Operação Brasil

Agosto de 1942: a tragédia incompreendida

Há 80 anos, o Brasil decidiu lutar numa guerra mundial sem saber direito a razão — e continua sem saber até hoje.

Na manhã de 17 de agosto de 1942, o coronel Augusto Maynard Gomes, interventor federal de Sergipe, teve o seu café da manhã abruptamente interrompido por oficiais da Marinha, informando que o vapor Aníbal Benévolo não fizera uma escala em Aracaju no dia anterior, conforme o previsto. Pior: a embarcação não respondia às tentativas de contato. Maynard solicitou a pilotos amadores que sobrevoassem o litoral, a fim de descobrir onde estava o navio.

Pouco tempo depois, uma dupla de aeronautas avistou um largo trecho da orla coalhado de cadáveres, misturados a destroços. A dupla aterrissou seu pequeno avião na faixa de areia da praia, onde prestaram os primeiros socorros aos náufragos. Muitos saíam das águas cambaleantes, cobertos somente por trapos, vários deles feridos e ensanguentados.  Soube-se, então, a causa da tragédia: a sombra maligna da guerra chegara ao Brasil. O Aníbal Benévolo fora torpedeado, assim como o Baependy e o Araraquara. Enquanto os aviadores prestavam auxílio aos sobreviventes, o Arará e o Itagiba eram atacados na entrada da Baía de Todos os Santos. O massacre prosseguia.

Fotos aéreas da chegada dos sobreviventes dos naufrágios (Documentário Agressão).

Serão castigados!

Ao todo, 507 brasileiros — entre homens, mulheres e crianças — foram covardemente trucidados em apenas 48 horas. Os jornais publicaram o ocorrido somente na manhã de 18 de agosto. “Desafio e ultraje ao Brasil! Culminando nos seus atos de traiçoeira selvageria, submarinos do Eixo afundaram cinco navios ao longo do nosso litoral”, especulou o O Globo.[1]

Foi o estopim para que grandes manifestações populares de repúdio eclodissem em várias cidades brasileiras. Como em janeiro daquele ano o Brasil cortara os seus canais diplomáticos com os países do Eixo, não havia como obter deles uma posição formal a respeito do ocorrido — aliás, sequer havia esse interesse.

Atordoados pelo espanto, ninguém sabia dizer ao certo o que acontecera — nem imprensa, políticos, militares ou diplomatas. Como parte considerável dos mortos pertencia ao 7º Grupo de Artilharia de Dorso, transferido para Recife a fim de reforçar a defesa do Nordeste, a cúpula fardada suspeitou de que um ataque submarino do Eixo fora minuciosamente planejado com o auxílio de informantes. Pego de surpresa, o Comando de submarinos alemão (B.d.U) enviou uma mensagem circular à sua frota, tentando descobrir se os torpedeamentos na costa brasileira tinham partido de um dos seus U-boats.

Getúlio bradou à multidão que mandara convidar para uma manifestação dentro do Palácio Guanabara: “Serão castigados! Os espiões, os quinta-colunistas e os denunciantes das partidas dos nossos navios irão, de pá e picareta, abrir estradas no interior do Brasil”.[2] Em 22 de agosto de 1942, após reunião perfunctória com seus ministros, o governo decidiu declarar o “Estado de Beligerância” com a Alemanha e a Itália.

A Declaração de Guerra, feita em 31 de agosto, pulverizou a pouca liberdade sobrevivente no Estado Novo. Foram suspensas as garantias constitucionais, o direito ao habeas corpus, à liberdade de expressão e de escolha de profissão, de associação e de reunião, à livre circulação no território nacional, à inviolabilidade do domicílio, da correspondência e da propriedade. Além disso, as detenções policiais poderiam ocorrer sem culpa formada.

Na prática, a entrada do Brasil na guerra fora a “solução ideal para entreter os militares, afastando-os do jogo do poder”, assinalou o historiador norte-americano Frank D. McCann.[3] Logo em seguida, em 2 de setembro, por meio de uma canetada, Vargas prorrogou seu mandato por tempo indeterminado, enquanto durasse o Estado de Guerra, suspendendo a restrição expressa na Carta de 1937, que limitava o mandato presidencial até o dia 10 de novembro de 1943.[4] Era o melhor dos mundos para o ditador.

A declaração de guerra deu a Getúlio a oportunidade de afastar os militares do jogo do poder, e de manter indefinidamente a ditadura do Estado Novo.

