao lado de pequeno cemitério alemão, cujas sepulturas tinham capacetes de aço esburacados, colocados sobre estacas toscas cravadas na cabeceira das covas. Militares estrangeiros envolvidos no transporte motorizado e no trabalho braçal na zona portuária também compartilhavam daquele espaço claramente inadequado para alojar a montanha de armas, equipamentos e viaturas orgânicas do RCT. Selecionado em 8 de julho, Almeida de Moraes (oficial de ligação da FEB) visitou o Astroni novamente uma semana depois e comemorou: “Está tudo pronto para receber os nossos irmãos que chegam do Brasil”.
Hasteamento do Pavilhão Nacional

Os soldados da Cia de Obuses do 11º RI erigiram altar singelo à frente de uma cruz tosca, de pau roliço trazido da mata circundante. Fincaram a cruz com pouco mais de dois metros de altura em área próxima à Cia, na qual rezavam o terço e entoavam cânticos religiosos à noite. Houve um momento sublime no acampamento, no domingo subsequente ao desembarque, durante a primeira missa celebrada na Itália. Participaram as autoridades civis locais, os três capelães e as cinco enfermeiras precursoras, que auxiliaram na homilia.
Mais de cinco mil pessoas entraram em formação, em um imenso quadrado, ombro a ombro, sem intervalos. No centro do dispositivo, ao lado do mastro improvisado com galho de amendoeira, estavam os generais Mascarenhas e Zenóbio. O 2º Sgt Antônio Olímpio Duarte testemunhou o Cmt da 1ª DIE dar o comando de “Sentido!” ao cabo-clarim Sacramento. Bradou em seguida:
Soldados do Brasil! Pela primeira vez na história, uma bandeira sul-americana está sendo hasteada nos céus da velha Europa, no solo da Itália. Esta glória coube à Bandeira do Brasil. Vós fostes escolhidos para essa efeméride e sereis, nas incertezas dos combates futuros, os responsáveis por sua honra, como representantes das armas do Brasil.
O cabo Sacramento tocou a marcha batida e Zenóbio da Costa começou a hastear a Bandeira do Brasil. “Enquanto isso acontecia, eu sentia que a terra desparecia sob meus pés e eu me encontrava flutuando num manancial de emoções patrióticas difícil de descrever”, declarou Olímpio. Foi um espetáculo belíssimo, singular. Único em nossa história. […] O Hino Nacional foi cantado com uma vibração e entusiasmo de arrepiar, com um ardor patriótico nunca visto no Exército”, narrou Viotti:
Fonte
Guerreiros da Província: a jornada épica da Força Expedicionária Brasileira. Juiz de Fora, Insight Books, 2024, pp. 256-257.




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