História da FEB

Capitão Yedo Comandou – As relações interpessoais na FEB

Introdução

O estudo trajetória da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na II Guerra Mundial, vem ganhando novo impulso com a criação do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx) e dos cursos de especialização em História Militar da UNISUL e da UNIRIO . Somam-se  a eles iniciativas empreendidas pelo meio acadêmico, com a promoção de Seminários de Estudo sobre a Força Expedicionária Brasileira (SESFEB).

A edição do II SESFEB, por exemplo, teve palco no Museu do Expedicionário, na cidade de Curitiba – PR, em junho de 2011, com a Comissão Científica e Organizadora presidida pelo Dr. Dennison de Oliveira (UFPR). Marcado pela excelência na sua organização e condução, o evento foi prestigiado com a presença de autoridades civis e militares, inclusive a do General Comandante da 5ª RM/DE, do Exército Brasileiro.

Museu do Expedicionário: palco do II SESFEB

As palestras dos conferencistas foram alternadas com a apresentação de estudantes, sendo várias delas de ótimo nível. Entretanto, uma das apresentações causou particular desconforto da audiência, quando o palestrante afirmou ter havido uma intensa animosidade entre os oficiais e praças da FEB. Baseada na impressão pessoal de um veterano, a palestra foi interrompida por apartes inflamados, sendo necessária a intervenção do mediador. Sentado ao meu lado, um pracinha escutava atento a discussão, enquanto chorava copiosamente.

Sem dúvida alguma as relações intrínsecas envolvendo os integrantes da FEB merecem — e devem  — ser objeto de estudo e discussão, até para que se evite a ocorrência de erros pregressos numa futura mobilização. Porém, para que o estudo do tema possa chegar a conclusões relevantes, antigos vícios na interpretação dessas relações precisam ser deixados de lado.

Vitimização

Um desses vícios é a “vitimização” generalizada, exarcebada e normalmente equivocada dos febianos. Essa vitimização materializa-se na construção de pressupostos do tipo: “Os pracinhas era analfabetos”; ” A FEB foi recrutada no laço”; “Os brasileiros foram servir de carne-de-canhão para os americanos; ”Os oficiais e sargentos viviam em conflito”. Tais manifestações são o resultado do parco conhecimento do tema e/ou de interpretações errôneas das relações interpessoais que permearam a campanha brasileira.

Inúmeras falhas podem ser apontadas na jornada da FEB – como a qualquer outra Força participante do conflito – em particular na rigorosa disciplina militar no Brasil, na desmobilização açodada, e no processo de amparo e reabsorção do veterano de guerra pela sociedade. Entretanto, generalizar essa “vitimização” só atrapalha a compreensão das causas e da real amplitude dessas falhas.

Durante a apresentação, o universitário amparou seus argumentos nas memórias de um pracinha, descrevendo uma profunda animosidade reinante na tropa. No que concerne ao método utilizado para a abordagem do tema, estabelecer um conceito genérico sobre as relações interpessoais da FEB, baseando-se unicamente em casos pontuais – e ainda por cima narrados por uma única fonte –   é algo desproposital, certamente mais afeto a um estudo de caso.

Companhia de Canhões Anticarro do "Lapa Azul": a memória da FEB não precisa ser vitimizada, mas estudada com propriedade

Maturidade

De uma forma geral, o estudo de temas que envolvem as relações interpessoais se revela uma aventura inusitada. Uma jornada repleta de caminhos traiçoeiros e atalhos sedutores num labirinto de possibilidades, mesmo para o profissional experiente. São caminhos que exigem do pesquisador uma bagagem que inclua, além de um profundo conhecimento do tema, algo que só a experiência de vida pode lhe dar: maturidade.

Sim, a experiência de vida é fundamental na análise de temas que envolvem o relacionamento humano, sobretudo nas relações de trabalho. Dessa forma, a vivência e o testemunho de situações de conflito funcional, na vida civil, servem de subsídio para a análise de situações correlatas na FEB. Reclamar do chefe, por exemplo, não é um privilégio do militar em combate. Se o burocrata, engravatado na repartição pública, costuma reclamar do superior quando lhe é dado trabalho em demasia, o que dirá do militar que recebe ordem para silenciar uma casamata inimiga, com o risco da própria vida.

Por experiência pessoal, durante a gravação de entrevistas em vídeo com quase meia centena de veteranos, verifiquei que uma parcela ínfima desse total manifestou desagrado com seus superiores. Dentre os que retinham uma memória negativa dos seus comandantes, ficou evidente que esse sentimento estava bem mais relacionado aos eventos do pós-guerra – nas incompreensões da sociedade e até dos familiares – do que propriamente aos vivenciados na FEB. Ou seja: a forma como o indivídio assimila e interpreta as suas experiências pessoais está profundamente relacionada à sua visão pessoal do mundo. Outros historiadores que fizeram tal pesquisa certamente tiveram uma percepção idêntica.