Em Berlim, a reação nazista foi de indiferença, pois o Brasil se alinhara com os EUA muito antes do episódio. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do III Reich afirmou a correspondentes internacionais não ter recebido nenhuma comunicação oficial dos brasileiros. Já uma rádio alemã informou que, se tal notícia fosse confirmada, “não existiria nenhum motivo para surpresa, dada a tendência ultimamente observada do governo do Brasil”.[5] Face a pouca disposição dos dois governos em elucidarem este episódio, desde então a narrativa dos ataques navais na costa do Nordeste passou a ser povoada por versões imprecisas, equivocadas e fantasiosas — propositalmente ou não.

Até mesmo as fontes oficiais militares falharam na descrição da chacina. Publicado em 1985, o quinto volume da História Naval Brasileira repetiu versões estabelecidas pela historiografia militar dos EUA, afirmando que os ataques derivaram de uma “operação aprovada por Hitler” e, mais tarde, modificada. Que dos dez submarinos inicialmente designados para a investida contra o Brasil, apenas um teria levado a cabo os ataques.[6] A História da Força Aérea Brasileira (1975) corroborou a versão errônea norte-americana, enquanto a História do Exército Brasileiro (1972) enganou-se até mesmo na cronologia, datando as ações submarinas do Eixo em 18 e 19 de agosto. Contudo, nenhum ataque aconteceu nesse período, e sim nos dias 15, 16 e 17.[7] Em O Brasil na Mira de Hitler (2007), Roberto Sander ratificou a hipótese de uma operação deliberada e conduzida pelo alto comando naval alemão. A confusão foi generalizada.

Vale mencionar as versões espúrias e persistentes que povoam o imaginário escolar/universitário. Uma delas, de viés antiamericano, promovida nos anos 1940 pelos simpatizantes do nazifascismo (e hoje por socialistas) atribui a autoria da agressão aos “estadunidenses”. Seja no meio militar ou civil, na imprensa ou na Academia, a origem do evento mais dramático da História do Brasil no século XX ficou mais de 70 anos envolta por uma névoa de desinformação, até a publicação de Operação Brasil: o ataque alemão que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial (2015), que traz uma análise contextualizada e minuciosa dos Diários de Guerra do U-507: o único submersível do Eixo envolvido nos ataques de agosto de 1942.

Tratarei de Pernambuco na volta

O Capitão de Corveta Harro Schacht, comandante do U-507, recebeu a missão de atuar na zona central do Atlântico, a fim de interceptar a navegação Aliada no estreito intercontinental entre as Américas e a África. Após vários dias de infinita monotonia, tostando sob o sol causticante na região da Linha do Equador, sem avistar um único navio, fosse amigo, inimigo ou neutro, Schacht elaborou hipóteses mirabolantes para justificar um pedido de “manobras livres” na costa do Brasil. Foi-lhe concedida tal autorização, mas com um condicionante explícito: atuar ao largo de Recife para atacar os navios Aliados que ali faziam reabastecimento, antes da escala seguinte na Cidade do Cabo.

Entretanto, o capitão ignorou solenemente a ordem recebida e depois repetida: “Kehrt gemacht und Kurs auf pernambuco genommen” (Mude de direção e tome o curso de Pernambuco), pois estava ciente da autorização dada pela Kriegsmarine (Marinha de Guerra alemã) para o ataque indiscriminado contra os navios mercantes brasileiros. O caçador estava sedento pela caça, e faltava-lhe apenas a oportunidade. “Tratarei de Pernambuco na volta”, escreveu em seu Diário de Guerra.

Aproveitando-se indevidamente da liberdade de manobra concedida, bem como da exígua faixa de mar territorial brasileira à época, de apenas 3 milhas náuticas (cerca de 5,5 km), foi possível a Schacht atacar navios em rota de cabotagem, em águas internacionais, no ponto mais favorável oferecido pela geografia da região: o litoral baiano-sergipano. A tragédia de agosto não teve origem, portanto, em uma operação planejada pela Marinha nazista, mas em uma iniciativa pessoal do próprio capitão do U-507.

