Notícias

O “Lapa Azul” na Dinamarca

O fato que irei narrar aconteceu há pouco tempo atrás. Peguei a estrada ao lado de um amigo, professor de História, a fim de gravarmos entrevistas com veteranos da Força Expedicionária Brasileira. Juntos colhemos inúmeros depoimentos de pracinhas em várias cidades do interior de São Paulo. O resultado foi altamente proveitoso. Foram gravadas histórias notáveis, contadas por senhores que vivenciaram situações de risco de morte em combate, capazes de inspirar inúmeros documentários ou filmes de guerra. Todavia, um ocorrido chamou a minha atenção. No intervalo das entrevistas, fui convidado para participar de um churrasco junto aos colegas de trabalho do amigo professor. Lá chegando, quando falamos brevemente acerca do nosso trabalho, um docente manifestou surpresa e exclamou:

— Mas esses velhos ainda não morreram?

A pergunta foi surpreendente. Se ela tivesse partido de um jovem estudante seria compreensível, mas ela viera de um professor pertencente a uma das mais renomadas instituições de ensino particulares do Brasil.

Porém, o ocorrido é apenas a introdução deste post. O tema central é a divulgação da história dos homens do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria em um local inusitado: a Dinamarca.

Graças à iniciativa do professor brasileiro Vinícius Mariano de Carvalho, os estudantes de Estudos Brasileiros e Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus tiveram uma magnífica aula sobre a participação do Brasil na II Guerra Mundial.

Aqui está um resumo das atividades do curso no texto: “Nas Pegadas da FEB“, escrito pelas alunas Diana Hansen e Kirstine Larsen (em azul):

———————————–

Nas pegadas da FEB

Os estudantes de Estudos Brasileiros e Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus, Dinamarca, após um semestre de aulas sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, fizeram uma excursão à Itália para visitar os campos de batalha onde lutaram os soldados da Força Expedicionária Brasileira, ao lado dos Aliados, nas últimas etapas do conflito.

Mario Pereira, guardião do Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistóia, e filho de mãe italiana e do soldado brasileiro Miguel Pereira, levou os estudantes para uma verdadeira epopeia sobre a presença brasileira na Itália. Foram visitas a monumentos e museus importantes para a memória e homenagem aos soldados da FEB que lutaram e tombaram em combate, entre outros, o monumento ao Sargento Max Wolf Filho e aos “três Bravos Brasileiros”.

10269629_10202105806343472_2366183131038669178_n

 

Os estudantes foram ainda em áreas estratégicas das batalhas da FEB contra os nazistas na linha gótica, conhecendo como era a linha de defesa alemã e e visitando bunkers e postos de observação alemães. Subindo a pé o Monte Castelo, os jovens viveram na carne a dificuldade do terreno e do tempo (uma chuva fina e insistente acompanhou o grupo durante toda a subida), o que lhes facilitou a compreensão do que deve ter sido para um soldado brasileiro ter que percorrer a mesma distância, em temperaturas abaixo de zero e recebendo tiros e granadas alemãs desde o topo do monte. A conquista de Monte Castelo pelos estudantes não se compara à conquista do mesmo monte pelos pracinhas da FEB, mas no silêncio e calma daquele topo, prestamos nossa homenagem e respeito aos que ali tombaram pelo fim de um regime totalitário.

10348232_10202105806263470_7677673199978554432_n

Em Montese, compreenderam como os brasileiros tiveram que passar de uma batalha campal para uma batalha urbana e conquistar uma cidade.

10432135_10202105806303471_265083462641901947_n

Durante a viagem o grupo visitou o pesquisador e colecionador italiano Giovanni Sulla, que impressionou o grupo por sua paixão pelo tema, sua impressionante coleção de artefatos da guerra, desde minas e uniformes, até cartas de amor. Sulla deu uma descrição viva da relações entre os soldados brasileiros com a população local italiana. Até hoje os soldados brasileiros ocupam um lugar especial no coração dos italianos, em virtude da relação cordial que tiveram com aquele povo já tão sofrido pela guerra. Aspectos culturais e religiosos aproximaram brasileiros e italianos e com isso os brasileiros conseguiram deixar marcas de amizade.