Senhas e Palavrões

Analisar as relações interpessoais dos integrantes da FEB exige uma abstração fora do comum. Na busca de informações para a elaboração de um roteiro cinematográfico sobre a FEB, por exemplo, indaguei o veterano José Maria Nicodemos a respeito da forma de tratamento e conversas utilizadas pelos pracinhas na guerra. Ele me respondeu o seguinte:

“Olha, as gírias eram as da época, mas os palavrões eram os mesmos de hoje. Com uma diferença: na guerra os palavrões eram proferidos com frequência e com muito, mas muito maior ênfase.”

De fato, essa informação bate com o registrado em muitas outras biografias que também registram, inclusive, a substituição das senhas por frases pornográficas. No front a testosterona corria solta, não há dúvida nisso. Os melindres, o tato, a boa-educação e o alto grau cultural se revelavam supérfluos e ineficazes com freqüência. Mesmo o General Mascarenhas de Morais, fluente em vários idiomas, se dirigia com aspereza aos subordinados quando preciso: uma necessidade típica de um ambiente em guerra. Uma necessidade que não difere o general do cabo.

Para compreender esse ambiente brutalizado, se faz necessário reproduzí-lo na medida do possível. Vivenciar esse ambiente, na sua plenitude, talvez seja impossível até mesmo para o mais talentoso historiador, que dirá a um jovem universitário. A distância que separa o cenário do combate da rotina de um universitário — que talvez nem mesmo o Serviço Militar tenha prestado — é similar a que separa um Campus brasileiro dos Apeninos italianos.

Mascarenhas, Castello Branco e Zenóbio: os alvos principais

É perceptível o aumento da intensidade das críticas à oficialidade conforme se ascende na escala hierárquica. Assim, o General Mascarenhas de Morais e o General Zenóbio da Costa, no topo da cadeia de comando, tornaram-se os alvos prediletos dos ataques. Na contra-mão dessa tendência, Mascarenhas de Morais escreveu o livro A FEB por seu Comandante, eximindo-se, por completo, em desferir ataques pessoais contra quaisquer dos seus comandados. Preferiu Mascarenhas atribuir as falhas verificadas na FEB às questões conjunturais do momento, jamais a esta ou àquela pessoa.

Tendo sido o Comandante da FEB, certamente tinha ele autoridade e munição de sobra para disparar contra muitos, abatendo em pleno vôo as pretensões carreirísticas dos seus desafetos. O general brasileiro já estava no mais alto posto do Exército e não acalentava sonhos na política após a guerra, muito embora pudesse ser eleito para o cargo público que desejasse, dada a sua imensa popularidade.  Resumindo: Mascarenhas não tinha nada a perder e ainda possuia a faca e o queijo em suas mãos; mas foi magnânimo. Nobre. À altura da sua grandeza. Já o mesmo não pode ser dito em relação ao seu Chefe de Estado-Maior, Lima Brayner, que aguardou  por 24 anos a morte do seu ex-comandante e de Castello Branco para incluir no livro, A Verdade sobre a FEB, pesadas críticas aos dois.

Generais da FEB: Mascarenhas de Morais (ao centro) e Zenóbio da Costa (à esquerda) foram os alvos preferidos dos críticos

A Pedagogia do Oprimido

À luz da sociologia, parte dessa vitimização envolvendo as relações interpessoais da FEB pode ser creditada à visão marxista da Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. Ainda bastante popular no meio acadêmico, essa linha de pensamento enxerga o mundo através do embate entre “oprimidos e opressores”, limitando-o à sua lógica reducionista. Originalmente, Paulo Freire construiu a teoria voltada para a área da educação popular, tanto para a escolarização como para a formação da consciência política, e não para o estudo da história. Mas os fundamentos da sua Pedagogia do Oprimido — já ultrapassada — criaram modelos mentais que se encarregaram de influenciar o pensamento crítico de uma parcela considerável dos nossos pesquisadores e historiadores.

Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido: mundo dividido entre "vítimas e algozes", "oprimidos e opressores"

Fruto dessa enjambração, a análise das relações interpessoais da FEB gerou conclusões errôneas, porém adaptadas à concepção ideológica desejada. De quebra, essa visão distorcida também serviu como uma luva aos anseios daqueles que desejavam desvincular as glórias da FEB da oficialidade que apeou João Goulart do poder, em 1964. Contraditoriamente, porém, as baixas e derrotas sofridas lhes permaneceram imputadas: “A oficialidade era composta por aristocratas que oprimiam os subalternos pobres e incultos” ou “Os bravos pracinhas morreram às centenas por causa da incompetência dos oficiais, que insistiram em ataques frontais ao Monte Castello” , são exemplos de frases proferidas, com maior ou menor freqüência, e que sintetizam bem esse tipo de pensamento.

Patton

A (má) interpretação sociológica desse fenômeno fica latente quando se observa um exemplo semelhante, ocorrido nos EUA, na figura do general George Smith Patton, Jr. Conhecido como “Old Blood and Guts“, era admirado por tratar-se de um guerreiro nato e criticado pelo fato de ser rígido ao ponto de não admitir que seus soldados sofressem fadiga de batalha. Quando Patton visitou um dos hospitais montados para receber os feridos, após a tomada de Palermo, teria dito: “Este é um santuário para guerreiros, tirem estes covardes daqui, eles fedem”, após xingar e bater suas luvas na face de um soldado, internado por fadiga de batalha. Antes do episódio, Patton já esbofeteara um soldado internado com malária, no 15º Hospital de Evacuação.

Hoje Patton é venerado como herói de guerra nos EUA, tendo sua história sido retratada por Hollywood. A figura mítica do general norte-americano está reproduzida em diversas estátuas, em locais de destaque nos EUA, inclusive na Academia Militar de West Point. Fosse ele brasileiro e submetido à Pedagogia do Oprimido, ao invés de ser homenageado em monumentos, Patton seria lembrado como um “aristocrata opressor”, substituindo Judas na malhação da Semana Santa.

Herói de Guerra: Monumento em homenagem a Patton, em West Point

Espírito de Corpo

Do ponto de vista militar, supor que havia uma animosidade generalizada entre oficiais e praças é algo risível, no mínimo. Sem um forte Espírito de Corpo: o forte de laço de companheirismo e camaradagem que une os integrantes de uma contingente militar, uma tropa mal sai de suas trincheiras; e, se sair, seu rendimento é pífio, como foi o da 92th Divisão norte-americana, composta por negros segregados em sua maioria. Jamais, portanto, a FEB teria alcançado as suas vitórias sem a existência de um acendrado Espírito de Corpo.

Frank McCann, Jr e Mascarenhas de Morais

Novas pesquisas sobre o tema precisam ser empreendidas no meio acadêmico — com a diligente orientação por quem de direito — na pesquisa em fontes confiáveis e, sobretudo, espelhando-se no trabalho e na humildade de historiadores consagrados, que já percorreram tais caminhos muitas décadas atrás. O também brasilianista Frank D. McCann, Jr. é um bom exemplo.

Embora McCann também tenha sido um dos críticos do General Mascarenhas, no prefácio do seu consagrado livro Aliança Brasil – Estados Unidos 1937-1945 ele resume seu pensamento com relação ao general, a fim de evitar más interpretações. Em sua obra, o norte-americano mostra talento, profissionalismo e a visão madura de um historiador que avalia o personagem pelo conjunto da obra e não por eventos isolados.

Frank D. McCann, Jr e a FEB: exatidão histórica e maturidade

“Se numa ou outra passagem me mostrei crítico de ambos, essa colocação foi motivada pela necessidade de exatidão histórica e não pela falta de respeito ou admiração. Mascarenhas enfrentou e superou obstáculos que teriam derrubado um homem de estatura menor. Ele foi, para usar a expressão do General Crittemberger: ‘o baixinho mais determinado que já usou coturnos!’.”

Prefácio do livro Aliança Brasil – EUA, de Frank McCann

Conclusão

Casos isolados e pontuais de animosidade  aconteceram na FEB, é claro. Impossível de não acontecerem num conflito armado. Muito menos tais casos se restringiram aos brasileiros. Por sinal, se ao invés de seguir para a guerra a FEB tivesse ido para um spa, o relato dos mais de 25.000 homens do seu contingente também não seria 100% positivo.

O que caracterizou a FEB não foi a animosidade, mas o elevado Espírito de Corpo entre os seus componentes. Foi ele o verdadeiro sentimento que aglutinou a tropa. Um sentimento que, muitas vezes, fazia os feridos — alguns deles com as feridas ainda  cicatrizando — desertarem do Depósito de Pessoal e hospitais, na tranqüila retaguarda, para reaparecerem na frente de combate, de volta à sua Cia ou Pelotão.

Se por um lado, o desprezo pela memória da FEB constitui algo deplorável, num outro extremo a sua vitimização generalizada também não trará beneficio algum.