Início do massacre no mar do Nordeste: o U-507 acerta o segundo torpedo no casco do Baependy (15/08/1942)

Assim não começou uma guerra

Operação Brasil desmontou uma versão desses ataques amplamente difundida pelo Jornal do Brasil, em 1971. Nesse ano, o jornal publicou uma série de reportagens intitulada: Assim começou uma guerra. Sem apresentar qualquer evidência documental, o jornalista responsável pela série afirmou que o comandante do submarino responsável pela carnificina recebera uma “ordem direta e pessoal de Hitler”. A matéria chegou a receber o Prêmio Esso de Reportagem. Ao colocar Hitler na origem dos ataques, o autor seguiu o princípio totalitário da simplificação e do inimigo único, identificado nas ações do Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels. Não foi um caso isolado. Via de regra, a historiografia do último conflito mundial obedeceu a linha estabelecida pelo intelectual marxista Eric Hobsbawm, em seu livro Era dos Extremos: “a pergunta sobre quem ou o que causou a Segunda Guerra Mundial pode ser respondida em duas palavras: Adolf Hitler”.[8]

De pouco serviu a tentativa de esclarecer um evento histórico com base nas fontes primárias esmiuçadas em Operação Brasil. A reconstituição da política interna e externa brasileira presente na obra parece ter desagradado os amantes de narrativas caducas e mofadas, incapazes de enxergar o legítimo desejo de neutralidade de grande parte dos brasileiros à época. Por razões ideológicas, preferem dividi-los em dois grupos antagônicos: americanófilos versus germanófilos.

Uma breve consulta na internet mostra que permanecem em vigor versões fictícias publicadas há oito décadas, particularmente em websites de pesquisa escolar. O Portal Brasil Escola, do UOL, diz que “submarinos alemães torpedearam e afundaram cinco navios mercantes brasileiros”.[9] O Portal Mundo Educação, do UOL, afirma que a Alemanha enviou “submarinos para a costa brasileira, atacando e afundando cinco navios mercantes brasileiros em agosto de 1942”.[10] Segundo o Portal Escola Kids, também do UOL, “submarinos nazistas atacaram e afundaram cinco navios mercantes brasileiros, entre os dias 15 e 17 de agosto de 1942”.[11] O site História do Mundo alega que “Entre 15 e 17 de agosto de 1942, seis navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães”.[12] Em 2012, o Estado de São Paulo, retomou a versão da “ordem pessoal de Hitler” para os ataques contra o Brasil.[13] Os exemplos são numerosos.

Alguns poucos livros nacionais, como a segunda edição de 1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida, de João Barone, passaram a descrever a real da origem da entrada do Brasil no conflito, mas são exceções à regra. De uma forma geral, nossa historiografia especializou-se em pesquisar, debater e oferecer detalhes microscópicos de eventos de relevância discutível, enquanto mostrou-se incapaz de ensinar corretamente como o Brasil foi levado a uma guerra mundial.

Passados 80 anos do terrível agosto, o brasileiro comum continua sem saber direito o que levou os seus antepassados a guerrearem. Na raiz dessa questão, talvez esteja o desinteresse em corrigir certas versões confortavelmente estabelecidas no meio acadêmico.

Talvez este seja outro tipo de tragédia, de certa forma ainda mais nefasta que a de 1942.


[1] O Globo, RJ, 18 de agosto de 1942.

[2] Idem.

[3] Frank D. McCann, Aliança Brasil Estados Unidos 1937/1945, Bibliex, 1995, p. 242.

[4] Durval Lourenço Pereira, Operação Brasil: o ataque alemão que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial, Contexto, 2015, p. 229.

[5] https://www.dw.com/pt

[6] História Naval Brasileira, quinto volume, Tomo II, p. 347.

[7] História do Exército Brasileiro, Vol. 3, p. 825

[8] Eric Hobsbawm, Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, pp. 129-130.

[9] https://brasilescola.uol.com.br/historiab/brasil-segunda-guerra.htm

[10] https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/o-brasil-na-segunda-guerra-mundial.htm

[11] https://escolakids.uol.com.br/historia/o-brasil-na-segunda-guerra-mundial.htm

[12] https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/brasil-na-segunda-guerra-mundial.htm

[13] https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,hitler-ordenou-pessoalmente-ataques-a-navios-e-cerco-a-portos,921563

1 resposta »

  1. FATO É FATO, VERSÃO HISTÓRICA CADA UM ONSTRÓI A SUA, A QUE MAIS LHE CONVÊM!
    EM SUMA, TUDO SE RESUME A NARRATIVA!

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