10310555_10202105806503476_1300075374614207501_n

O grupo visitou também o altar de Staffoli, construído pelos soldados brasileiros na área de acampamento . Este altar de pedra esteve por muitos anos oculto pela natureza e apenas recentemente foi redescoberto e recuperado. Mais uma memória da passagem da FEB pela Itália.

10350538_10202105806423474_3858580412154847605_n

Antes da viagem, os estudantes assistiram, durante um semestre, um curso sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ministrado pelo Prof. Dr. Vinicius Mariano de Carvalho. O curso teve como objetivo compreender o contexto em que o Brasil vivia antes do conflito, como se viu inserido na guerra e como a participação ativa do país teve influências significativas tanto politica, como culturalmente. Uma boa parte do curso foi dedicado ao estudo da Força Expedicionária Brasileira e um dos pontos altos foi a entrevista online feita com dois veteranos da FEB  Antonio de Pádua Inham e José Maria da Silva, ambos de Juiz de Fora, e com o diretor do documentário Lapa Azul.

red1

red4

red2red3

A conversa com os veteranos deu uma perspectiva humana para o que se estudava no curso e, mesmo à distância, os dois conquistaram a simpatia dos alunos. A conversa com Durval Junior também foi extremamente rica e esclarecedora, uma vez que seu documentário foi assistido durante o curso.

O curso e a excursão pela Itália deram uma ideia mais profunda dos acontecimentos e da importância da memória da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Com certeza aqueles 25.334 soldados influenciaram muito mais a formação do Brasil contemporâneo.

A excursão foi realizada graças ao apoio do Sr. Mario Pereira, que recebeu o grupo com muito carinho e atenção, cuidando de todos os detalhes de um programa rico e significativo.

—————————————

Refletindo um pouco acerca dos dois eventos (o ocorrido no interior paulista e o na Dinamarca), é difícil não questionar os motivos pelos quais nós, brasileiros, desconhecemos a nossa própria história. Quantos docentes de História do Brasil ensinam aos seus alunos a trajetória do Brasil na II GM? Quantos convidam os veteranos da FEB para uma visita à sala de aula? Embora as desculpas sejam muitas, as verdadeiras razões são pouco conhecidas. Uma delas é evidente: os currículos escolares não contemplam a história da FEB.

A escola brasileira possui seus Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) baseados em conceitos equivocados e ultrapassados. Repassada aos jovens com um acentuado viés ideológico, a memória dos nossos heróis e vultos históricos muitas vezes é ignorada ou mesmo deturpada. Pior. O resultado prático dos PCN colocou a educação brasileira nas últimas colocações do ranking educacional internacional. Somado a esse quadro desastroso, boa parte do meio cultural-educacional brasileiro estabeleceu um verdadeiro culto à mediocridade, no qual o ensino de qualidade, a pesquisa e o estudo aprofundado são notas dissonantes. Cada vez há menos lugar nele para profissionais do quilate deste professor brasileiro na Dinamarca — e mais para o do interior paulista.

À propósito, Vinícius Carvalho agora é professor do King’s College, em Londres. Merecidamente.

 

 

7 respostas »

  1. Este é seguramente um dos mais importantes relatos sobre a Força Expedicionária Brasileira(FEB) e o reconhecimento, por colegiais de outro país, no caso a Dinamarca, da saga vivenciada pelos nossos pracinhas no teatro de guerra europeu.Exaltando de inicio os alunos e seus professores, há que se reconhecer também o profícuo trabalho do historiador brasileiro.Os depoimentos dos velhos pracinhas como sempre emociona e não seria justo terminar estas breves considerações sem enfaticamente chamar a atenção para a conclusão, da lavra de meu companheiro de turma na AMAN, o Cel Lacerda.Recomendo leitura atenta para compreender os reais motivos do proposital esquecimento que se observa sobre o papel histórico da FEB e do próprio Exército Brasileiro.

    Curtir

  2. Fico feliz por presenciar todas as homenagens que nossos heróis da Segunda Guerra estão recebendo nos últimos anos.Antes tarde do que nunca, ele merecem.

    Curtir

  3. DE FATO, Eu era da 9ª Cia até poucos dias de nosso embarque, quando fui procurado pelo Oficial de Informações do III Btl que me perguntou se eu queria ser seu auxiliar e respondi que eu estava por conta do que mandassem e ele conversou com o Cmt da cIA e assim eu fui transferido opara a CC iii, onde eu fiz toda a guerra

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s