 Capitão Yedo

O leitor deste blog já deve estar se perguntando: “E o que o Capitão Yedo tem a ver com isso?”  Vamos lá: o Capitão Yedo Jacob Blauth, era o o Comandante da 3ª Companhia, do 1º Batalhão do Regimento Sampaio. Durante o ataque vitorioso ao Monte Castello, em 21 de fevereiro de 1945, sua companhia foi atingida por um bombardeio alemão, sendo ele gravemente ferido e o Tenente Godofredo Cerqueira Leite morto, este após recusar por três vezes ser evacuado.

Fatos como esse eram corriqueiros, mas o que fez a diferença nesse episódio foi a constituição da terceira companhia: nela estavam vários praças — instrumentistas e compositores talentosos — que mais tarde compuseram o samba Capitão Yedo Comandou, de autoria do Cabo Seraphim José de Oliveira. A música, bem humorada, conta a epopéia da Cia na tomada do Monte Castello, além de fazer uma homenagem ao seu Cmt ferido. Se os argumentos já apresentados não foram suficientes para sensibilizar os incrédulos, acerca da intensidade do Espírito de Corpo da FEB, quem sabe esta música os convença.

Capitão Yedo Comandou: versão musical da tomada do Monte Castello

A foto a seguir mostra o exato momento onde o Cap Yedo recebe a sua Bronze Star. Esta foto foi tirada nos Estados Unidos, enquanto o Cap Yedo tratava-se nos hospitais americanos, indubitavelmente com mais recursos que os Hospitais de Campanha da Itália ou mesmo os do Brasil. O Capitão perdeu uma das pernas, por conta de um ferimento provocado por um estilhaço de granada, sendo-lhe adaptada uma prótese, posteriormente.

Nos EUA: Capitão Yedo recebe a medalha Bronze Star (Foto gentilmente cedida por Júlio Zary museuvirtualfeb.blogspot.com)

Medalha Bronze Star

Da direita para a esquerda: Capitão Yedo Jacob Blauth, Tenente Afrânio de Souza Jardim, Ingrid Bergman e o Tenente Túlio Campello de Souza (Foto gentilmente cedida por Júlio Zary museuvirtualfeb.blogspot.com)

Ao contrário do ocorrido em nosso país, os veteranos norte-americanos não foram esquecidos pela sociedade. Atores e atrizes de sucesso no cinema (como Ingrid Bergman, na foto acima) visitavam constantemente os militares hospitalizados ou convalescendo nos centros de recuperação nos EUA. Melhor sorte tiveram eles, em relação aos veteranos que precisaram de atendimento médico no Brasil.
Clique no símbolo abaixo para ouvir a música, cedida gentilmente pelo Ten Israel Rosenthal, da Casa da FEB-RJ. Há alguns vídeos modernos neste link do youtube , reproduzindo este belo e inspirador samba.

Capitão Yedo Comandou

6 respostas »

  1. Meu nome é Felipe Menegola Blauth, e sou neto do falecido Yeddo Jacob Blauth. Infelizmente, ele veio a falecer quando eu era muito novo e pouco o conheci. Agradeço por postar a música,
    Abs

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  2. Muito boa a análise. Penso que não serve apenas para aqueles que se dedicam ao estudo das relações interpessoais na FEB, mas das relações interpessoais na história do Exército brasileiro, sobretudo ao tema das relações oficiais/praças, que se não deixou de manifestar episódios conflituosos (a memória sobre 1935 está aí para ser estudada em profundidade), se caracterizou por algumas especificidades que dizem respeito, inclusive, às características culturais brasileiras, como, por exemplo, o clientelismo e o paternalismo.

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    • Caro Bruno
      Grato pelo comentário. Parece que você adivinhou, um dos próximos “posts” será justamente sobre o homem brasileiro e sua cultura representados na FEB. Vou incluir o clientelismo e o paternalismo nessa análise.
      Abs,

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  3. Excelente a análise desenvolvida. Casos isolados não devem ser generalizados, como foi tão bem relatado na matéria acima.
    No livro A FEB Por Seu Comandante, o General Mascarenhas presta homenagem aos brasileiros citando o nome de todos que lutaram nos campos da Itália.

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  4. lindo registo,lindo samba,é aquilo a que podemos chamar um “samba da guerra”,tenho a certeza que se martinho de vila ou zeca pagodinho ouvissem coravam de inveja,com este belissimo registo…a letra da musica está mesmo adequada à “situação”
    grande abraço para todos do amigo de portugal
    rui estrela
    leiria
    portugal

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